A Frase
«O que é bem pensado é dito claramente. E as palavras para o exprimir ocorrem facilmente»
Boileau, A Arte Poética
«A Língua não é apenas tradição e rotina; é, também, espaço de criatividade e inovação.»
A demonstrar, este texto afixado num «placard» de trabalhadores:
«Esta é uma história de quatro
pessoas chamadas Todos, Alguém, Qualquer
Um e Ninguém.
Havia um trabalho importante a realizar e Todos tinha a certeza de que Alguém era capaz de o fazer.
Qualquer Um o fazia, mas Ninguém não o fez.
Alguém ficou furioso, pois era um trabalho de Todos.
Todos pensou que Qualquer Um o podia fazer, mas Ninguém percebeu que Todos não o iria fazer.
Tudo acabou com Todos a culpar Alguém porque Ninguém não o fez o que Qualquer Um podia ter feito.»
A inovação deste texto consiste em levar à categoria de nomes próprios
pronomes ou determinantes indefinidos: Alguém,
Todos, Ninguém, Qualquer Um.
A Frase e a sua clareza
Teresa - Hoje qual é o assunto de que vai tratar?
Elsa - Hoje vou falar da frase, numa perspectiva semântica, mas com o objectivo de chamar a atenção para a sua clareza e, embora referencie alguns aspectos da sintaxe , a intenção é contribuir para que se fale e se escreva bem o português.
Teresa - Isso significa também que as várias partes da gramática estão todas relacionadas…
Elsa - … E que para bem usar o português é necessário conhecê-las e, especialmente, compreendê-las nos seus objectivos, sabendo relacioná-las
Teresa - Então vamos à frase . Antes de mais nada: O que é uma frase?
Elsa - A frase é um enunciado que encerra em si um sentido completo. A frase é a unidade mínima do discurso.
A frase pode ser constituída por uma única oração - frase simples ou mono-oracional
Ex: Ontem fui ao cinema.
Ou por várias orações - Frase complexa ou plurioracional.
Ex: Merece o interesse e a atenção de todos os cidadãos a conduta dos políticos que, umas vezes, desilude, outras, cria expectativas.
Por vezes a frase é nominal, isto é, subentendida de predicado.
Ex: Muito inteligente aquele rapaz.
(subentende-se o verbo – é)
A frase pode ser ainda constituída por uma só palavra. Chama-se palavra-frase.
Ex:
- Olá!
Anoitece.
Socorro!
Silêncio!
Atenção!
Estas palavras constituem frases porque são suficientes para transmitirem um sentido completo.
Teresa - Então a palavra-frase forma uma oração?
Elsa - Forma uma oração , porque uma oração é uma frase, com sentido completo que se pode ligar a outras orações ou não. A oração tem como elementos essenciais um sujeito e um predicado que podem ser explícitos ou não.
No caso de «Olá!» é o mesmo que «Eu saúdo-te»
Em «anoitece» há um predicado e, como verbo defectivo, é elíptica de sujeito.
Em «socorro!», equivale a dizer «eu peço socorro»
Em «silêncio!», subentende-se «Façam silêncio!»
Em «atenção!», é o mesmo que «prestem atenção!»
Voltando à frase plurioracional, ela pode ser complexa por coordenação: é a frase formada por duas ou mais orações coordenadas, isto é, cada uma destas tem construção autónoma, ou seja não dependente umas das outras.
Ex: Manuela seguiu medicina e João não continuou os estudos.
Podemos formar dois períodos autónomos.
Frase complexa por subordinação é a frase que contém uma ou mais orações dependentes umas das outras.
Ex. Ele teve uma boa nota/ porque se preparou.
Há aqui uma relação de causalidade
Ela usa o seu guarda-chuva / quando chove
Há uma relação temporal
Se ela estudar / terá boas notas
Há uma relação de condição
A este assunto voltaremos mais tarde quando entrarmos a fundo na sintaxe. Por ora o que nos interessa é apenas a estrutura da frase.
A Ordem das Palavras
Teresa - No outro dia , tratou da estrutura da frase. Hoje de que se vai ocupar?
Elsa - Ainda da frase, mas da importância da ordem das palavras na frase.
Se quisermos definir sintaxe, diremos que sintaxe é a parte da gramática que estuda a organização das palavras na frase. As palavras não se encontram colocadas na frase por acaso, porque arriscam-se a não formarem uma frase, isto é, a não terem qualquer sentido ou a formarem outro sentido diferente da sua intenção.
No entanto, a nossa língua é maleável em relação à ordem das palavras
Teresa - Dê-nos um exemplo.
Elsa - Ex: O pai saiu de casa.
Saiu o pai de casa
De casa, o pai saiu.
O pai de casa saiu.
Todas estas frases têm o mesmo sentido e são compreensíveis. No entanto, a ordem da norma é:
Sujeito+Predicado+Complemento (Directo- Indirecto- Complementos circunstanciais)
No entanto, se colocarmos as palavras na seguinte ordem:
De saiu pai o casa
Teresa - …Ficaremos perante um conjunto de palavras que não formam juntas qualquer sentido, portanto não formam uma frase. E isto porquê?
Elsa - Porque os sintagmas foram desmembrados internamente.
O pai = sintagma nominal
Saiu = sintagma verbal
De casa = sintagma preposicional
Em conclusão: podemos mudar a ordem dos sintagmas, mas não desmembrá-los internamente.
Por outro lado, se, por vezes, a mudança da ordem dos sintagmas não altera o seu sentido, outras muda radicalmente.
Ex:
Pedro ama Rita
Rita ama Pedro.
