Exmo Senhor Presidente da Empresa Vodafone,

   Senhor Dr. António Carrapatoso

   Exmº Amigo, José Manuel dos Santos

   Ilmº. Público

 

 

Nestes quatro anos consecutivos da atribuição do Prémio da Crónica João Carreira Bom/SLP, em que foram contempladas figuras reconhecidas da cultura portuguesa como Eduardo Prado Coelho, Vasco Pulido Valente e Armando Baptista Bastos, a Sociedade da Língua Portuguesas tem o imenso prazer de o atribuir, este ano, a José Manuel dos Santos.

Começo por reiterar os meus agradecimentos ao Senhor Dr. Carrapatoso, Presidente do Conselho de Administração da Empresa Vodafone, pelo patrocínio a este Prémio e pela sua continuidade, que representa da sua parte a elevada consciência da importância de que reveste este acto cultural, dando, assim, o exemplo de como o mundo empresarial pode também contribuir para a dinâmica cultural do país.

Na verdade, este prémio nasceu com o objectivo de, perpetuando a memória de alguém que foi exímio na crónica, como Carreira Bom, homenagear os agentes da imprensa escrita que se evidenciam neste género literário e jornalístico, pela sua qualidade e oportuna intervenção, quer sejam consagrados, quer se revelem mais recentemente, mas com a mesma aura, o mesmo halo espiritual, o mesmo saber manejar a língua portuguesa.

  

Neste ano de 2007, faz cinco anos que faleceu prematuramente João Carreira Bom, titular deste prémio. É justo que prestemos aqui junto da sua viúva, Sra. D. Maria José Maupérrin, a nossa homenagem a essa figura que prestigiou a imprensa e dignificou a crónica portuguesa. Durante a sua carreira, foram-lhe atribuídos o Prémio Bernard, em Paris, em 1980, o Prémio atribuído à ANOP pela sua reportagem sobre o desvio de um avião da TAP, o Prémio Nacional da Crónica pelo Clube dos Jornalistas, em 1993, o Prémio João Pereira da Rosa, em 1970. O 1º e 2º Prémios de Jornalismo sobre a reportagem da morte de Salazar. João Carreira Bom começa a sua actividade n’O Século, depois na ANOP. Em seguida, é convidado para trabalhar no Expresso, logo no início, trabalha igualmente na revista Sábado com Joaquim Letria, sendo cronista durante anos no Expresso e no Diário de Notícias. O seu nome igualmente ficou para sempre ligado ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, sítio na Internet, que ele criou, e que responde às questões de linguagem, vindas não só dos vários pontos de Portugal como de diversas partes do mundo

Este serviço público gratuito hoje pertence à Sociedade da Língua Portuguesa, conjuntamente com José Mário Costa, procurando continuar a obra de Carreira Bom, no sentido de preservar a língua e divulgá-la correctamente.

 

Falemos agora de José Manuel dos Santos, a quem o júri, constituído por Urbano Tavares Rodrigues, Maria José Maupérrin, Fernando Dacosta, Adelino Gomes, José Gabriel Viegas, em representação da empresa Vodafone, e por mim, Elsa Rodrigues dos Santos, decidiu atribuir-lhe este Prémio, pela sua excelente escrita e pela fina sensibilidade, sobretudo em relação aos problemas sociais e culturais.

José Manuel dos Santos tem um longo currículo em prol da cultura e da comunicação social.

