Sobre os termos Alcorão/Corão e Mafoma/Maomé
Em recente convívio com amigos e colegas de profissão,
voltei a comprovar a geral confusão que persiste entre os Portugueses, mesmo
entre pessoas cultas, informadas e actualizadas, como era o caso, sobre o vocábulo
que, no nosso léxico, usamos para designar o livro sagrado dos Muçulmanos: o
Alcorão, que muitos teimam em desprezar, preferindo o termo de origem francesa
Corão. Alguns até julgam que com isso evitam o imaginado pleonasmo contido no
vernáculo Alcorão, no que caem em lamentável equívoco.
Sendo este tão generalizado, vou aproveitar o ensejo
para, modestamente, expender aqui algumas explicações, valendo-me do saber
daquele meu saudoso Professor do Ensino Secundário da Disciplina de Português,
o Dr. José Pedro Machado ( n. 08-11-1914 – f. 26-07-2005 ), ilustre Académico e
cidadão probo, qualidades hoje difíceis de descobrir, ainda mais irmanadas na
mesma pessoa, mas que nele eram absolutamente naturais, notórias e geralmente
reconhecidas.
Nos últimos anos, em diversos fóruns, várias vezes a ele
me tenho referido, sempre de forma elogiosa, como cumpre, a quem muito se
considera beneficiado do seu amável convívio e da sua esclarecida erudição.
Posso mesmo dizer que José Pedro Machado terá sido a
pessoa que, neste capítulo da pura erudição, mais me impressionou, tanto mais
que, a essa condição, aliava a de uma simplicidade e lhaneza de trato sumamente
invulgares nos tempos que correm.
Nunca eu certamente darei por supérfluos ou descabidos os
encómios ou as meras referências que à sua figura possa tecer, sempre que a
ocasião o propicie, como esta do momento presente, a propósito do
esclarecimento do termo mais adequado para designar na nossa língua o livro
sagrado dos Muçulmanos.
Como este eminente arabista, desafortunadamente, apesar
da sua avançada idade, desaparecido do nosso convívio faz agora quatro anos,
frequentemente esclareceu, o livro sagrado dos Muçulmanos designa-se, em bom
português, por Alcorão (do ár. Al-quran, a leitura, por excelência, a do livro
sagrado), tal como sempre escreveram os nossos escritores, desde o século XIII
e XIV, incluindo os clássicos, como Camões ( Os Lusíadas, III, 50:8 e VII, 13:4
) e os românticos, como Herculano, e quase todos os Historiadores desde então
até aos escritores contemporâneos de língua portguesa mais escrupulosos no uso
do vernáculo.
Só por hábito recente, por imitação dos franceses, que
empregam o termo «Le Coran» e dos ingleses, com o seu «The Koran», se começou,
entre nós, a preferir o termo Corão, sobretudo por influência francesa, muito
intensificada a partir do século XVIII, embora em ambas estas línguas persista
nos dicionários o termo « Alcoran ».
Como JPM explicou, p. ex., em « Palavras a propósito de Palavras – Notas Lexicais », da Editorial
Notícias, 1992 e no seu Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa, em 5 volumes, da Editora Livros
Horizonte, 5ª edição, 1989 – o substantivo árabe, em regra, ao entrar na nossa
língua, trouxe consigo associado o artigo definido árabe – al – e, por isso, temos
em Português « o Alcorão », tal como «a alfaia», e não a faia, «o alguidar» e
não o guidar, « o alfinete » e não o finete, «o alfaiate » e não o faiate, « o
alferes » e não o feres, «o alcaide» e não o caide, «a almotolia» e não a
motolia e assim por diante.
Muita gente, por gosto e vezo de francesias, acabou por
aportuguesar o « Coran » francês, para « Corão », não cometendo com isso,
certamente, nenhum crime de lesa-majestade, mas sem que haja necessidade de o
fazer, nem, muito menos, é válida a justificação, para tal apontada,
alegadamente, de que assim se foge ao suposto pleonasmo com a repetição do
artigo já contido no termo Alcorão.
Trata-se, como mencionado, de um processo típico de
incorporação de termos de língua árabe, substantivos, principalmente, no
Português, em que aquela se fez, na formação do nosso vocábulo, aglutinando o
artigo definido árabe «al» ao termo original. De resto, basta consultar
qualquer obra de Filologia Portuguesa, de JPM ou de outro reputado autor, para
se comprovar a doutrina.
Como se descobre, paira por aí muita confusão sobre estes
assuntos do Árabe e do Português, o que não nos deve causar grande admiração,
visto que daquele pouca gente sabe em Portugal e, do nosso próprio idioma, cada
vez se sabe menos, situação que, naturalmente, potencia o aludido equívoco
bastante difundido entre nós, pese todo o labor despendido a este respeito por
José Pedro Machado e por tantos outros dos nossos eméritos estudiosos do
Idioma, felizmente em grande número e que nos legaram vasta e variada obra,
prenhe de conhecimento, que só aguarda a nossa porfiada consulta.
A talhe de foice, acrescentarei ainda, na continuação
deste tributo à memória de tão emérito Mestre, que o nome do Profeta do Islão (
termo que significa submissão, subentendendo-se a Deus/Alá e não a qualquer Imã
ou descendente do Profeta ) tem, em Português, vários termos ou designações,
sendo os mais antigos e, por isso mesmo, de maior legitimidade, o de Mafoma ou
Mafamede, como Camões usou em várias passagens de «Os Lusíadas» e não Maomé,
que veio também por influência francesa.
Este termo veio a ganhar entre nós larga aceitação, mas
tal não justifica o desterro daqueles outros, mais vernáculos, sem mácula de
galicismo, hoje, com efeito, pecadilho de somenos, em face da enxurrada de
anglicismos que invadiu a doce e formosa Língua lusitana, « última flor do
Lácio », no dizer feliz e lapidar de um virtuoso sonetista, o poeta brasileiro
Olavo Bilac.
Com a ajuda do insigne Mestre acima evocado, aqui fica,
por conseguinte, este meu singelo contributo para o esclarecimento de um
assunto que continua desnecessariamente a trazer tantos Portugueses mergulhados
em duradouros equívocos e em descabidas confusões.
Lisboa, 31 de Julho de 2009

António Blanco
Eng.º Electrotécnico ( IST )
- Membro da Ordem dos
Engenheiros nº 19905
- Membro da Sociedade da
Língua Portuguesa nº 11800
- Endereço Electrónico : antónio.blanco@iol.pt