Agnaldo Rodrigues

A Penumbra

Contos de introspecção

Onemat Editora – Campus Tangará da Serra, Brasil

Universidade do Estado de Mato Grosso

 

            Agnaldo Rodrigues é professor universitário na Universidade do Mato Grosso, da Faculdade de Letras – Campus Tanjará da Serra.

            É ensaísta, crítico e contista.

            Entre as suas publicações, destacam-se:

            O Futurismo e o Teatro (2003)

            Ensaios em Literatura Comparada (2004)

            Tem vários contos publicados em periódicos diversos, além de artigos e ensaios no âmbito da literatura e do teatro.

           

            Penumbra” ou contos de introspecção é um livro perturbante, como o é qualquer “viagem” ao mundo interior do indivíduo pela sua complexidade e, por vezes, pelas suas absurdas contradições.

            Contradições que, neste livro, são expressas por imagens delirantes, surrealistas por associações, por vezes ilógicas, mas que criam uma nova lógica.

            No pequeno texto de introdução, o autor diz que um dia “estava caminhando, pensativo, sem rumo. Olhava para o rosto das pessoas e via duas caras: uma negra e outra iluminada.”

            Numa vitrine viu espelhada a sua própria imagem. “Ela tinha três caras: uma negra, uma iluminada e outra ofuscada”.

            A face negra fazia caretas, trocava-se a todo o momento, não tinha uma fisionomia fixa; a iluminada sorria e mostrava serenidade, mas a ofuscada chorava.

            O que significa esta alegria em que as imagens, quer dos rostos das pessoas, quer do próprio sujeito representam qualidades, conceitos morais, verdades espirituais?

            É necessário descodificar o símbolo da face negra e da face iluminada das pessoas em geral, partindo das referências já não das três caras, mas das três reflectidas pelo próprio “eu”.

            A cara negra, “fazia caretas, trocava-se a todo o momento, não tinha uma fisionomia fixa”. Era, portanto, um rosto que reflectia uma grande inquietação e desespero.

            O rosto iluminado “Sorria e mostrava serenidade”, enquanto que o terceiro rosto apresentava-se “ofuscado e chorava”.

            Portanto, estas três faces representam os três estados de espírito ou as três facetas do sujeito poético: por um lado, a inquietação, por outro, a serenidade e por outro ainda, a tristeza. Esse lado dramático é existente não só no sujeito actante, como também “ nos outros”, na própria humanidade.

            Essa forma de se apresentar numa 1ª. pessoa é a necessidade de o autor se desnudar, de se entregar ao próprio leitor, com as suas dúvidas, as suas interrogações, os seus  sentimentos.

            O primeiro canto intitulado “Santos escravizados” é uma perturbante pequena narrativa.

            Oeu” caminha pelas ruas e sente que alguém o segue, olha para trás, mas não vê ninguém.

            Era meia-noite, hora dos santos se libertarem e de os demónios os seguirem.

            Uma criança corria freneticamente, num desespero terrível até que entrou para uma igreja que abriu as portas à sua entrada, e logo as fechou de novo.

            Depois há um vulto com vestes negras, cabelos e olhos negros que seguem o narrador.

            Pergunta-se: quem era a criança assustada?

            O próprio narrador (em 1ª. pessoa) ou o sujeito actante que, na sua infância, foi perseguido por forças negativas que queriam fazer-lhe mal?

            Depois, o vulto negro que o persegue será a morte ou o diabo que o tenta para, naquele casarão, dar asas às suas pulsões comandadas por Eros, procurando engoli-lo.

            “Gritei por misericórdia, mas era tarde, já estava condenado (...) Percebi que o mundo estava morto (...) prisioneiro”.

            Em “O requinte da crueldade”, a pessoa amada assiste com regozijo ao sofrimento e à morte de quem o ama. Mas o requinte da crueldade é mais do que isso, é a própria pessoa amada assassinar o outro.

            E as palavras que acompanham o crime são estas: - “Eu lhe disse que o amor da carne é o pecado da alma!”

            Em “Tormentos ocultos”, a morte vem na forma de um pássaro que “voava e sobrevoava a torre. Seu cantar parecia alegre, feliz por conseguir arrebatar-me do suco vermelho do meu sangue, há muito tempo já envenenado pelo ciúme, pela inveja e pela ganância”.

            Em “Coincidências tempestuosas” o amor surgiu, depois o casamento na igreja, e, finalmente, o abandono. E de longe, o vulto negro que se aproximava, mas ainda não era a hora.

            Seguem-se uma série de narrativas todas inseridas na área do “Pathos” e do Eros. Configura-se um ser andrógeno que não está bem, porém, com o seu próprio corpo. Daí o desespero, as imagens de horror, a frustração que se apresentam em contrastes, com jogos de luz e de sombra: o sagrado visualizado pela catedral e o profano, o demoníaco pelo vulto negro que o persegue, o sangue, o veneno, as lágrimas, o amor profundo, o requinte da crueldade. Desse contraponto do claro e escuro, surge a penumbra que se identifica com a loucura.

             “A loucura se instala, escurece a alma e nos afasta de todas as coisas boas do mundo”.

            O poeta reconhece esse estado no último texto da colectânea que intitula “A Penumbra”.

            «Acordei.

            Compreendi tantas coisas sem sentido.

            A loucura chegou... Instalou-se e eu nem percebi.

            Quando vi, já estava consumado, não havia mais jeito de sair daquele buraco negro.

            Minhas fantasias eram fruto da minha imaginação doentia.»

            O sujeito poético encontra-se num manicómio, que terá, no entanto, de deixar, porque o director anuncia que ele vai entrar em reforma. E termina: “Uma lágrima caiu.

            Rolou pela minha face.

            Caiu na minha boca.

            Então, tive a certeza de que a vida era salgada, mesmo para os sãos”.

             Inocência Mata no prefácio, interrogando-se se estas narrativas são inverosímeis, afirma “Nem por isso. Porém, demasiado insólitas para apaziguarem a alma do leitor, tal como este mundo de regras, preceitos e convenções em que vivemos”. E eu direi: “Tal como este mundo que vive ainda na penumbra dos valores éticos que devem comandar a vida, alimentando-se de violência, de guerras, de desrespeito pelo ser humano.”

Se virmos por esta óptica este livro, poderemos compreender como um jovem assaz talentoso possa mergulhar em águas tão pessimistas. Desejaríamos, porém, que ele investisse o seu talento e sensibilidade numa obra mais saudável e optimista, sinal de que a sua amargura se diluiria na consciência de que esse mesmo mundo carregado de vírus negativos tem, porém, uma outra face, a tal da serenidade, responsável pelas coisas maravilhosas que existem nesta vida, entre elas, a criatividade, motor do progresso das civilizações.

 

       Elsa Rodrigues dos Santos