A inversão do sujeito e do complemento directo transfigura imediatamente os seus sentidos e intenções.
Reflexões sobre a frase padrão
- O significado de uma frase não decorre só das palavras nela utilizadas;
- O sentido de uma frase deriva também da ordem por que as palavras são nela representadas;
- O recurso à ordem directa da frase padrão da língua é um dos processos de garantir uma fácil compreensão da frase;
- É uma estratégia a ter em conta quando temos de escrever de modo inequívoco, nomeadamente em textos informativos ou científicos;
- É, em qualquer circunstância, um dos meios para testarmos e repensarmos a frase que sentimos ter escrito de modo embrulhado, confuso e que achamos ter de melhorar.
Teresa - E hoje vamos continuar com que matéria?
Elsa - Vamos falar dos critérios de opção entre ordem lógica e psicológica
Teresa - Isso dito assim parece complicado. Quer-nos explicar?
Elsa - Explicarei começando
por dar um exemplo.
Ex: Adequação, clareza, vivacidade e eficácia devem ser os critérios prioritários para uma opção.
Teresa - Mas a frase está correcta.
Elsa - A frase está correctíssima, mas não corresponde à ordem padrão
e isso obedece a uma determinada intenção.
A ordem padrão seria:
«Os critérios prioritários para uma opção devem ser adequação, clareza, vivacidade e eficácia.»
Os critérios para uma opção = sujeito
Devem ser = Predicado + nome predicativo do sujeito – adequação, clareza, vivacidade e eficácia.
Isto significa que na primeira frase, houve uma intenção psicológica de realçar a expressividade, isto é, a adequação dos temas, a clareza, a vivacidade e a eficácia da comunicação e, por isso, destacam-se em primeiro lugar.
Na frase:
Artº 184
Conselho de Ministros
A frase está na ordem directa, mas há uma intenção de respeitar o organigrama do Governo, segundo as hierarquias
Na frase, que é um provérbio:
A bom entendedor meia palavra basta
A ordem directa é:
«Meia palavra basta a bom entendedor», mas no provérbio há a intenção de evidenciar as qualidades do bom entendedor, por isso este sintagma vem primeiro.
Qualidades
da frase
Uma frase tem unidade quando apresenta só uma ideia principal como força motriz
Ex: 1.
A elevação da freguesia a concelho continua na ordem do dia em Canas de Senhorim.
Ex: 2. O ex-Presidente da Câmara do Porto agendou para as 15 horas de hoje uma conferência de imprensa para explicar o motivo que o levou às instalações da Polícia Judiciária, no Porto.
Há uma ideia organizadora que anda à volta do motivo que levou o ex-presidente da Câmara do Porto às instalações da Polícia Judiciária, agendando uma conferência da imprensa para explicá-lo.
Ex: 3. George Marsshall foi responsável por dois acontecimentos cruciais no sec.XX: Conduzir os aliados à vitória na II Guerra Mundial, como Chefe das Forças Armadas e, mais tarde, como Secretário de Estado, levar a cabo o plano Marshall (reconstruir a Europa após a devastação da guerra.)
- Mesmo longa a frase não perde a sua unidade, pois tem um único sujeito gramatical - George Marshall e uma única ideia central: o papel de George Marshall no sec. XX.
Defeitos da
frase que impedem a clareza
A frase perde a clareza quando se torna ambígua
1º pela falta de pontuação adequada.
Ex: Hidratar e proteger palavras de ordem contra o tempo frio
Nota: Este título fica sem sentido por falta de pontuação.
A frase deverá ser:
Hidratar e proteger: palavras de ordem contra o tempo frio.
A falta de vírgulas num texto pode modificar completamente o seu sentido. Vejamos:
Os alunos que não têm aulas estão a planear uma viagem = só os que não têm aulas.
Há, portanto, um sentido restritivo.
Os alunos, que não têm aulas, estão a planear uma viagem = todos os alunos não tem aulas. Por isso estão a planear uma viagem.
2. - A frase perde também a clareza pela ordem incorrecta das palavras na frase.
Ex. Tudo ficará à consciência e à propensão de educar crianças de cada um
Ora o que se pretendeu dizer foi:
Tudo ficará à consciência e à propensão de cada um de educar crianças.
3. - A frase deixa de ser clara e perde a sua unidade quando apresenta vários sujeitos e acções, ficando sobrecarregada desnecessariamente.
«Este final de século apresenta vários problemas e contradições na cena da ordem política mundial e a própria ONU tem mostrado incapacidade para resolver conflitos que nós vemos, por exemplo, no continente africano onde os portugueses são particularmente sensíveis ao que acontece em Angola, um país cheio de riquezas, como o petróleo e os diamantes, recursos a servirem principalmente à compra de armas que enriquecem os seus fabricantes e matam ou deformam as pessoas que aspiram à saúde e à cultura que são as bases do desenvolvimento.»
(Texto de um aluno de uma escola
secundária)
Este texto que tem uma longuíssima frase com várias orações pode passar a um texto com vários períodos o que clarificará o seu sentido:
Este final de século apresenta vários problemas e contradições na cena política mundial que nem a própria ONU tem tido capacidade para resolver.
É disto exemplo o continente africano, onde se inclui Angola, à qual os portugueses são particularmente sensíveis. País com abundantes riquezas, como o petróleo e os diamantes, esgota os seus recursos na compra de armas.
Enquanto os seus fabricantes enriquecem, os angolanos, que aspiram à saúde e à cultura, morrem ou ficam estropiados, vendo adiadas as bases do desenvolvimento do país.
Elsa
Rodrigues dos Santos