Machado e Eça: diálogo na CPLP
A circunstância de ter
escutado recentemente uma palestra sobre o grande escritor brasileiro Machado
de Assis, proferida com brilho e elevação por Lauro Moreira, distinto
Embaixador do Brasil junto da CPLP – Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa
– reavivou em mim o interesse por este autor, que fez as minhas delícias de
jovem, na fase final da adolescência, fins dos anos 60, início dos anos 70 do
século passado.
Depois, subitamente, esse
entusiasmo inicial esfriou um tanto; outras descobertas se interpuseram, outras
curiosidades, outros gostos surgiram, sem que essa boa impressão da leitura de
Machado de Assis jamais se tivesse por completo desvanecido.
Descobri este notável autor
brasileiro por sugestão do meu Professor do Ensino Secundário, da disciplina de
Português, José Pedro Machado, nome tanta vez por mim elogiado, nunca, porém, o
suficiente para resgatar a dívida que com ele contraí, no universo da cultura
de raiz portuguesa, principalmente, mas também com fortes incursões nas demais
culturas ocidentais.
Desde logo, na clássica
greco-latina, onde todas as grandes culturas europeias foram beber, mas também
na francesa, na italiana, na espanhola, na inglesa e, com menor contribuição,
mas de maneira nenhuma ignorada, na alemã.
Sobre o Brasil, país de que
este meu Professor era bastante entusiasta, casado com uma insigne intelectual,
a Doutora Elza Paxeco Machado, brasileira de nascimento, mas cidadã nacional
também, por ser filha de portugueses, factor que parecia surgido para potenciar
as relações que o próprio José Pedro Machado haveria de fortalecer com vários
destacados académicos estudiosos do Idioma, como Antenor Nascentes e José de Sá
Nunes, filólogos de prestígio firmado nas duas margens do Atlântico.
Quando comecei a ler
Machado de Assis, suponho que pelo «Dom Casmurro», romance de fina
sensibilidade, de que retive a memória da cativante Capitu e o seu indeciso
mistério - traiu, não traiu - o que me surpreendeu, sobretudo, nessa altura,
foi a proximidade da sua prosa com a nossa, coisa nunca mais encontrada em
autores brasileiros posteriores, nem mesmo
Em Machado de Assis, há uma
leveza de narrativa de suma elegância e os próprios diálogos mantêm a correcção
gramatical da norma culta da Língua, coisa que deixou de suceder, como regra,
nos autores brasileiros posteriores a Machado de Assis.
Neste aspecto da correcção
gramatical e não só entre escritores brasileiros, mas também em relação aos
portugueses, quase se poderá dizer que quanto mais recentes pior, registando-se
até, entre muitos deles, de lá e de cá, certa displicência ou diversão com a
questão da observância gramatical. Dir-se-ia que, em especial em relação a
certos autores brasileiros contemporâneos, a Gramática se tornou matéria
inexistente, infinitamente elástica ou meramente facultativa, tal o descaso que
dela fazem.
Nada disso ocorre com a
prosa desenvolta de Machado Assis. Para lá da sua próvida imaginação, que lhe
permitiu elaborar uma obra vasta, deveras original e, por vezes, contra o gosto
da época, Machado de Assis, que era casado com uma portuguesa, pormenor aqui
certamente nada despiciendo para a proximidade linguística que nele observamos,
ganhou, no Brasil, estatuto de autor clássico, justamente venerado, fundador e
primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras, culminando com estas
atribuições, uma brilhante carreira de escritor, trilhada com persistência,
fundada na forte determinação de autodidacta, que assim compensava a extrema
humildade de berço, limitação que o talento, quando é exuberante, amiúde
consegue romper.
Sempre me seduziu a sua
prosa tão elegante e, nesta qualidade, bastante aparentada com certo estilo
queiroziano: fino, requintado, preciso, cheio de suavidade e leveza, com a
particularidade de na prosa de Machado se notar ainda uma sobriedade maior, com
o uso mais parcimonioso do adjectivo, neste ponto, acentuando uma inclinação
vincadamente mais clássica no escritor brasileiro.
Contemporâneo de Eça, de
quem era leitor, comprovadamente atento e exigente, Machado não hesitou em
criticar o seu confrade, arauto, entre nós, das novas modas literárias vindas
de França, inspiradas, especialmente para Eça, em Flaubert e Zola, que em
Paris, no último terço do século XIX, ditavam o gosto e estabeleciam, para todo
o mundo cultivado daquela época, os cânones da escola literária do romance
realista e depois naturalista.
