António José Borges
Timor as Rugas da Beleza
Timor as Rugas da Beleza é um livro de memórias em que António J. Borges desde que partiu do aeroporto da cidade do Porto até chegar ao Aeroporto de Díli viveu intensamente cada minuto, não com aquela curiosidade própria dos ociosos, mas com um desejo de conhecimento que o levará a Timor em constante indagação e reflexão. Assim, bebendo cada minuto pela taça da verdade, procurará subverter a realidade em poesia. É nesta disposição que escreve cada uma das 26 crónicas que constituem este livro.
A abrir, uma epígrafe de Fernando Sylvan, «As crianças brincam na praia dos seus pensamentos e banham-se no mar dos seus sonhos» e outra de Stendhal, «Viveu, escreveu, amou», atestando, ab initio, a espiritualidade que habita nas suas memórias. Daí que os prefaciadores, seus amigos pessoais, aludem como prioritária essa qualidade poética que emerge dos seus textos.
Abé Barreto Soares afirma: «Com as suas palavras, Tozé apresenta-se como «viajante, fotógrafo e pintor poético». Daniel Tércio escreve no seu texto de apresentação da obra: «Ao reler os textos, os fragmentos de uma experiência maior, intuo que existe neste Borges uma viagem interior…». João Paulo Esperança refere-se ao autor, dizendo: «As crónicas que agora publica em livro são um reflexo dessa inquietação com o que o rodeia, um olhar poético sobre uma terra de magia, Timor.»
Comecemos pela primeira crónica que se intitula «Histórias, cautelas e o menino dos jornais». Depois da narração de várias histórias contadas pelo dono de um pequeno restaurante defronte da Universidade, onde é docente, histórias de crocodilos que mataram gente, e que surgem como um aviso para muitos dos perigos que ocorrem nos rios e junto às margens, o autor fala-nos de Aníbal, um menino de olhos doces de quem se tornou amigo, que vende jornais, fruta e outras coisas mais, como tantas outras crianças órfãs que andam pelas ruas.
Um dos meios de transporte mais usual nesta terra pobre de Dili é a bicicleta, o que tem vantagens, porque não fomenta a poluição e chega a todos os pontos da cidade e arredores. Assim, viajou o autor, percorrendo estradas deterioradas e descobrindo os homens e as suas casas. O cemitério de Santa Cruz, local simbólico da cidade, é visita obrigatória para que nunca mais se esqueça a tragédia maior do povo timorense.
É evocado o Natal com as suas tradições que pouco diferem das nossas a não ser no hábito, ou melhor, na necessidade, de se comer cão, nas famílias mais pobres, quando a fome aperta. Por isso, o cronista afirma: «Assim, a primeira paragem do Pai Natal, com o saco bem cheio, deveria ser em Timor-Leste, onde podemos ler nos olhos das pessoas uma esperança infinita.»
«O povo é a base e a meta» é o tema de outra crónica, analisando politicamente a oração de sapiência de Xanana Gusmão aquando do seu Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Takushoku (Japão) com o título «Timor-Leste, um jovem Estado - O peso do passado e os desafios do futuro». Reflectiu-se sobre o verdadeiro significado de democracia para se erigir nela «um Estado de direito democrático, baseado na vontade popular e no respeito pela dignidade da pessoa humana», nº I do artigo 1º da actual constituição timorense, insistindo Xanana na sua alocução de que é necessário evitar o abuso do poder de mando, evidenciando a necessidade de se transmitir ao povo uma educação cívica, como ainda a existência de uma rede de comunicação social, decisiva para a democracia que é «um processo que se engaja com o tempo, mas pela sua contínua prática.».
Estas são várias das crónicas de António J. Borges, através das quais viajamos com ele, assistindo a conferências, exposições de arte como a que lhe foi dado ver na Arte Moris Gallery em Dili, ou uma cerimónia de graduação em artes marciais. Mas mais emotivos são os encontros com as populações, ora colhendo informações preciosas dos velhos da região, ora aprendendo os valores da célebre Masca, um mastigatório tónico, que provoca uma certa excitação e que simultaneamente é uma fonte de energia, muito utilizado pelas populações do Sudeste asiático.
Acompanhamo-lo igualmente a Ataúro e assistimos à beleza de um nascer do sol ou ao verde da vegetação nos montes ou subimos com ele a Ramelau, o monte avô, o mais alto do antigo império português (mais de 3000 metros), para daí desfrutar da paisagem mais maravilhosa que os olhos poderão ver. Poderemos igualmente descer às encantatórias praias e respirar livremente a magia do local.
E é com esta sensação de termos estado perto do divino e da magia que a beleza da paisagem encerra, mas ouvindo ainda os ecos da tragédia que atingiu o povo de Timor que concluímos a leitura deste belo livro de crónicas de António J. Borges que prestigia a literatura portuguesa e a crónica em particular.
Elsa Rodrigues dos Santos
Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa
(Texto lido aos
microfones da RDP Internacional, no programa “Fantástica Aventura”)