2007-MAI-17
Tema: Acordo ortográfico de
1990 em 2007
Situação a(c)tual do acordo de 1990
O acordo
ortográfico de 1990 foi inicialmente ratificado pelos Parlamentos de Portugal, do
Brasil e de Cabo Verde. O texto do acordo exigia a ratificação de todos os
signatários (7) para entrar em vigor, mas numa das últimas reuniões da CPLP foi
decidido que bastaria a assinatura de só três membros. Ora, segundo o que me
foi afirmado, com a entrada de São Tomé e Príncipe no grupo dos que
ratificaram, então o Brasil, Cabo Verde e São Tomé consideraram já oficialmente
que o novo acordo entrou em vigor nos seus países, mesmo sem a inclusão de
Portugal. Por uma questão de solidariedade, e atendendo a que o acordo foi
assinado no nosso país, o Brasil vai aguardar ainda algum tempo antes de
avançar em força. Os optimistas pensam que Portugal também aprovará a entrada
em vigor do acordo de 1990 antes do fim do ano.
DIFERENÇAS
DE políticas NA Língua
Quem como
eu teve a dita de poder viajar duma ponta à outra do Brasil e de avaliar as
suas imensas riquezas, pode concluir que este país certamente, e com justiça,
virá a ter uma palavra a dizer nos destinos da humanidade.
Ora os brasileiros ter-se-ão dado conta de
que somando os seus cerca de 180 milhões de falantes aos de todos os dos países
que têm a sua língua como oficial (além de esta estar espalhada por todo o
Planeta), a uniformização ortográfica do acordo de 1990 traria maior facilidade
de a impor internacionalmente como uma das mais importantes línguas do mundo.
Aliás, não se têm poupado a esforços para
defender a sua língua. Muitas das obras idó[ô]neas
que uso são brasileiras; o melhor dicionário em português europeu de que
dispomos (o Houaiss) tem proveniência brasileira; publicaram em 1998 um
Vocabulário com 350 000 entradas, que deixa à distância, neste aspe(c)to, o Dicionário da nossa Academia das Ciências
de Lisboa, 2001 (só 70 000 entradas...). São cuidadosos com os novos termos
(ex.: estresse, esnobe, etc.), mas não hesitam em aceitar a evolução, como em
hifens, etc).
Professores brasileiros estão a ser
preferidos em Universidades estrangeiras. É frequ[ü]ente
já muitos estrangeiros falarem a nossa língua com prosódia brasileira.
Como consultor de Ciberdúvidas, penso que não
me é próprio criticar excessivamente neste fórum as Instituições portuguesas
por este estado de coisas. O texto integral com essas críticas poderá ser lido
oportunamente na minha página pessoal www.dsilvasfilho.com, em “crónica > extra(c)tos
de respostas em Ciberdúvidas”.
Não creio que aconteça o que vou indicar,
porque confio ainda no bom senso dos nossos responsáveis e que seguirão muito
rapidamente o exemplo dos outros três países; mas não resisto a considerar a
hipótese seguinte:
Dadas as vantagens do novo acordo, com o
Brasil em força corremos o risco de Portugal ficar abandonado no seu orgulho
balofo e na sua confrangedora inércia.
Repare-se na diferença no apreço com a língua
que têm os espanhóis, pois conseguiram já a uniformização até na gramática em
toda a hispanofonia (recente acordo de Cartagena).
As
dificuldades portuguesas
No meu artigo
de Abril de 1998 sobre o novo acordo, mencionava alguns motivos por que o novo
acordo não estava ainda em vigor, passados nessa altura oito anos da sua
assinatura (estava previsto na assinatura do acordo entrar em vigor em 1994).
Decorridos mais todos estes nove anos, os motivos continuam a ser na prática os
mesmos:
O que tem havido no nosso país é pouca vontade política dos nossos governantes. A desculpa inicial era de que não
se tinham as ratificações de todos os signatários; mas, a partir do fa(c)to de que ficaram a ser necessárias só as três
ratificações que já havia quase desde o início, a desculpa tinha deixado de ser
válida. Com a entrada de São Tomé, o Brasil naturalmente rodeou a resistência
portuguesa.
A outra dificuldade é a resistência à mudança.
As pessoas conservadoras oferecem sempre as maiores dificuldades às mudanças na
língua, com o receio de não saberem escrever depois. Além disso, aparece sempre
quem se considere dono da língua (um patrimó[ô]nio
comum, que não é particularmente de ninguém): pessoas que entendem que têm o
direito de não permitir que a alterem. O que se passou presentemente com a Nova
Terminologia é sintomático: houve quem a recusasse na totalidade, liminarmente,
sem ver o seu lado positivo (pessoalmente aconselhei aperfeiçoamentos). Se se
tivesse obedecido aos críticos da Reforma de 1911, ainda agora estaríamos a
escrever com y, com ph, com dois ll, etc.