Tais cânones estendiam-se
então rapidamente, com maior ou menor grau de obediência, a todo o resto do
mundo, num tempo
Machado criticou «O Primo
Basílio» de Eça, saído em 1878, em termos algo ásperos, apesar de fundados em
leitura cuidada. Excedeu-se, talvez, na acusação que fazia a Eça de este se
submeter, com solicitude, a modas francesas, chegando mesmo a acusá-lo de
plágio ou muito perto disto, em relação a Flaubert – Madame Bovary/O Primo
Basílio – e a Zola –
Eça, aparentemente, aceitou
com alguma bonomia a crítica de Machado, escrevendo-lhe até uma carta amável,
agradecendo a atenção que dedicara ao seu «Primo Basílio», sem deixar de
reafirmar a sua adesão à nova escola literária, escola essa que nunca
inteiramente mereceu o gosto ou a adesão do seu interlocutor brasileiro, mesmo
depois da sua fase dita realista, após a publicação das Memórias Póstumas de
Brás Cubas, em
Eça terá, no entanto,
reservado uma nota mais contundente para os que o acusavam de plágio, quando
veio a lume a 3ª e definitiva versão de «O Crime do Padre Amaro», em 1879, no
prefácio que então lhe antepôs.
Aí, na parte final do
Prefácio, Eça aproveitava para ajustar as suas contas: «Os críticos inteligentes que acusaram «O Crime do Padre Amaro» de ser
apenas uma imitação de «
A crítica de Machado a «O
Primo Basílio», todavia, se tinha algum fundamento quanto à arquitectura do
romance, à falta de sequência lógica de certas passagens, no fundo derivava
também de não dissimulado puritanismo presente em Machado, homem de vida muito
regrada, pacata e rotineira, casado, fiel e feliz no matrimónio, em contraste
com a vida de Eça, solteirão até aos 40 anos, educado na boémia de Coimbra e de
Lisboa, viajado, logo desde a juventude, quando em Outubro de 1869, parte para
o Egipto, para assistir à abertura do Canal do Suez, na companhia do seu amigo,
antigo condiscípulo, no Colégio da Lapa, aristocrata e futuro cunhado, Luís de
Resende.
Poucos anos depois, Eça,
entrado na carreira diplomática, irá conhecer bastante mais mundo, nas
sucessivas colocações consulares que foi obtendo: a primeira em Cuba, em 1872,
de onde passa, em missão aos EUA, visitando várias cidades, entre elas Nova
Iorque, que nada o seduziu, passa depois, no final de
Com este percurso de vida,
Eça estaria certamente mais receptivo a tratar temas escabrosos, como o
adultério, o incumprimento do voto de celibato dos Padres, as aventuras
amorosas mais ousadas, tocando até temas como o incesto, no caso de «Os Maias»,
enfim, tudo o dispunha a encarar com maior à-vontade os fenómenos de dissolução
moral da vida social daquele final do século XIX.
Eça, no auge da sua
carreira literária e diplomática, morreria em Paris, em 16 de Agosto de 1900;
Machado (1839-1908), pouco mais velho que Eça (1845-1900), sobreviver-lhe-ia
oito anos, tendo-se grandemente sobreposto os períodos de criação literária
mais intensa de ambos, pese a diferença das carreiras e dos ambientes
frequentados pelos dois excelentes homens de letras.
Não obstante as diferenças
de gostos e de escolas, estes dois grandes romancistas da Língua Portuguesa
leram-se e estimaram-se mutuamente a vida inteira.
Curiosamente, Eça foi até
mais depressa reconhecido no Brasil do que em Portugal, como escritor de
eleição, ali sempre intensamente lido, com enorme entusiasmo, despertando,
ainda hoje, em terras de Vera Cruz, imensa simpatia e contando com muitos
leitores, neste ponto, talvez apenas igualado pelo Nobel Saramago.
Note-se que foi logo no
Brasil que surgiram as primeiras reacções às críticas de Machado ao Primo
Basílio. Eça contava aí, já então, enorme prestígio, a ponto de serem os seus
próprios leitores a encarregarem-se da sua defesa, perante as críticas, ainda que
sérias, desferidas pelos seus pares literários filiados em diferentes correntes
estéticas.
