“ A leitura é sempre uma busca, um desvelamento e uma construção da
coesão textual. ”
Vítor Manuel Aguiar e Silva , Teoria
da Literatura
Uma leitura do poema “Quando” de Maria Virgínia Monteiro
Na perífrase negativa, eufemística e
metafórica “Quando eu não for / nem voz
nem sombra / nem rir nem dor ”está perspectivada a ideia de morte, pelo que
o sujeito poético, num discurso apelativo/imperativo, expressa1, como que em disposição testamentária, a
vontade de que a sua herança, “coisas que
amou” “mas guardou” em lugar de a partilhar com os outros, seja aceite por
nós, não obstante alguma dificuldade adveniente “não recusem de mim restos escolhos”.
Mas
por que foram as coisas guardadas, ocultadas e não mostradas, divulgadas,
partilhadas? A justificação imediata é-nos dada pelos dois últimos versos da
primeira estrofe, “como se nelas queimasse/mãos e olhos”. O fogo emanente das “coisas” é aqui visto como hipotético ou
eventual (cf. imperfeito do conjuntivo “queimasse”) elemento destruidor ou
punidor das mãos que fazem, que tocam, que modelam e dos olhos que vêem o real
exterior, que o percepcionam, que o
interiorizam para depois se metamorfosear “nas galerias da alma”.2 É pois,
necessário ocultar “as coisas”
para preservar mãos e olhos de uma eventual punição.
O
sujeito poético, que curiosamente nos é agora apresentado no feminino,
(2ª.estrofe) deseja, se tal lhe for permitido, ficar ao nosso lado e “silenciosa” como é apanágio dos mortos,
esperando, ainda que com alguma incerteza, “talvez”,
que “as coisas que amou” e que provavelmente serão obra da sua criação, tendo
sido alcançado outro espaço ou não-espaço, como sugere a epígrafe do poema,
possam “falar” pelo sujeito poético,
permitindo-lhe, a ele, deste modo, tentar superar a sua efemeridade ou, dito de
modo diverso, ir-se da “lei da Morte
libertando”. 3
Esquematicamente
representaríamos do seguinte modo a relação entre o “eu” e “as coisas”, o
presente e o futuro:
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Presente |
Futuro |
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voz |
silêncio |
|
|
silêncio |
voz |
Mas, como “as coisas” emanam do “eu”,
pelo “eu” serão “voz”.
As terceira
e quarta estrofes são percorridas por uma série de elementos lexicais
comportando semas semelhantes que formam um fio semântico a que chamaremos
isotopia semântica do desvendamento/libertação, por oposição a um outro
conjunto de semas que constituem a isotopia da ocultação, sendo que esta última
já transportada de estrofes anteriores.
Feito
o levantamento dos elementos lexicais de ambas as isotopias, temos,
esquematicamente:
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Isotopias semânticas |
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Isotopia da ocultação |
Isotopia do desvendamento/libertação |
|
Silêncio Segredo Véu Calei Guardei Gavetas |
espalhe-se arranque-se não mais se cale libertem-se voz voz inteira
|
Esta passagem da ocultação ao desvendamento,
expressa num discurso imperativo e de um modo peremptório, é iniciada de forma
algo violenta cujo paradigma está patente no verbo arrancar, “arranque-se de sobre ele/qualquer véu”,
violência essa que vai sendo apaziguada até culminar numa atitude de acalmia “e sereno, sem raiva, sem sobressalto”
pois já não há nada a temer, dado que o preço da ocultação já foi pago e é “alto” porque os agentes da ocultação “o véu”, as “gavetas” são simultaneamente protectores e castradores porque
embora defendendo dos perigos da exposição, também impedem eventuais benefícios
supervenientes do desvendamento.
De
realçar a alteração da ordem comum das palavras na frase – hipérbato - “porque já foi pago o preço alto”, a qual
cumpre a dupla função de destacar o adjectivo “alto” e de servir a rima (motivo eufónico).
Os
oxímoros “o mudo grito” e “o silêncio o som aflito” são a
culminação da antinomia ocultação/desvendamento que temos vindo a abordar.
O “eu” do poema muito presente em múltiplas
apresentações na primeira e segunda estrofes e ainda no início da terceira,
quase desaparece para dar lugar à terceira pessoa “o”, “ele” ou seja, “as coisas” as quais, silenciado o “eu”, já podem ser voz, voz que nos
remete para a palavra dita/escrita, quiçá para a poesia, como diz Eduardo
Lourenço: “…A palavra que é suprema
nomeação sem a poder ser totalmente, que pede e suporta a metamorfose
permanente que a tira da morte para a vida, é um dos nomes da poesia.”4
Mas, reiterando o que já dissemos, como
“as coisas” emanam do “eu”, é pelo “eu” que elas falarão “como um
eco de lembranças”. Trata-se, no entanto, a nosso ver, de uma morte
iniciática do “eu” renascendo em
outro “eu”, numa tentativa de
transcender o finito e o contingente e buscar a permanência, alcançar a perenidade,
ou como diz A. Garrett na “Advertência”
de Folhas Caídas, “…E vós morrereis, ele não [o poeta]. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu
e se uniu convosco” “….Mas não
triunfais, porque a morte não passa do corpo que é tudo em vós, e nada ou quase
nada no poeta.”.
