A Colocação dos Advérbios
Teresa - Hoje vai falar-nos de que questão da língua?
Elsa - Vou falar da colocação do advérbio na frase.
Teresa - Mas há então regras sobre a colocação do advérbio na frase?
Elsa - Não diria regras, mas a sua colocação é importante para acentuar o seu valor expressivo. Deste modo, a sua colocação acaba por se normalizar, pelo seu uso corrente.
Assim, os advérbios que modificam um adjectivo, um particípio isolado ou um outro advérbio colocam-se geralmente antes destes.
Teresa - Pode dar exemplos?
Elsa - 1. Por exemplo, os advérbios tão, mais, menos, muito vêm sempre antes do adjectivo.
Ex: Ela estava tão feliz, tão despreocupada que não lhe dei essa notícia menos agradável.
Muito apressado, o professor entrou na sala de aula.
2. Dos advérbios que modificam o verbo, os de modo colocam-se normalmente depois dele.
Ex: Ela chorava sentidamente a sua morte.
3. Os de tempo e de lugar podem colocar-se antes ou depois.
Ex: De manhã, acordo cedo.
Cá fora está um frio de rachar
4. O advérbio de negação antecede sempre o verbo.
Ex: Então não se trabalha
aqui?
Teresa - Queria fazer-lhe esta pergunta: Em relação aos advérbios de modo terminados em mente, quando aparecem dois seguidos deve retirar-se o sufixo mente a algum deles e se sim a qual?
Elsa - Ainda bem que fez a pergunta, porque eu ia exactamente falar nisso.
Quando numa frase dois ou mais advérbios em mente modificam a mesma palavra, pode-se, para tornar mais leve o enunciado, omitir o sufixo, no primeiro ou primeiros e deixá-lo estar no último advérbio.
Ex: de Miguel Torga - «Dir-se-ia que tudo naquele paraíso murado se movimentava lúdica
e religiosamente.»
Os cavalos correm
veloz, larga e fogosamente
2. Se, no entanto, a intenção é
de realçar as circunstâncias expressas pelos advérbios, omite-se a conjunção «e»,
não retirando o sufixo mente a nenhum dos advérbios de modo
Ex: Correu os
olhos profundamente, angustiadamente.
Algumas particularidades estilísticas do
advérbio.
Teresa - E hoje qual o assunto de que vai tratar?
Elsa - Ainda sobre o advérbio, tratarei de algumas particularidades estilísticas.
Teresa - Quais, por exemplo?
Elsa - Vamos falar de alguns desvios à norma utilizados pelos escritores.
Como se sabe, o advérbio é uma palavra invariável, mas, por vezes, os escritores empregam-nos no plural. É um desvio linguístico, em que se converte o advérbio num substantivo. Rodrigues Lapa cita dois passos de Frei António das Chagas:
«Eu, vilíssima criatura, cujos antes não foram nada, cujos agoras são um pó, cujos depois hão-de ser cinza.»
Outro exemplo vem do Eça nas Prosas Bárbaras:
«Aqueles poetas abrem na alma longes surpreendentes.»
Estes são também um caso de derivação imprópria, isto é, de transformação de uma palavra, que tem normalmente uma determinada categoria gramatical, noutra categoria.
Isto significa que o que tem mais importância não é propriamente a categoria, mas o verdadeiro significado da expressão e o seu matiz sentimental.
Teresa - Nesse aspecto, há mais aspectos particulares do advérbio?
Elsa - Vejamos alguns exemplos em que apesar da gramática e os dicionários fixarem para cada advérbio um certo sentido, a linguagem oral e escrita está constantemente a modificar o sentido original, imprimindo-lhe variações mais ou menos profundas.
Por ex: Ora era um velho advérbio de tempo, um pouco sinónimo de agora. Mas, por exemplo, na expressão «ora esta!», o advérbio de tempo «ora», sob a acção de uma descarga afectiva, passou a traduzir sentimentos como a surpresa, o aborrecimento, a dúvida.
O mesmo acontece com «agora» na expressão «Agora!» que exprime a dúvida.
O que se dá com o tempo, ocorre também com o lugar, com o espaço.
O advérbio lá tem um sentido bem definido, de lugar mais ou menos distante. Ex: Vou lá amanhã. Mas na frase: «Estive entre a vida e a morte: lá me escapei»,
a noção de lugar desapareceu para se transformar no sentido «a muito custo, com muitos esforços consegui sobreviver».
Também na expressão «Vá lá!» marca uma concessão arrancada a custo.
Na frase «Querem lá ver o palerma!», aqui o «lá» exprime depreciação, ironia.
Da mesma maneira, o advérbio «também» que tem o significado de comparação de igualdade (vinha de «tão bem»), de simultaneidade, pode adquirir diferentes tonalidades sentimentais, afectivas e, em geral, num tom exclamativo.
Ex: Também o avô sempre diz cada coisa!
Aqui o «também» exprime o significado de estranheza, de desgosto, de reprovação.
E na frase: «Aquele homem é muito abrutalhado com os cavalos. Também tem apanhado cada trambolhão»
Aqui descortina-se uma relação de consequência ligada a uma relação de causa.
Esta relação de causa é mais evidente na frase: «Que belas couves apanhei no meu quintal: Também fartei-me de trabalhar» que significa: «Não é muito de espantar porque as tratei com muito trabalho».
Em resumo, o que se pode dizer é que, por vezes, os advérbios que normalmente desempenham uma função lógica, podem adquirir estilisticamente sentidos afectivos, perdendo todo o significado original.
Elsa Rodrigues dos Santos