Centenário do Nascimento de António Aurélio Gonçalves

 

António Aurélio Gonçalves e a influência de Eça de Queirós

A ironia como opção estética e ética

                                    

 

António Aurélio Gonçalves nasceu em 1901, em São Vicente, no Mindelo, cidade que recriou magistralmente nas suas várias noveletas, termo com que ele próprio definiu as narrativas que dele conhecemos.

Cremos, assim, ser oportuno, neste país que foi berço de António Aurélio Gonçalves, estudioso e admirador da obra de Eça, aliar estes dois nomes, representantes maiores das duas culturas, num modesto trabalho que intitulei:

«António Aurélio Gonçalves e a influência de Eça de Queirós no seu discurso novelístico. A ironia como opção estética e ética.»

António Aurélio Gonçalves, em 1937, publica um opúsculo de 46 páginas, em Lisboa, onde desenvolve o tema: «Aspectos da ironia de Eça de Queirós» e que constitui a 1ª parte de um trabalho, cuja 2ª parte virá a ser publicada, anos mais tarde, em 1963, num Suplemento Literário do Diário de Lisboa. Em Agosto de 1960, sai no Boletim Cabo Verde, Ano XI, nº 131, um artigo com o título «A psicologia de Carlos da Maia e o plano construtivo de Os Maias». Esses três artigos estão agora reunidos num livro publicado, em 98, pelo Instituto Camões, em parceria com o Centro de Cultural Português do Mindelo, com o título António Aurélio Gonçalves - Ensaios e Outros Escritos, sendo a organização e apresentação de Arnaldo França.

Em 1937, quando António Aurélio Gonçalves publica Aspectos da Ironia de Eça de Queirós, inicia-se na senda literária, curiosamente, não na ficção, mas no ensaio. Começa, pois, a construir a sua oficina de escrita, reunindo as ferramentas na reflexão teórica e escolhendo como objecto de análise o escritor que lhe era mais caro e com quem mais afinidades tinha. Esta análise da obra de Eça é igualmente um olhar sobre o Romantismo e sobre a sociedade portuguesa de fim de século. Começa por afirmar, nesse primeiro opúsculo, que, na obra de Eça de Queirós, se podem reconhecer duas fases primaciais: A primeira, iniciada por O Crime do Padre Amaro e a Correspondência de Fradique Mendes, mas passando por O Primo Basílio e A Relíquia.

Nesta primeira fase, as personagens centrais reagem e comportam-se à luz da sua herança psicológica, revelando as tendências hereditárias dos seus ancestrais, não sendo corrigidas por uma educação, ainda que racional e cautelosa.

Triunfa, pois, sobre a personalidade criada pela educação, a índole advinda dos genes que lhe foram conferidos à nascença, tese tão defendida pelos naturalistas.  

Assim, percorrendo a galeria das personagens, em O Crime do Padre Amaro, o jovem sacerdote, ordenado sem vocação, rebela-se contra o destino, rompendo as regras e amando Amélia que acaba por se lhe entregar. Mas, acontecendo o inevitável, a gravidez, Amaro revela-se o covarde, o cínico, o materialista, embora, como diz, AAG, «pressentindo-se na sua alma a queimadura secreta de angústias passadas, impedindo o levantamento de nova onda de revolta como a que o levou ao crime».

Luísa em o Primo Basílio, parecendo viver feliz na sua vida tranquila de burguesa doméstica, irá atirar-se nos braços do primeiro sedutor que, neste caso, é o seu primo Basílio. Pressionada pela criada chantagista, afunda-se, dia para dia, na visão apavorante do adultério descoberto. Emerge, contudo, desta situação, procurando ser feliz na paz do lar, mas soçobrando mortalmente quando o marido lê uma carta do amante, que chega atrasada.

Teodorico Raposo de A Relíquia procura passar aos olhos de uma tia tão fanática quanto rica por um devoto incensador de santos, a fim de lhe herdar a fortuna. No momento em que julga convencê-la, um equívoco fatal, a troca da relíquia, isto é, a coroa de espinhos de Jesus Cristo, pela camisa de uma prostituta, destrói-lhe os sonhos.

            Carlos da Maia, educado primorosamente pelo Avô, o senhor D. Afonso, em Os Maias, após a paixão por aquela mulher desconhecida, bela como uma Vénus, que chega um dia à cidade e que, afinal, não era mais do que a irmã desaparecida e, depois da tragédia do incesto, cometido já conscientemente, que leva à morte do seu avô, «prossegue em Paris a sua vida de ocioso, deixando-se, porém, de amores que o prendam seriamente.»

