Discurso da entrega do

Grande Prémio de Linguística

Luís Filipe Lindley Cintra/2006

 

 

O Grande Prémio Internacional de Linguística, tem sido atribuído, desde 1981, a obras importantes dos grandes mestres da linguística portuguesa, quer nacionais, quer estrangeiros, desde o Prof. João Malaca Casteleiro com a sua obra Sintaxe Transformacional do Adjectivo e o Prof. Telmo Santos Verdelho com o trabalho As Palavras e as Ideias na Revolução Liberal de 1820, à Prof. Maria Helena Mira Mateus que, juntamente com as Profs. Ana Brito, Inês Silva Duarte e Isabel Hub Faria concorreram com a sua Gramática de Língua Portuguesa. Outros nomes como António Quinta Mendes, Maria José Albarran, Maria Luísa Seabra Azevedo, Ana Maria Martins, Maria Perpétua Gonçalves (moçambicana) e Wang Zeng-Yang (chinês) deram igualmente o seu contributo, prestigiando este concurso.

Em 1994, o referido Prémio passou a chamar-se Grande Prémio de Linguística LuísFilipe Lindley Cintra. Desde então foram premiados os Profs. João Andrade Peres e Telmo Móia com a obra Áreas Críticas da Língua Portuguesa e o austríaco Dieter Messner com o seu Dicionário dos Dicionários Portugueses.

Em 1996, os Profs. Carlos Gouveia, Isabel Hub Faria e Emília Ribeiro Pedro, Inês Duarte concorrem e recebem o Prémio com a sua obra Introdução à Linguística Geral Portuguesa. Em 2000, é a vez de o Prof. Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca ser premiado com o seu livro Crónicas Breves e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra. Em 2006, ganha o Prémio a Prof. Doutora Hanna Jacubowicz Batoréo, pela sua obra, Linguística Portuguesa: Abordagem Cognitiva.

Desde que foi instituído este Prémio, o júri tem sido formado por nomes significativos da área da Linguística e da cultura portuguesas. Muitos deles também já premiados, quando não tenham feito parte do júri, nesse ano. E passamos a citar: Maria Helena Mira Mateus, Isabel Hub Faria, Óscar Lopes, Gonçalo Herculano de Carvalho, Maria Raquel Delgado Martins, Fernanda Irene Fonseca, Dulce Rebelo, Ernesto de Andrade, José Neves Henriques, Nélia Alexandre, Clara Santana Rita, D’Silvas Filho, Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca e António Lavouras, como igualmente, por inerência do cargo de Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa, o Prof. Fernando Sylvan, em tempos idos, e, nos últimos anos, eu, Elsa Rodrigues dos Santos.

Este Prémio tem o patrocínio do Ministério da Cultura, ou mais concretamente, da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas. É, assim, para nós muito gratificante a presença do seu Vice-Presidente, Dr. José Manuel Cortês.  

Concorreram a este prémio onze obras, todas elas de qualidade e revelando uma cuidada investigação.

O júri, constituído pela Prof. Doutora Dulce Rebelo, o Prof. Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, o Mestre António Lavouras e eu própria, decidiu, por unanimidade, atribuir, este ano, o Prémio ao Prof. Doutor Augusto Soares da Silva, pela sua obra O Mundo dos Sentidos em Português - Polissemia, Semântica e Cognição por se tratar de um trabalho de grande envergadura, constituindo um notável contributo para os Estudos Linguísticos em Portugal, nomeadamente na área da Semântica das Línguas.

 

O Prof. Doutor Augusto Soares da Silva é Professor Associado de Linguística da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, em Braga. É ainda Membro do Conselho de Direcção da Faculdade de Filosofia da UCP. Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Linguística. Professor Visitante do Departamento de Linguística da Universidade de Alicante.

Participação em inúmeros Congressos nacionais e no estrangeiro.

Vasta bibliografia na área da Linguística.

 

A Prof. Doutora Dulce Rebelo irá analisar a obra premiada, mas antes de lhe passar a palavra, gostaria de fazer uma breve referência a cada uma das obras a concurso, dada a importância que reveste cada uma delas.

 

Mário José Filipe da Silva

Promoção da Língua Portuguesa no Mundo:

Hipótese de Modelo Estratégico

(Tese de Doutoramento em Estudos Portugueses.

Universidade Aberta, 2005)

 

Esta tese insere-se no âmbito das políticas da língua

Responde essencialmente à questão:

«Perante um quadro que nos mostra a hegemonia da língua inglesa, que caminho deve trilhar uma língua como o português para se afirmar no contexto internacional?»

 

A isso Mário Filipe procura responder, começando por declarar que «a língua portuguesa para se afirmar, deve, entre outras orientações estratégicas, seguir um plano de criação de oportunidades para a sua aprendizagem.

A língua portuguesa deve mostrar-se como a língua da amizade e da partilha cultural, mas acima de todos os aspectos, tem de estar associada a uma imagem de língua do futuro e da modernidade, de desenvolvimento e da prosperidade económica, um dos motores mais poderosos para o sucesso de qualquer língua.» Põe ainda em relevo a importância do Brasil, com os seus 182 milhões de falantes, como factor determinante no futuro da língua portuguesa enquanto língua internacional.

 

Rui Abel Rodrigues Pereira

Formação de Verbos em Português

Afixação heterocategorial

(Tese de doutoramento)

Universidade Católica Portuguesa,

Viseu, 2006

 

Neste estudo, descreve-se a formação de verbos de diversa categoria (denominais e adjectivais), através de operações de afixação: prefixação, sufixação e parassíntese.

A investigação realizada permitiu verificar a formação de verbos heterocategoriais que resultam de um processo de co-composição em que participam as bases e os afixos.

Permitiu, entre outras coisas, confirmar a existência de marcas diferenciadas entre os afixos.

