A Crónica
Teresa- De que nos vai falar hoje?
Elsa- Da crónica. E a pergunta que faço a mim própria é: A crónica é um género literário?
Teresa- E então é ou não é?
Elsa- A crónica não é incluída nos géneros literários pelas teorias da literatura, mas fazendo parte de um tipo de texto jornalístico. No entanto, exige-se da crónica que tenha qualidade estética tal como um texto literário, por isso, quanto a mim, deve ser reconhecida como um género literário.
Teresa- E como define a crónica?
Elsa- Derivada do termo grego «cronos», que significa «tempo», a palavra «crónica» reporta-se a acontecimentos por uma ordem temporal.
Em Portugal, as mais antigas crónicas são anónimas, mas no sec. XV e XVI surge uma plêiade de cronistas, como Fernão Lopes, Gomes Eanes Azurara, Rui de Pina, Garcia de Resende e Damião de Góis que escreveram as crónicas dos reis da primeira e da segunda dinastia, dos nossos descobrimentos e conquistas, etc.
E daí que, nessa época, o termo «crónica» empregava-se em referência a qualquer narração sistemática de acontecimentos, com pouco ou nenhum empenho na sua análise e interpretação.
Fernão Lopes, no entanto, alargou o âmbito da crónica, pela posição política que tomou dos acontecimentos, empenhando-se inclusivamente na beleza da escrita, no estilo e no dinamismo que imprimiu às descrições.
Nesta acepção, o âmbito da crónica foi evoluindo e ganhando novos significados.
Passa a ser «um termo vago que tanto serve para classificar pequenos contos de entrecho mal definido ou comentários ligeiros de episódios reais ou imaginários, como o trecho de apreciação literária ou crítica de costumes», afirma Jacinto do Prado Coelho no seu Dicionário da Literatura, Iº vol., p.236. E adianta: «Apenas se lhe pede que seja oportuna, aguda sem ser profunda, pessoal sem excesso de subjectivismo e sobretudo inteligível.»
E Prado Coelho aponta como um dos primeiros modernos cronistas Cavaleiro de Oliveira.
Mas é no sec. XIX que a crónica teve um maior número de cultores. É o caso de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós n’As Farpas, de Fialho de Almeida in Os Gatos.
Ao longo do sec. XIX e princípios do sec. XX, muitos outros se evidenciaram como Gervásio Lobato na sua Comédia de Lisboa, Xavier de Carvalho, Guilherme de Azevedo, Pinheiro de Chagas, João Chagas, Carlos Malheiro Dias, Augusto Castro, Câmara Reys, Ramada Curto, etc.
Mais modernamente as célebres crónicas de Vitorino Nemésio lidas ao microfone da Emissora Nacional ou da RTP.
João Araújo Correia, cronista de grande estirpe, José Gomes Ferreira que reuniu em O Mundo dos Outros a sua visão pessoal do mundo que o rodeava. O mesmo aconteceu com Rodrigues Miguéis e Manuel Mendes ou Artur Portela Filho. São crónicas de carácter social e de grande qualidade literária.
Teresa - E hoje, não acha que a crónica jornalística tende a ser predominantemente política?
Elsa – Actualmente a crónica jornalística tem na maioria dos casos, na verdade, um carácter mais político, comenta a actuação dos políticos e dos acontecimentos diários.
Usa particularmente da ironia, do tom jocoso ou da linguagem acutilante, procurando atingir certas entidades e «faits divers».
Teresa - Nos nossos dias, a crónica não está na
moda?
Elsa - A crónica jornalística, nestes últimos anos, tem ganho variadíssimos cultores, uns de grande nomeada, que enriquecem o jornalismo português, confundindo-se a “crónica” com “coluna ou comentário de opinião pública”
No entanto, a
crónica de hoje com preocupação de comentar os factos políticos, perdeu um
tanto, em relação às décadas anteriores, a qualidade estética da
linguagem.
Teresa - Pode apontar-nos alguns nomes de cronistas mais actuais.
Elsa – A Sociedade da Língua Portuguesa atribuiu já o Prémio da Crónica João Carreira Bom/ SLP, homenageando o titular deste prémio pelo seu estilo inconfundível de cronista, a três nomes notáveis da cultura portuguesa que se têm dedicado à crónica, quer política, quer literária, Eduardo Prado Coelho, Vasco Pulido Valente e Armando Baptista Bastos. Mas muitos outros nomes se podem referir como Miguel Sousa Tavares, João Bernard da Costa, Inês Pedrosa, Clara Ferreira Alves, Ana Sá Lopes, Clara Pinto Correia, Eduardo Dâmaso, José António Teixeira, Joaquim Letria, etc.
(Aos microfones da RDP Internacional
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Português)