Deste modo, afirma AAG, «cada uma das personagens desta série termina com o dissipar de um sonho intenso que ocupou todas as energias da existência, apenas ao primeiro sinal do destino». «Reeducar o meio, torná-lo receptível de forma a depois encontrar nele inteligência e estímulo, seria obra poderosamente apaziguadora, mas demorada, incompatível com o génio dos homens que Eça nos mostra. Nem sequer o tentam ou esboçam projectos que, assim como se formam, assim se esvaem.»

António Aurélio Gonçalves escalpeliza os sentimentos deste universo humano que perpassa na obra de Eça, descobrindo-lhes as fraquezas e julgando-as sem dó nem piedade.

Deste modo, afirma: «Os heróis lançam-se numa expectativa inquieta. São perseguidos por vaga insatisfação que não sabem como curar pelo sentimento ora obscuro, ora claro - mas presente sempre- de que a sua vida é incompleta, representa um destino falhado.»

(...) «Reclamam uma vida apaixonada e faltam-lhes as qualidades para a ganharem.»

«Na sua ansiedade de impotentes, procuram então um derivativo. (...) Numa espécie de semi -inconsciência, empurrados por um desejo profundo e antigo, embrenham-se na aventura amorosa.»

Amores, que AAG afirma não passarem de «traições, fraudes, relações mantidas às ocultas, comportando perigos de várias espécies, sem uma ideia precisa do termo que as espera». E acrescenta: «É a aventura, no rigor do vocábulo, com tudo quanto este subentende de clandestino, de falso, de incerto, de ilusório.»

Nesta série de desenlaces, Eça exprime a sua ironia, consubstanciada no contraste «entre a extensão dramática dos seus finais e a insignificância dos objectos que causaram as catástrofes: uma carta que chega como uma bala perdida, uma camisa de mulher amarrotada, uma velha caixa amarela com papéis velhos. (...)»

Além disso, a intervenção da fatalidade e do determinismo dá à sua ironia uma forma transcendente: o fantástico. Este tema da fatalidade, diz o autor, «é tratado pelos românticos de uma forma primitiva, reduzido apenas a um motivo de tragédia pura, esmagando o homem pela vida. Eça de Queirós dá-lhe, porém, uma complexidade inteiramente sua, pois conferiu-lhe também um motivo de ironis. E cito: «Facetou-a de contrastes violentos, cobriu-lhe a vibração de soluços com estridências de um riso frenético.». (Ex: A cena do chapéu do Vilaça no momento mais crucial d’Os Maias em que Ega revela a Carlos que Maria Eduarda é sua irmã).

Assim, cada conclusão resume uma existência e é consequência de certa atitude perante a vida «determinada por um carácter e este, por sua vez, explica-se por um complexo de influências de hereditariedade e meio.»

Norteado pelas doutrinas naturalistas, com base na teoria determinista enunciada por Taine, que condicionam o homem à hereditariedade e ao meio, contudo, a intervenção da fatalidade introduzia na sua arte, segundo palavras do autor, « o sentimento da inquietação perante o universo, desarticulava a rigidez geométrica da sua construção.»     

E afirma ainda: «O fatalismo, em Eça de Queirós, destrói como um tufão mas passa com uma ligeireza de asa.»

Daí resulta o fantástico que nasce sempre de um conjunto de circunstâncias, reunidas imperceptivelmente, aparentemente desligadas, mas dispostas por uma inteligência sobrenatural, para um destino preciso. Evidentemente que o fantástico nestas obras de Eça, e que era já anunciado com fortes marcas em Prosas Bárbaras, não é feito de artificialismos, ou como diz AAG «de deliquescências românticas», mas qualquer coisa de mais complexo, «o arrepio irreprimível à ideia do inesperado, do drama para o qual nos encaminhamos quando julgamos partir para um recreio- o eterno arrepio do homem sob o olhar de Némesis, isto é, a divindade que representa a vingança divina sobre os excessos da condição humana ( mesmo o excesso da felicidade) a fim de garantir o equilíbrio do universo.»