Nasceu em Lisboa, em 1955. Exerce actualmente as funções de Director da Fundação EDP e é colunista do Semanário Expresso. Durante 20 anos, de 1986 a 2006, foi assessor cultural do Presidente da República nos dois mandatos do Dr. Mário Soares e nos dois mandatos do Dr. Jorge Sampaio. Nesse âmbito, organizou no país e no estrangeiro, centenas de acontecimentos culturais no domínio da literatura, artes plásticas, música, teatro, pensamento, ciências humanas. Acompanhou a política cultural do país nos seus vários níveis de criação. De 1978 a 1986, tinha exercido já actividades nas áreas do jornalismo cultural e da assessoria da comunicação social. Nessa qualidade, foi, entre 1980 e 1983, autor e apresentador do magazine cultural «A Imagem das Letras» (RTP2). Integrou com António Mega Ferreira a equipa do programa «Viva a Cultura» (RTP1) e com Alexandre O’Neill e José Mariano Gago o conselho consultivo dos programas culturais da RTP, coordenados por António Reis. Nesse período foi ainda, durante 5 anos, cronista residente do jornal Tempo e colaborador dos jornais A Luta, Portugal Hoje, Expresso e JL. Foi eleito pela Assembleia da República para representar este órgão de soberania no Conselho de Imprensa (1984-85). Antes, tinha integrado os Conselhos de Informação para a RTP, RDP e Imprensa Escrita que funcionava junto do Parlamento

É autor da obra poética O Livro dos Registos e tem colaborado em várias obras de índole literária e cultural.

   Foi agraciado com várias condecorações nacionais e estrangeiras, entre as quais, as Ordens de Sant’Iago de Espada, a Ordem do Infante Dom Henrique, a Ordem de Isabel a Católica e da Legião de Honra.

 

As suas crónicas versam vários assuntos, quer da área cultural, quer da social e política, dando continuidade a uma tradição em Portugal muito antiga.

Derivado do termo grego «cronos» que significa «tempo», a palavra «crónica» reporta-se a acontecimentos por uma ordem temporal. Apesar de não ser incluída nos géneros literários pelas teorias da literatura, mas fazendo parte do género jornalístico, no entanto, exige-se dela qualidade estética. Jacinto do Prado Coelho afirma no Dicionário de Literatura que a crónica foi evoluindo e ganhando novos significados. Passa a ser «um termo vago que tanto serve para classificar pequenos contos de entrecho mal definido ou comentários ligeiros de episódios reais ou imaginários, como um trecho de apreciação literária ou de crítica de costumes. Apenas se lhe pede que seja oportuna, aguda sem ser profunda, pessoal sem excesso de subjectivismo e, sobretudo, inteligível.»

De todos estes requisitos se alimentam as crónicas de José Manuel dos Santos.

Há, com efeito, um historial da crónica portuguesa que vai desde as anónimas anteriores ao sec. XV a toda a plêiade de cronistas do sec. XV e XVI, como Fernão Lopes, Gomes Eanes de Azurara, Rui de Pina, Garcia de Resende, Damião de Góis até Cavaleiro de Oliveira, um dos primeiros modernos cronistas. É, no entanto, no sec. XIX que a crónica tem um maior número de cultores. É o caso de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós n’as Farpas, de Fialho de Almeida n’Os  Gatos. Ao longo de todo o sec. XIX e princípio do sec. XX, muitos outros se evidenciaram como Gervásio Lobato n’A Comédia de Lisboa, Xavier de Carvalho, Guilherme de Azevedo, Pinheiro de Chagas João Chagas, Carlos Malheiro Dias, Augusto de Castro, Câmara Reis, Ramada Curto, etc. Mais modernamente, as célebres crónicas de Vitorino Nemésio, lidas aos microfones da Emissora Nacional ou da RTP, de João Araújo Correia, José Gomes Ferreira que reuniu em O Mundo dos Outros a sua visão pessoal do mundo que o rodeava. O mesmo acontece com Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes ou Artur Portela Filho.

Nos dias de hoje, muitos se lançam na aventura da palavra, pintando os factos quotidianos, imprimindo-lhes ora um tom acutilante, ora esbatendo-se em rasgos mais ou menos jocosos, mais ou menos polémicos, mas, na maioria, tendo um carácter mais político, comentando a actuação dos que governam o país e dos acontecimentos diários. Usam particularmente da ironia, procurando atingir certas entidades ou acontecimentos.