Porque mesmo essas pessoas me merecem o maior
respeito, dado que a sua preocupação, por outro lado, protege a língua de
desvarios, indico a seguir, para as tranquilizar, as alterações previstas no
novo acordo:
As consoantes que não são articuladas nem em
Portugal nem no Brasil desaparecem, caso do c em acção e do p em óptimo, por
exemplo (mas autorizam-se quando são articuladas num dos países como por
exemplo em convicto [nos dois países], em facto [em Portugal], em concepção [no
Brasil]). Será fácil a escolha: basta analisar se a consoante é muda ou não: se
o for, pode desaparecer, embora continue a ser legítima na comunidade lingu[ü]ística que a pronuncie. Quem defende a
necessidade da consoante para abrir a vogal anterior, esquece casos como dida(c)tismo ou didá(c)tica,
em que essa defesa não é possível...
Os acentos gráficos praticamente não mudam,
contrariamente ao que pensam muitas pessoas, mesmo com formação lingu[ü]ística. Para Portugal, unicamente deixa de
haver obrigatoriedade de acentos em termos como: pára (forma verbal), péla/o/s,
pólo/s, pêro/a, dêmos, amámos, terminações verbais êem, ditongo ói em
paroxítonas.
As duplas grafias nas proparoxítonas como
António e Antônio não irão incomodar ninguém, pois será legítima qualquer das
duas formas, e cada um pode escolher. Quem se escandaliza com a proliferação
que haverá de duplas grafias num Vocabulário Comum para toda a lusofonia, pode
entreter-se a contar as duplas grafias que já existem nos dicionários. Verá que
são muitas...
No hífen e nas maiúsculas há também algumas
simplificações, fáceis de fixar.
Especificamente para o Brasil, além de tudo o
que está acima indicados, cai mais o trema em todas as palavras originariamente
portuguesas, o acento nos grupos oo, como em voo e no som aberto dos grupos
eico e eia (não me venham dizer que as alterações são só uma cedência ao
Brasil).
Para mim, no entanto, o maior problema
português tem sido a sua incapacidade técnica. No acordo estava previsto que
haveria um Vocabulário Comum pronto antes de o novo acordo
entrar em vigor (1994, como se disse acima). Este Vocabulário é indispensável
para orientação dos lexicógrafos, dos autores de manuais escolares,
prontuários, corre(c)tores de textos
informáticos, etc. Ora o Brasil já fez a sua parte do acordo, com o acima
citado Vocabulário de 1998, assinalando mesmo muitas variantes que a sua
comunidade lingu[ü]ística não utiliza.
A nossa Academia das Ciências de Lisboa é que
nesta data, que eu saiba, ainda não fez a sua parte [agradeço informação a(c)tualizada de quem estiver mais bem
informado...].
Agora consta que quando da entrada em vigor,
o novo acordo terá em Portugal uma tolerância de 10 anos para pleno
funcionamento. Não pensam os governantes que, após 17 anos, outros 10 serão
mesmo de mais? Estarão a imaginar singelamente que o Brasil vai fazer o mesmo?
quando o mais certo é que a sua literatura a(c)tualizada
invadirá, antes da nossa, toda a lusofonia...
Quanto aos editores portugueses de vistas
curtas, que estão a recear o novo acordo, estes já pensaram no negócio que
estão a perder em novas edições e no que poderão perder se o Brasil se
antecipar?
AS VAntagens
Do novo acordo
Independentemente
do interesse em que a língua portuguesa se imponha como um idioma uniformizado
planetário, quem se dirige a falantes de língua oficial portuguesa nesta Aldeia
Global da Comunicação, como acontece em Ciberdúvidas, sente bem o problema da
falta de uniformização. Para não induzir em erro os nossos leitores do Brasil,
usamos uma dupla grafia nas nossas respostas, o que complica a execução e
dificulta a leitura (casos de letras entre parênteses neste texto).
Ora, pode-se avaliar aqui a economia de
processos que haveria se já estivesse em vigor o novo acordo. Foram
presentemente necessárias 16 alterações gráficas. Se o novo acordo já estivesse
em vigor, nem uma seria necessária, pois inclusivamente seriam legítimos no
Brasil os casos de grafia no português europeu em que se aceitarão duplas
grafias.
NOTA
FINAL: Termos do novo acordo ortográfico segundo o «Prontuário» da Texto, 4.ª
Versão recente: <atual>, <idóneas/idôneas>, <aspeto>,
<frequente>, <facto/fato>, <património/patrimônio>,
<ação>, <ótimo>, <didático>, <linguista>,
<corretor>, <atualizar>.
Ao seu dispor,
D’ Silvas Filho ®