Na 2ª fase de Eça de Queirós, tomando AAG como objecto de estudo os dois romances, A Ilustre Casa Ramires e A Cidade e as Serras, ele dirá que «a sua concepção de vida adquire uma amplitude cadenciada, harmoniosa, admite que a vontade triunfe de influências malfazejas, concebe que o indivíduo atinja objectivos elevados. (...) Alarga-se a contextura dos seus romances, a construção adquire mais liberdade, perde o encadeamento demasiado lógico, demasiado inteligente. (...) O escritor banha-se, confiante, na alegria da vida que vai criando: a inquietação, o sentimento do fantástico esvaem-se.»

 

Vejamos agora o que se passa em relação às personagens de AAG. Como se circunscrevem elas dentro de um contexto cabo-verdiano e se evidenciam na estrutura das novelas comportamentos idênticos aos do universo romanesco queirosiano.

            Vamos ver ainda o papel da fatalidade e como se conjuga a ironia não só como opção estética, mas igualmente como opção ética.

Comecemos pela Noite de Vento.

Como núcleo fundador desta novela, encontramos o desencontro do amor. Virgílio apaixona-se por Nita, mas esta rapariga estranha acaba por deixá-lo, voltando para a casa da mãe, não se sabendo bem por que motivos. Saudades do antigo noivo que a traíra e a abandonara de barriga cheia ou apenas falta de amor, frustração de uma alma magoada, desejo de ficar só? Repetem-se os mecanismos, noutra escala de Maria Monforte e de Pedro da Maia. Maria abandona Pedro e este suicida-se. Virgílio não se suicida, mas o desespero é tão grande que o leva a deixar a casa, a família, a terra, talvez para sempre, não suportando a humilhação que lhe fora infligida.

Desde o início da acção que o leitor prevê que a união dos dois jovens não terá a completude desejada, pois a atitude esquiva de Nita e as suas palavras no início desta relação funcionam como um aviso ou um fatalismo. («Oh, não, Virgílio, deixa-me estar assim como estou. Não estamos assim tão bem? E, depois não me conheces ainda, para bem dizer. Olha que dizem que sou de tempo. Não tens medo? »)

Este aspecto do carácter («eu sou de tempo»), que define a sua própria instabilidade e imprevisibilidade, vai marcar,  tanto como o meio, a sua actuação. O contexto situa as personagens num morro afastado da cidade, a Fonte de Filipe, povoado de casas pobres, onde a miséria é a nota dominante. O comportamento das raparigas, privadas de tudo, é entregarem-se ao amor e perderem-se nas suas redes, vitimadas por um machismo irresponsável.

A ironia desta narrativa consubstancia-se na atitude de Nita, que fora abandonada pelo namorado anterior, deixando-a grávida, e que depois larga exactamente o homem que a ama e que a aceita naquele estado. Deste modo, contraria a situação vulgar da rapariga abandonada pelo namorado, numa espécie de vingança ou de castigo sobre o machismo habitual ou, muito simplesmente, traduz a morte espiritual com a desistência da criação de valores.

A epígrafe de Henri  Régnier com que  ilustra esta novela (« les ballerines ont vu nos chemins/ Et nous avons suivi leurs fards, leurs rires, leurs tambourins/ pour les perdre un soir d’ombre au détour du chemin»)  funciona como uma técnica de «mise-en-abîme», na direcção do desvio e da perdição nos caminhos da vida que se pressentem logo à partida como uma fatalidade.

Vejamos se os mesmos mecanismos se repetem em Pródiga, talvez, em meu entender, a narrativa mais complexa e mais rica em situações.

Na 1ª edição, o autor iniciava a novela com a parábola bíblica referente ao filho pródigo que regressa à casa paterna, depois de a ter deixado. O pai recebe-o de braços abertos, perante a desaprovação e o ciúme dos irmãos que, continuando em casa, jamais tinham recebido da parte do pai tal mostra de carinho.

AAG detém-se em seguida numa série de reflexões que explicam, por um lado, os valores cristãos do pai, aceitando festivamente o filho desencaminhado, por outro, desmitificam o regresso do filho a casa, não por arrependimento, mas por medo do instável.

A partir destas conjecturas, o Autor interroga-se sobre o futuro comportamento do pródigo, depois de obtido o perdão. Para o crente, será o reconhecimento do erro, o arrependimento e a aceitação da obediência e da ordem. Porém, para o escritor arguto, habituado a desvendar a alma humana, a sua visão é menos idealista. O autor termina esta introdução com as interrogações: «A que destinos a sua alma atormentada chamará o pródigo? Quanto tempo ele ficará na casa familiar, antes de repetir a caminhada que se inicia «na febre das esperanças» e «finda na agonia das desilusões?» Que será dele?