Ao contrário, em Portugal,
Machado de Assis nunca nem teve muitos leitores, como justificadamente
mereceria, permanecendo um ilustre desconhecido quase até aos dias de hoje,
como pôde comprovar o Embaixador Lauro Moreira, quando, há poucos anos,
procurou nas Livrarias de Lisboa obras daquele escritor.
Em geral, nem conheciam o
autor e raras delas dispunham de uma única obra sua. Na actualidade, neste
âmbito, felizmente, o panorama melhorou imenso e as suas obras já se podem
encontrar, até em edições brasileiras, em muitas das nossas Livrarias.
Este fenómeno, no entanto,
atesta uma falha monumental no chamado intercâmbio luso-brasileiro, que tem
vivido embalado de declarações pias, porventura bem intencionadas, mas
claramente ineficazes dos responsáveis políticos de ambos os países,
restringindo-se bastante, na era actual, a trocas de cantores e a produções de
telenovelas, com um balanço desequilibrado, bastante favorável ao Brasil.
Naturalmente, este
indesejável desequilíbrio contribui imenso para que o Brasil se tenha
desabituado de ler e de ouvir o português europeu, bem como a sua variante
africana, que, por enquanto, ainda se mantém muito próxima deste, tanto no
plano literário, como no da fala comum.
Esta circunstância explica
certo alheamento brasileiro e até a sua alegada dificuldade em entender a nossa
forma de falar, que, na verdade, enferma de vários vícios preocupantes, quer
pela sua profusão na população, quer pela sua contínua progressão, a ponto de a
prazo se poder tornar pouco perceptível, mesmo para os próprios portugueses.
Verifica-se, na verdade, um
progressivo ensurdecimento do português, na nossa maneira de falar, rápida, mas
atabalhoada, cheia de vícios não corrigidos pela Escola permissiva, que descura
os preceitos básicos da fonética, da prosódia e da gramática do idioma. Aqui
existe, sem dúvida, um trabalho imenso, inteiramente nosso, para desenvolver.
Por outro lado, no Brasil,
por falta de contacto com o português europeu, na sua forma escrita, mas, acima
de tudo, na sua forma oral, este soa-lhe de um modo cada vez mais estranho.
Chega a ser caricato ouvir
portugueses dizer que, no Brasil, se acham confundidos com italianos ou
argentinos, por exemplo, nos primeiros contactos ali estabelecidos, numa prova
evidente da falta de hábito, de familiaridade, do ouvido brasileiro com a fala
lusitana.
Sem audição recíproca, sem
verdadeiro intercâmbio cultural biunívoco, aquele que se exerce nos dois
sentidos, sem o aumento do conhecimento recíproco das realidades políticas,
sociais e culturais de cada país, não haverá progresso, no seio da CPLP, nas
relações culturais e outras, e nenhuma retórica poderá disfarçar esta
realidade.
Há, assim, um espaço
cultural, o da CPLP, que merece maior atenção e carece de reforço urgente, no
âmbito das trocas económicas e comerciais, como complemento daquele espaço,
dando-lhe expressão real, com base nas vantagens recíprocas, no contexto de um
mundo em permanente mutação, em que, para todos, se torna premente descobrir
novos mercados e aumentar as transacções.
Dentro deste espaço
cultural existe um imenso potencial por explorar. Todavia, para isso, será
necessário ultrapassar alguns preconceitos e perder certo receio de falhar
eventuais protagonismos, tão irrelevantes quanto de duração efémera, dada a sua
convencionada alternância.
Cumpre, a propósito, falar
do presente Acordo Ortográfico, que não foi, infelizmente, apesar do seu longo
processo de gestação, acompanhado da discussão necessária por parte das
instituições especializadas, competentes na Língua, em todos os países membros
da CPLP.
Para Portugal, em que o
problema do enfraquecimento, progressivamente inaudível, das sílabas átonas é
uma realidade insofismável, que ameaça gravemente a oralidade do idioma, na sua
versão europeia, a eliminação das consoantes mudas tem uma importância
completamente diferente da sentida pelo Brasil, cuja maneira típica de falar,
mais pausada e mais aberta, distinguindo claramente as sílabas de cada palavra,
quase torna indistintas as sílabas tónicas das átonas, pronunciando-as todas
elas com elevada nitidez sonora.
