A Tradução

 

 

Teresa - Na sua última crónica, lembro-me que a Dra. Elsa , falando dos problemas da tradução literária, terminou dizendo que a tradução de um texto implica a atenção a vários estratos e enunciou-os. Pode explicar quais são?

 

Elsa - Eu terminei a última crónica dizendo exactamente que a tradução de um texto implica a atenção aos seguintes estratos, segundo a organização de João Barrento no seu trabalho O Poço de Babel - Para uma poética da Tradução Literária:

 

  1. O fonológico
  2. O lexical e o morfo-sintáctico (intra-texto)
  3. O semântico (o arquitexto)
  4. O cultural
  5. O pragmático (o paratexto)

 

Teresa -  Então o que se entende por esses estratos, começando pelo fonológico?

 

Elsa -  Este estrato, juntamente com o cultural, é aquele que mais frequentemente é responsável pelas grandes dificuldades da tradução que leva muitos autores a afirmarem que é impossível traduzir certos textos

   No entanto, um dos desafios mais aliciantes da tradução de certa poesia é o da reconstituição funcional de ritmos e sonoridades. E pode-se mesmo ir mais longe – reconstituir intenções e efeitos de sentido derivados da aliteração, da assonância ou da permutação consonântica.

   Luís Leal em O labirinto do texto diz o seguinte: «Na obra literária, e especialmente na poesia, o som é igualmente um elemento construtor da estrutura ausente ou, como afirma Lotman, «a sonoridade musical do discurso poético é também um modo de transmissão de informação, ou seja do conteúdo»

   Aliás, Poppe afirmava: «o som deve ser o eco do sentido».

 

Teresa - Então agora vamos ao estrato lexical-

 

Elsa - Quanto ao estrato lexical, exige-se do tradutor não apenas uma extrema atenção na escolha vocabular, isto é, na descoberta do vocábulo que melhor pode corresponder à palavra rara, ao arcaísmo ou ao neologismo, como ainda uma enorme capacidade imaginativa para encontrar correspondências e uma grande competência interpretativa do texto de partida.

 

Teresa -  E o estrato morfo-sintáctico?

 

Elsa - Também os aspectos morfológicos na tradução são, por vezes, um quebra-cabeças por não haver correspondência entre duas línguas, como por ex: entre o alemão e o português, no que diz respeito aos compostos, às partículas, ou ao uso de certos tempos verbais como o pretérito perfeito ou imperfeito, infinito pessoal, formas perifrásticas, etc. É preciso encontrar uma proximidade também nesses aspectos.

   Quanto à sintaxe, é necessário fazer a sua análise para se compreender a que correspondem os seus elementos. Por vezes, em certas línguas, há uma total inversão desses elementos, não correspondendo à ordem clássica da língua de chegada. Mas a inversão das palavras pode ser intencional, servindo a expressão. Então o tradutor tem de ter isso em conta.

 

Teresa - E  quanto ao estrato semântico?

 

Elsa - O estrato semântico é essencial numa tradução, porque o sentido é produzido quase sempre a partir da interacção de vários estratos textuais, gerando-se neles fenómenos de conotação, alusão, polissemia, e de ambiguidade que a tradução deve manter análogos aos do original.

 

Teresa - Falta-nos falar do estrato cultural e depois do pragmático ou paratexto, segundo nomenclatura de João Barrento, não é verdade?

 

Elsa - Exactamente. Quando consideramos a dimensão cultural dos textos, a língua apresenta-se como um discurso histórico no espaço e no tempo e as correspondências nem sempre são fáceis de encontrar ou possíveis. Sendo diferentes as tradições, terão de ser diferentes as soluções na tradução, quer se trate de casos de intertextualidade, quer se trate de idiossincrasias culturais para as quais não se encontra correspondência na língua de chegada.

 

Teresa -  Então como se procede?

 

Elsa - Há dois caminhos:

   1. a manutenção da referência cultural de origem, criando um efeito de estranheza que pode ser atenuado com uma nota de rodapé explicativa ou

   2. a sua assimilação à cultura de chegada, através de correspondências intertextuais que preencham os mesmos requisitos estéticos.

   A experiência diz-nos, porém que faz mais sentido a manutenção da estranheza, com um complemento explicativo, de preferência no próprio texto, evitando a nota de rodapé.

 

Teresa -  E por último,  o estrato pragmático ou paratexto.

 

Elsa - As situações textuais exigem um conhecimento prático da realidade de origem que tem que ver com o uso e a situação de comunicação., sobretudo da comunicação oral ou , na escrita no texto teatral. Está presente, aliás, também em qualquer acto translatório, que é sempre condicionado por diversos factores de ordem subjectiva e objectiva.

