Ex.ma Senhora Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa
Ex.mo Senhor
Vice-Presidente da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas
Ex.ma Senhora Prof.a
Doutora Dulce Rebelo
Il.mo Público
A minha primeira
palavra é naturalmente
de profundo agradecimento e reconhecimento.
Agradeço à Sociedade da Língua
Portuguesa e ao Ministério da Cultura/Direcção
Geral do Livro e das Bibliotecas
a atribuição deste prémio. E quero prestar
a minha homenagem à Sociedade
da Língua Portuguesa pelos
seus quase 60 anos
de dedicação contínua
e pouco apoiada à investigação,
difusão e defesa da Língua
Portuguesa.
Sendo a linguagem
uma forma de conhecimento, como
hoje mais
fundamentadamente podemos reconhecer graças
aos avanços das ciências
da cognição, então toda
ela é acerca do significado.
E servindo a linguagem para conhecer
e comunicar o mundo, então
o significado não é espelho
desse mundo mas o meio
para o construir; o significado
não se pode separar de outras formas
de conhecimento mas
constitui-se na experiência global
do ser humano, tanto
individual como social
e cultural; o significado não
é estático nem rígido
mas dinâmico e flexível
e, portanto, adaptado à variação, à inovação
e à mudança. Não
admira pois que as formas
linguísticas, de número necessariamente finito,
tendam a ter vários sentidos
– tendam a ser, como geralmente
dizemos, polissémicas – e que
muitas delas, como o verbo
deixar, o marcador
discursivo pronto,
o sufixo diminutivo,
o objecto indirecto, a entoação descendente
e ascendente, constituam verdadeiros mundos
de sentidos. E também
se torna claro que
o estudo da polissemia é de grande
importância para qualquer
estudo semântico da linguagem,
da cognição e da cultura.
Se o significado
e a polissemia são tão
essenciais e evidentes,
já surpreende que as maiores
teorias linguísticas do século
passado, que deram à
Linguística todos os créditos
de cientificidade, não tenham considerado estes
fenómenos: a linguagem é concebida primariamente em
termos formais (como
uma colecção de estruturas e regras
formais) e a polissemia secundarizada em
nome do ideal
semiótico “uma forma, um significado”,
da pretensa existência
de “significados invariantes/fundamentais”
e da proclamadíssima tese da autonomia
da linguagem. Só há
uns 20 anos, com o aparecimento,
tanto nos EUA como
nalguns países da Europa, de uma teoria
linguística que toma como
princípios fundamentais
os pressupostos que acima
enunciámos – falo da Linguística Cognitiva,
fundada pelos norte-americanos
Ron Langacker, George Lakoff e Len Talmy – é que a
polissemia, reconhecida e assim baptizada na tradição
histórico-filológica dos finais do séc. XIX, é
redescoberta e o que fora
um obstáculo à teoria
linguística torna-se uma oportunidade para
colocar o significado no centro
dos estudos linguísticos, para ligar
a linguagem à cognição
e à cultura, numa palavra,
para recontextualizar
a linguagem. Pessoalmente,
foram os problemas da polissemia que
nos levaram ao conhecimento
da Linguística Cognitiva.
Hoje sabemos
que os significados não
são coisas bem
definidas, com propriedades
fixas e determinadas, mas processos
mentais flexíveis
fundamentados na experiência humana;
que a semântica de
uma unidade lexical ou
gramatical não é um
saco de sentidos mas
um potencial de
significação estruturado com base
em protótipos e em
esquemas e sensível a
efeitos contextuais; que
não é possível determinar
exactamente quantos sentidos
uma palavra tem; sabemos que
os principais mecanismos
cognitivos de geração e associação
de sentidos são metáfora,
metonímia, protótipos,
abstracção, subjectivização, ajustamentos focais (de perspectiva
e proeminência conceptuais) e que
estes verdadeiros modelos
cognoscitivos estão geralmente
associados a estratégias
pragmáticas de interacção social;
e sabemos que o nosso
cérebro processa diferentes
níveis de categorização e de consciência
– lembremos os estudos neurobiológicos de G.