Por outro lado, as duplas
grafias não resolvem adequadamente as discrepâncias grafológicas existentes, apenas
as consagram, validando, de um ponto de vista legal, pelo Acordo, as conhecidas
diferenças, equiparando-as, não se verificando aqui nenhuma adesão por
convencimento doutrinário.
Daí que, da parte
portuguesa, principalmente, subsistam contestações fortes e o sentimento de que
um dos parceiros, o Brasil, obteve nítido ganho de causa, com uma versão
ortográfica que lhe fica muito mais próxima da que utiliza desde 1943-45,
quando recusou aplicar o Acordo de então, o de 1945, assinado pela comissão conjunta
luso-brasileira, que ainda logrou uma primeira homologação do Governo
brasileiro, só depois definitivamente rejeitado.
Parece agora repetirem-se
sentimentos em lados opostos, com o Brasil achando normal o Acordo e Portugal
relutante em o aplicar, apesar da vontade política do seu actual Governo em lhe
dar execução.
Acresce que todo o Acordo
Ortográfico assenta sempre numa convenção, ainda que não uma qualquer, pelo
respeito que deve à índole do idioma, sendo apenas um instrumento de trabalho,
não unificando mais que a forma de representar as palavras do abundante léxico
português.
Mesmo esta pretendida
unificação permanecerá incompleta, pela quantidade de duplas grafias
consagradas no Acordo. No resto, a falta de compreensão entre os falantes do
universo da CPLP continuará, pelo alheamento recíproco das realidades de cada
um dos seus membros. É aqui, por conseguinte, que todo o empenho deverá
concentrar-se, se se pretender alcançar, no futuro, alguma coisa de sólido e
duradouro.
Portugal e os países africanos
de expressão portuguesa poderão ter de pagar um preço elevado, adoptando este
Acordo insatisfatório, tido por inevitável, em vista de um bem maior, uma
premente necessidade prática: a existência de uma só versão ortográfica, no
domínio da Língua Portuguesa, factor sem dúvida importante na expansão
internacional do formoso idioma de Camões.
Seria avisado começar,
desde já, a preparar uma revisão conjunta deste Acordo, com vista à obtenção de
uma versão mais participada, tecnicamente mais competente, mais rigorosa, que
melhor satisfaça as sensibilidades dos falantes da Língua, sendo certo que
sempre hão-de subsistir imperfeições e que nem todas as objecções ora
levantadas poderão alguma vez ser integralmente acolhidas.
Deve ainda lembrar-se a tão
falada necessidade de publicação de um Vocabulário geral comum da Língua
Portuguesa, bem como dos seus complementos Onomásticos, Patronímicos,
Toponímicos, Gentílicos, Vocabulários específicos de Termos Técnicos das
diversas disciplinas científicas, etc., etc.
Quase tudo isto está ainda
por fazer, prolongando, adiando eternamente a resolução das actuais
divergências, particularmente notórias no campo técnico e, em particular, no
geográfico, em que aumentam continuamente as discrepâncias, de cada vez que o
Mapa político do mundo se altera.
Veja-se, por exemplo, a
confusão de designações de países e regiões, até entre nós, originada pela
fragmentação política da União Soviética. Ficou, por conseguinte, por fazer um
trabalho avultado, para que o Acordo satisfizesse a contento, razão mais do que
suficiente para se desencadear, desde esta data, as iniciativas com vista à
preparação de um próximo verdadeiro Acordo.
Entre a presente obra
imperfeita, nalguns aspectos pouco rigorosa, largamente contestada, mas porventura
de aplicação inevitável, dada a assinatura dos representantes oficiais de
vários Estados da CPLP e a necessidade de alcançar algo de mais perfeito,
tecnicamente mais sustentado, que atenda ao maior número possível das actuais
objecções, abre-se um imenso campo de trabalho, no qual as diversas
Comunidades, por intermédio das suas Instituições mais habilitadas neste
domínio específico da cultura, têm forçosamente de se entender, para a
preservação de um património histórico-cultural comum, inequivocamente rico, à
espera de adequada exploração.
Lisboa, 23 de Março de 2009
António Blanco

- Eng.º Electrotécnico ( IST
)
- Membro da Ordem dos
Engenheiros n.º 19905
- Membro da Sociedade da
Língua Portuguesa n.º 11800
- Endereço Electrónico : antonio.blanco@iol.pt