De
realçar que os tempos verbais que exprimem um desejo, uma vontade, se encontram
conjugados no presente do conjuntivo com valor de imperativo ou no futuro do
conjuntivo e semanticamente ligados pela isotopia do desvendamento; enquanto
que os verbos que remetem para o passado se encontram no pretérito perfeito e
quase todos gravitando em redor da isotopia da ocultação.
O quadro seguinte é revelador do que acabámos de
expor:
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Presente do conjuntivo com valor imperativo |
Pretérito perfeito simples |
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(não) recusem falem espalhe-se arranque-se (não mais se) cale libertem-se |
amei guardei soube calei foi |
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Outros tempos: (não) for Deixarem Quer (etc.) |
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Pedido, desejo Isotopia do desvendamento |
Passado Isotopia da ocultação |
Então, o
silêncio, tanto tempo recalcado, poderá ser o “eco” do “eu”, do que ele
soube e do que ele amou. Deste modo o “eu”
poderá vencer a “lei da Morte”
deixando aos outros um pedaço de si próprio, através do espaço/não-espaço, que
entretanto alcançou, nos caminhos que afinal são de todos nós, “de mim”, “de ti”, “de nós”, pois as inexoráveis leis da
existência no-los obrigam a partilhar. Mas a morte deste sujeito será uma morte
iniciática pois ele vai dar lugar a uma vida nova, um renascer, um avatar, uma
vivificação que se consubstanciará na partilha do legado que nos será
transmitido, cujo pedido de aceitação não devemos recusar, pois ele poderá
ajudar o sujeito poético a superar a finitude e propiciar sua participação no
Absoluto ou no Uno, “...[O poeta], é como
nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade.”5
A
diversa formulação estrófica e métrica, bem como a liberdade rimática, não
invalidam os muitos efeitos sonoros, a musicalidade da poesia. Eles são dados
por várias redundâncias semânticas – anáforas - “não” (2 vezes) “nem” (3
v.) “do que” (2 v.) “dos” “de” (2 v.) e outras repetições como “coisas”, ”ficar”, “ficarei”, “silêncio” “silenciosa”, ”espaço”, “espaços”, “voz”, (2 v.)
“fronteira”, “fronteiras” e fónicas –
aliterações – alguns dos vocábulos já referidos e ainda outros como v.g. a
grande profusão de sibilantes da 1ª. e 2ª. estrofes (“sombra”, “recusem”, “restos”, “escolhos”, “se”, “queimasse”, “mãos”,
“olhos”, “silenciosa”, “vosso”, “assim”, “através”, “espaço”, “alcançado”,
etc., etc.) repetições regulares que enformam o ritmo do poema. Também a rima,
embora irregular, contribui para a referida musicalidade: ela é interna e
externa, muitas vezes rica, e pontilha os versos numa articulação coerente e
harmoniosa com a semântica do poema, evidenciando e valorizando determinados
vocábulos. Os mencionados efeitos sonoros em conexão com o significado vertido
no poema, constituem uma formulação de qualidade estética com uma abertura
plurissignificativa, prefigurando uma pluralidade exegética , privilégio do
texto literário e que lhe assegura a entrada no “reino da Literatura”6 e, porventura, a perenidade.
Terminamos
com uma referência à dolorosa relação poeta/poema, a que Eugénio de Andrade
chama “Sacrifício de Ifigénia”7
e que está magistralmente exposta no excerto de sua autoria, que a seguir
transcrevemos: “…Porque o poeta vai
nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a
luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando
a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis – a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a que “deixe
de ser” para que o poema “seja”, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração
dos homens.” .
Lisboa, Maio de 2010
Daphne Lauro
[1] Num diálogo “in
absentia” entre o emissor/autor e o leitor/receptor, cf. “O leitor e a estética
da recepção” in Teoria da Literatura,
V.M.Aguiar e Silva, Coimbra,
Liv.Almedina, 1988
2 Eugénio
de Andrade, Poesia e Prosa, III vol.,
Círculo de Leitores, 1987
3 Camões, Lusíadas
4 Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Lisboa, Gradiva, 2003
5 Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, III vol., Círculo de Leitores, 1987
6 Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Lisboa, Gradiva, 2003
7 Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, III vol., Círculo de Leitores, 1987