 

As crónicas de José Manuel dos Santos buscam um equilíbrio, não entram em jogos de chicana ou de intriga, são objectivas porque partem sempre de um facto verídico, não se furtando, porém, ao seu ponto de vista pessoal, exprimindo-se não raro com uma fina ironia ou esgrimindo o próprio pensamento num jogo de imagens, privilegiando o oximoro, opondo conceitos, negando, para logo a seguir concluir, afirmando ou evidenciando a função poética da linguagem, traduzida em sentimentos de ternura, de revolta, de amargura ou de apreço.

Assim acontece quando na crónica saída no «Actual» do Expresso, em 3 de Março de 2007, intitulada «O Suicídio», José Manuel dos Santos comenta, de uma forma pungente, dolorosamente autêntica, mas poética, na sua dramaticidade, a reportagem do telejornal sobre Odemira, a terra portuguesa alentejana com maior índice de suicídios por ano, que é também um dos mais altos da Europa e do mundo. Relata as palavras de uma mulher, falando do suicídio dos familiares, traçado pelo destino e sibilinamente anunciando o seu como algo de inevitável. «As mulheres que apareceram vestiam todas de preto e tinham os olhos lentos e secos (não duros) de resignação. Uns olhos que olhavam o deserto. Mas o que fazia das suas palavras uma acusação com força universal era não haver nelas nem protesto dito, nem lamento exclamado. Isso tornava-as impessoais e desmedidas: protesto e lamento, sim, mas mudos, abrindo um grito silencioso num mundo de ruído, o nosso, onde tudo soa idêntico a tudo: o uivo inumano do assassino igual ao uivo humano do assassinado.»

Ou ainda quando «dá a César o que é de César» ao apontar as qualidades de quem sabe dirigir uma das instituições mais insignes e vetustas de Portugal que é o teatro de São Carlos, por Paolo Pinamonti.

Na crónica a que intitulou «Inverno» evoca Fernando Pessoa e os seus heterónimos, correlacionando as estações do ano com a idiossincrasia de cada um deles. E cito: «E o que é a Mensagem senão o relâmpago do mito no Inverno da história? Pessoa percorre, acompanhado dos seus heterónimos, o ciclo completo das estações que fazem o arco do tempo natural. Pessoa ortónimo é, na sua febre fria, o Inverno invencível. Álvaro de Campos acende um ardor alucinado, doloroso, sexual, fazendo dos sentidos um Verão explodido, cujo sol final tudo cobre de uma luz do deserto. No seu fatalismo, em que nascemos naturais como as flores, Alberto Caeiro é a Primavera que torna a natureza, a realidade, a evidência e a verdade uma e a mesma coisa. Ricardo Reis, numa serena ansiedade saciada, é o Outono que contempla a vida na luz doirada e triste que antecede o ocaso. Pessoa, que se quis imparcial como a neve, leve como a sombra, disperso como a chuva, é afinal eterno como o ar, nessa meteorologia da alma que é a sua obra plural.»

Neste âmbito literário, José Manuel dos Santos participa na belíssima publicação «A Idade dos Mares» do Instituto do Emprego e Formação Profissional, com uma crónica intitulada «Camões e Pessoa - Ou do Mar como Terra e da Terra como Mar», iniciando com estas palavras:

«De todas as vastidões do Mundo, a do mar é aquela que mais nos prolonga, como se por ela nos imaginássemos no que nos falta, para não nos faltarmos. Se assim for, não é de nós que o mar se vê – é do mar que nós nos vemos».

A partir desta afirmação, faz uma reflexão sobre o sentido da presença do mar na literatura, nomeadamente em Camões e Fernando Pessoa, concluindo que «em Os Lusíadas, Portugal está no lugar do mar (o Portugal marítimo). Na Mensagem, o mar está no lugar de Portugal (o mar português). Mas Camões já tinha previsto «esse mar no lugar de Portugal» e o Velho do Restelo é a voz dessa profecia lamentosa.»