 

                                                        

A Tradução (continuação)

 

 

                    « A escrita exige solidões, desertos e coisas

             que se vêem como quem vê outra coisa»

 

Sophia de Mello Breyner

 

 

Teresa - Hoje vamos continuar com o tema da tradução?

 

Elsa - Sim. Vamos falar da fidelidade ao texto de partida e a tentativa de formulação de uma teoria de tradução.

   Luís Leal no seu livro Labirinto do Texto refere Savory que se queixava, logo no início da sua obra intitulada A Arte da Tradução, que os tradutores se têm contradito acerca de «quase todos os aspectos da sua arte» e mais adiante comenta que isso acontece por não existirem princípios de tradução universalmente aceites»

 

Teresa - Então isso significa que não existe uma teoria de tradução?

 

Elsa - Existem várias que, por vezes, se contradizem.  A dificuldade na elaboração de uma teoria da tradução talvez se deva procurar a níveis mais profundos. Sapir afirmava:

«Não existem duas línguas suficientemente semelhantes para que se possa afirmar que representam a mesma realidade social. Os mundos em que vivem as diferentes sociedades são mundos distintos e não apenas o mesmo mundo a que se afixam etiquetas diferentes.»

 

Teresa - Logo, só por si este facto bastaria para tornar a tradução algo de muito complicado, não é verdade?

 

Elsa - Ah, sim, enquanto busca de equivalências perfeitas a tradução é uma mera miragem.

 

Teresa - Mas, então, o que propõem os teorizadores, os técnicos de tradução?

 

Elsa - Têm surgido várias teorias. Fédorov defendia que a linguística deveria ter um papel preponderante na tradução de todo e qualquer texto. A linguística faria corresponder os modelos linguísticos da língua de partida com os da língua de chegada.

   Mas, considera Luís Leal na op. cit.:

   «O modelo linguístico até agora aplicado à tradução da obra literária tem-se mostrado, pelos resultados obtidos, pouco satisfatório».

   Na verdade, a teoria da literatura não se reduz à linguística, que analisa a linguagem enquanto enunciado de comunicação do tipo convencional (emissor, receptor, referentes, código). A este propósito é pertinente a observação de Henri Meschonic no seu prefácio à obra de Iuri Lotman, A estrutura do texto artístico:

   «A poética, estudo da espeficidade da literatura e a semiótica, ciência dos sistemas de signos, desenvolveram-se em parte pela insuficiência da linguística em tratar os problemas da linguagem onde existam textos.»

 

   E Alice Yllera delimita o papel da linguística e da estilística nos estudos literários a partir da diversidade do método de análise que essas disciplinas apresentam em relação à literatura: «A obra literária é um objecto semiótico, uma prática de comunicação. Não pode ser reduzida à estilística ou à linguística. (…) A linguística não estuda unidades superiores à frase. Também não pode identificar-se a estilística com «uma linguagem de unidades superiores à frase», visto que a linguagem poética não é simplesmente uma linguagem normal a que se tenham acrescentado uma série de adornos externos (rima, metro, etc.), mas uma utilização particular da linguagem a que preside uma finalidade estética.» (Yacobson)

 

Teresa - Então o que podemos concluir em relação à tradução do texto literário ?

 

Elsa -  Fundamentalmente  que quando se trata de textos literários, o acto de tradução pressupõe uma prévia interpretação hermenêutica. O tradutor necessita de prestar a sua atenção à chamada estrutura ausente, antes mesmo de começar a pensar em equivalências linguísticas. Deve, assim, pôr a nu os diversos níveis do texto que resultam das relações sistémicas, mas é evidente que se a estrutura criada pressupõe uma liberdade de interpretação também deve estabelecer os limites dessa interpretação. E o tradutor nunca poderá esquecer que está perante uma obra literária e que se exige que nela a função estética seja preponderante em relação a todas as outras funções.

 

 

Bibliografia consultada:

 

BARRENTO, João, O Poço de Babel - para uma poética da tradução literária, Ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2002

 

LEAL, Luís, O Labirinto do Texto - Da teoria da Literatura à tradução literária, Lisboa, Universitária Editora, 1994

 

AAVV, Tradutor Dilacerado - Reflexões de Autores Franceses Contemporâneos sobre Tradução - Coordenação de Guilhermina Jorge, Lisboa, Edições Colibri. s.d.

 

 

                                                                                              Elsa Rodrigues dos Santos