Edelman e A. Damásio – e está predisposto para
a formação de categorias
(perceptivas, conceptuais e linguísticas) complexas ou
(digamos) polissémicas. A aplicação destes conhecimentos
permite enormes avanços
em domínios como
a construção de dicionários, a tradução,
a engenharia e o tratamento
computacional das línguas, em
particular, a construção de algoritmos
para a identificação/desambiguação
automática de sentidos
de palavras. Apesar
destes progressos – tanto
mais relevantes quanto
é certo que o aparentemente
simples fenómeno da polissemia coloca vários
e complicados problemas ao linguista –, há ainda
hoje questões sem
resposta. Por exemplo,
não sabemos a que nível
de generalidade ou
abstracção se encontram diferentes sentidos
associados numa única
forma linguística (isto é, não
sabemos a que nível existe a
polissemia); não sabemos como
estão armazenados e representados na mente dos falantes
os vários usos de uma
palavra ou outra
expressão linguística; e em
linguística computacional ainda não
conseguimos uma boa identificação/desambiguação automática
dos sentidos. Poderemos vir a resolver
estes problemas de diferenciação,
representação mental e
automatização de sentidos? Farão eles
parte dos limites da ciência, discutidos há poucos
dias na conferência
da Gulbenkian? Também aqui,
como lá, as respostas
poderão dividir-se entre o cepticismo
e o optimismo, mas o certo
é que a ciência,
neste caso, a Linguística Cognitiva e as neurociências
não param, tendo estas últimas pela
frente o enorme desafio
da decifração do código neuronal.
Neste contexto
de redescoberta da polissemia e do muito que
ela nos pode mostrar
sobre o significado,
a linguagem e a cognição,
de reproblematização, de questões sem
resposta e de novas questões
semânticas, este
prémio reveste-se de um significado
especial. É um grande
estímulo para todos
nós continuarmos os estudos
semânticos sobre uma língua
que, pela sua
dimensão transcontinental
e por todas as demais
razões óbvias, merece mais
apoio. Há muitos e maravilhosos
mundos de sentidos em
português para estudar. E um
grande estímulo também
para o desenvolvimento da
Linguística Cognitiva, ainda pouco
conhecida em Portugal
– aliás, um segundo
incentivo seguido da edição
anterior deste mesmo
prémio atribuído à minha colega
Prof.a Hanna Batoréo, pelo seu CD
“Linguística Portuguesa: Abordagem Cognitiva”. Tudo
isto é tanto mais
significativo quanto se trata
do Prémio Luís Filipe Lindley Cintra, a quem a
Linguística Portuguesa tanto deve, académico e cidadão
exemplares, Mestre de
todos nós, incluindo
os que, como eu,
não tiveram o privilégio
de serem seus alunos.
O Prof. Lindley Cintra não teve a oportunidade
de acompanhar o desenvolvimento
da Linguística Cognitiva, porque faleceu no momento
em que este
paradigma se institucionalizava. Mas
se tivesse, estou certo que
o faria com a abertura
e a atenção do homem afável
e militante, o rigor, a minúcia
e o humanismo do notável
filólogo, historiador e dialectólogo.
Para terminar,
este prémio pertence também
aos que mais
directamente favoreceram e conduziram estes estudos:
a Faculdade de Filosofia da Universidade
Católica Portuguesa, a quem
devo toda a minha formação
e a profissão, e os meus
mestres – entre outros,
o Prof. Amadeu Torres (meu
professor de todas as disciplinas
de Linguística Portuguesa), o saudoso Prof. José
G. Herculano de Carvalho, de quem
recebi o ímpeto e o gosto
pelo estudo dos sentidos
e a quem dedico esta obra,
o Prof. Mário Vilela, e o Prof. Dirk Geeraerts (da Universidade
Católica de Lovaina), de quem
aprendi vários dos instrumentos
teóricos e metodológicos e das maravilhas
da semântica lexical
e da semântica cognitiva.
A todos, aos
professores e colegas
aqui presentes, aos estudiosos
e apaixonados pela língua
portuguesa, muito obrigado!
Lisboa,
7 de Novembro de 2007.
Augusto Soares da Silva