Em «Os Rostos do Século», crónica incluída numa luxuosa publicação da Torre do Tombo, intitulada «Pelos Séculos d’O Século», José Manuel dos Santos traça o percurso de Portugal e do mundo no século XX, evocando os momentos mais marcantes e cruciais do século XX na História de Portugal, descrevendo, em breves pinceladas, Álvaro Cunhal e Mário Soares, dois rostos que marcaram indelevelmente o rosto de Portugal. Fala-nos das grandes figuras da cultura portuguesa, Pessoa e Almada Negreiros e dá-nos um retrato do Estado Novo, de uma maneira magistral, desenhando notavelmente o perfil de Salazar:

«Almada fez tudo, de facto, Fez mesmo um cartaz a reclamar um «Estado Forte». Esse foi o cartaz da campanha do referendo da Constituição de 1933, início do Estado Novo. Durante quase meio século, a máscara que este tempo usou foi a de Salazar: um rosto que mesmo de frente parecia de perfil.» (…)

E prossegue: «Este homem, que fez do mundo o espelho, em que só o seu rosto se reflectia, negava o Outro pelo processo de lhe recusar o direito a ter rosto.

A propaganda oficial que António Ferro iniciou, chegou a querer que o rosto do ditador já estivesse previsto nos rostos dos Painéis das Janelas Verdes. Salazar era hábil, cruel, astuto, providencial, provinciano e pessimista. (…). A sua tirania foi uma forma de descrença, de desventura, de desilusão, de desprezo. E até o seu Deus, em nome do qual se via tirano, era um Deus que ele quis ter sempre às ordens, para que assim pudesse parecer que estava às ordens d’Ele

E a terminar esta longa crónica, José Manuel dos Santos traz uma questão que é bastante pertinente nos dias de hoje, neste Portugal que parece ter perdido a crença e que tanto desdenha de si próprio e do Outro:

  

«Oliveira Martins, um ano antes de o jornal O Século nascer, em 1879, termina a História de Portugal com uma página de uma tristeza ilimitada e um lamento invencível:

«Daí um caso, talvez único na Europa, de um povo que se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação se condena pela boca dos seus próprios filhos é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu, por tal forma, a consciência da dignidade colectiva».

Quase um século depois, Alexandre O’Neill satiriza num poema da Feira Cabisbaixa:

«País onde qualquer palerma diz

a afastar do busílis o nariz:

    -Não, não é para mim este país!»

E José Manuel dos Santos interroga-se: «A que se deve esta falta de cortesia, tão comum e tão constante dos portugueses para com Portugal e de Portugal para com os portugueses? Será que os outros povos a têm para com os seus países, mas não possuem dela a nossa consciência infeliz e o nosso remorso ímpio? Quem responder a estas perguntas decifrará o mais persistente enigma da nossa história e o mais vicioso tema da nossa cultura.»

Poder-se-iam citar muitos outros textos que atestam a qualidade das suas crónicas, como por exemplo quando numa das suas recentes crónicas se refere a Walter Benjamim, afirmando: «Desde que, num dia já longínquo, abri um livro de Walter Benjamim, percebi que tinha nas mãos uma das chaves para aceder-me e aceder ao que inocentemente chamamos o nosso tempo.».

Ou quando numa outra intitulada «Europa» nos diz: «A Europa é espectro, contradição, ameaça, superação. É pergunta, insónia e anamnese, afirmação e crítica, clareza e dédalo. É rasgão e rasgo, hesitação e avanço, razão e noite, realidade e miragem no deserto do que ainda não é.»

Creio que estes fragmentos de texto são suficientes para compreendermos que estamos perante um cronista da mesma estirpe dos que fizeram a glória da literatura e da crónica em Portugal.

A Sociedade da Língua Portuguesa que tem como um dos objectivos preservar, cultivar e divulgar o nosso idioma, sente-se feliz por poder premiar alguém que, para além da pertinência dos conteúdos temáticos, sabe trabalhar a língua portuguesa, explorando a sua riqueza, imprimindo no seu tecido textual aquela leveza, graça e originalidade que permitem dizer-nos com orgulho que a nossa língua é das mais ricas e encantatórias.   

 

                        

                                            Elsa Rodrigues dos Santos