 

Susana Margarida da Costa Neves

Prefixação Espacio-Temporal na Língua Portuguesa

(Tese de Mestrado)

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2005

 

 

No âmbito de uma visão associativa dos processos de formação de palavras, a autora analisa a prefixação espacio-temporal na língua portuguesa, instanciada através dos prefixos pré -, pós- e ante-.

É uma tese importante no âmbito da formação de palavras, trazendo um contributo relevante para esta área da gramática.

 

 

Maria Raquel Delgado-Martins, Hugo Gil Ferreira

Português Corrente

Estilos do Português no Ensino Secundário

Lisboa, Editorial Caminho, 2006

 

Ao tratarem do «Português Corrente», as autoras partem do princípio que existe um português aceite por todos, ou melhor, praticado ou aceite pelos falantes do português europeu.

Na divulgação e estabelecimento deste português, a escolaridade desempenha um papel muito importante por criar uma linguagem comum em falantes de origens geográficas, sociais e culturais muito variadas.

Este livro reveste-se de uma grande importância sobretudo na área da didáctica do português, enriquecido pelos materiais e módulos que o acompanham.

 

 

Esperança Cardeira

História do Português

Col.  Essencial sobre a Língua Portuguesa

Coordenação de Maria Helena Mira Mateus e Alina Vilalva (ILTEC)

Lisboa, Caminho, 2006.

 

Este livro faz parte de uma colecção, «Essencial sobre a Língua Portuguesa» que é dedicada à divulgação do conhecimento que tem vindo a ser produzido no domínio da linguística, particularmente no que diz respeito ao Português.

Neste livro, História do Português, depois do capítulo preliminar «Antes de mais», segue-se o capítulo: «Perguntas interessantes & Respostas conhecidas». Uma das questões que se coloca é: «Falamos português, porquê?». Como resposta desenvolvem-se os temas:

«A romanização e o latim vulgar, «O papel dos substratos e superstratos.» Surge uma pergunta interessante: «Como falava Afonso Henriques?»

Regressa-se às origens de Portugal com uma reflexão sobre reconquista e povoamento, o estudo do Galego português e do Português Antigo e ainda sobre o Português de Gil Vicente e de Camões. Chegando aos nossos dias, reflecte sobre as mudanças recentes do Português.

 

Dulce Pereira

Crioulos de Base Portuguesa

Lisboa, Caminho, 2005

 

 

A autora trata, em primeiro lugar, dos usos vulgares do termo «crioulo» e as principais perspectivas da investigação sobre crioulos, encarados estes como línguas autónomas, resultantes de uma forma muito especial de contacto sócio-linguístico.

Dá muitos exemplos de crioulos existentes no mundo: de base europeia ( não só portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) que ocupam um maior lugar na obra,  mas também francesa, inglesa, neerlandesa), como ainda crioulos de base não europeia ( o de Korlai na Índia, e o Papiá Kristang de Malaca).

 

 

José Barbosa Machado

Organiza a versão de

Clemente Sanchez Vercial

Sacramental

Edição Semi-diplomática, introdução, lematização e notas de José Barbosa Machado.

Publicações Pena-Perfeita, 2005

 

O Sacramental da autoria de Clemente Sanchez de Vercial (1370-1438) teve durante mais de um século, desde Março de 1423 até à sua inclusão no índice de Valdês de 1559, uma difusão manuscrita relativamente escassa. Foi , porém, uma obra muito estimada através dos séculos por ser considerada a primeira obra impressa na Península Ibérica, hipótese que nunca foi refutada até aos nossos dias. Apesar disso, nunca em Espanha houve a coragem de se fazer, nos tempos modernos, uma nova edição, realizada com sentido crítico e com a contextualização de estudos históricos e linguísticos pertinentes. Isso foi feito agora pelo Professor do Departamento de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, Dr. José Barbosa Machado nesta 1ª edição portuguesa, enriquecendo os Estudos de Linguística Histórica.

 

 

Nuno José da Silva apresenta três trabalhos:

 

Das Palavras Ortograficamente terminadas em N

 

Uma (?) semântica, duas sintaxes: da oposição formal entre coordenação adversativa e subordinação concessiva

 

Sobre a Deixis Temporal fictiva num conto de Inês Pedrosa

 

São três pequenos trabalhos muito bem feitos e interessantes, sobretudo para serem apresentados num Congresso, mas não têm a envergadura dos restantes que foram apresentados a concurso.

 

E, finalmente, a obra do autor premiado

 

Augusto Soares da Silva

O Mundo dos Sentidos em Português

Polissemia, Semântica e Cognição

 

É um estudo muito interessante sobre a polissemia que constitui uma realidade natural, conceptual e linguisticamente necessária.

O conceito de polissemia encerra toda uma série de problemas. Por isso, são tratados, nesta obra, os problemas de definição e demarcação entre polissemia e monossemia e polissemia e homonímia. Ou ainda problemas mais profundos, directamente relacionados com a natureza do significado ou do sentido. É um trabalho de grande profundidade na área da Semântica que prestigia os estudos linguísticos em Portugal.

Mas sobre esta obra irá falar a Prof. Doutora Dulce Rebelo, a quem agradeço a sua disponibilidade e o seu valioso contributo, como agradeço também a todos os restantes membros do júri.

 

Resta-me, pois, felicitar o Doutor Augusto Soares da Silva, desejando-lhe uma auspiciosa carreira, e agradecer, uma vez mais, o patrocínio deste Prémio, no valor de 5 mil euros, à Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, na pessoa do seu Vice-Presidente, o Dr. José Manuel Cortês, a quem solicito a continuação do apoio à Sociedade da Língua Portuguesa.

 

 

                                                                                                                             Elsa Rodrigues dos Santos