É de notar que estas questões encerram afirmações e não hipóteses. O autor parte de certezas ao considerar a alma do pródigo atormentada e não acreditando no seu regresso definitivo à casa paterna.

Eis formulada a trajectória da narrativa. O filho pródigo é transformado em filha pródiga que regressa à casa de sua mãe que a recebe carinhosamente, com grande descontentamento das irmãs, depois de a ter abandonado para se entregar a uma vida de vicissitudes e de libertinagem. As desilusões de amores perdidos, o meio da prostituição da cidade mindelense, as dívidas e a ameaça da fome levam-na a regressar, procurando refúgio no ninho materno. Mas por quanto tempo?

Ergue-se o universo feminino, com todas as implicações inerentes à condição da mulher de um estatuto social pobre e desprotegido, num meio pequeno e insular. A figura bíblica é desmitificada «a priori» pelas questões formuladas que põem em causa a mensagem cristã do arrependimento e do retorno «ao bom caminho». É a aventura, a evasão, a liberdade e o grito de emancipação que norteiam e desenham o percurso da protagonista.

A introdução da obra marca logo de início o caminho da personagem central e o destino que terá de ser cumprido como um anátema. Funciona, por outro lado, como o conjunto de indícios que denuncia o futuro da acção.

A mesma estrutura se repete em Virgens Loucas com uma introdução do mítico que é desmitificado pela própria vivência, não deixando, porém, de imprimir à realidade um carácter sagrado.

O autor inicia com um passo do Evangelho segundo S. Mateus, versículo 25 - a história das virgens que acendem lâmpadas para acolher os futuros esposos. As que se esquecem e se atrasam já não são recebidas e aceites. Também na diegese da novela, o passo evangélico assume-se como uma função temática, instituindo relações de similitude, espelhando, nas suas linhas de força, características sintácticas e semânticas presentes na narrativa.   

Betinha e as suas companheiras da noite tinham-se esquecido de comprar petróleo para alumiar-lhes a casa. A pobreza extrema e o desregramento de vida se conjugaram para essa negligência. Indo em busca do petróleo na única loja que lhes poderia fornecer, àquela hora, o dono recusa-se a vender e fecha-lhes a porta na cara, não cedendo aos seus rogos.

Uma vez mais, o sub-mundo da miséria física e moral e a condição da mulher evidenciam-se num entrelaçamento e repetição de temas na sua obra.

Xandinha de Pródiga tem muitos pontos em comum com Betinha de Virgens Loucas e de Nita de Noite de Vento, como Toi Nina de Pródiga tem certas semelhanças com Vergílio de Noite de Vento. Como ainda Nha Candinha Sena (de O Enterro de Nha Candinha Sena) tem similitudes com a mãe de Nha Guilhermina de História do Tempo Antigo ou com D. Zulmira de Pródiga. Também os espaços continuam a repetir-se no universo diegético de AAG. O Lombo, lugar de má vida de Xandinha e das raparigas que com ela convivem, em Pródiga, é também onde se encontra o quarto de Domingas em Virgens Loucas.

Assim, tal como em Eça, AAG recria ambientes que se cruzam e se repetem, embora com estatutos sociais diferentes. Eça reergue o meio burguês e aristocrático com os seus vícios, hipocrisias e também desilusões. A mulher, na obra queirosiana, move-se com um destino marcado pela beleza, mas igualmente pela infelicidade, sob o signo de amores frustrados e proibidos, do ciúme, da deslealdade, de adultérios, de traições e até do incesto.

A mulher em AAG, traz a marca da pobreza e é vítima de uma sociedade que a não protege, antes pelo contrário, a lança, como uma fatalidade, nas redes da perdição.

Deste modo, como na obra queirosiana, as suas personagens terminam, (repetindo as suas palavras ao referir-se às personagens de Eça,) «com o dissipar de um sonho intenso que ocupou todas as energias da existência, apenas ao primeiro sinal do destino».

A educação e os conselhos das mães e das senhoras amigas não actuam sobre as raparigas, numa idade em que poderiam ter escolhido outro caminho, porque a hereditariedade e o meio são mais fortes. Já suas mães tinham sofrido o abandono, o nascimento dos filhos ilegítimos, a dissipação da vida e dos sonhos e as histórias repetem-se nas filhas. O mesmo dedo naturalista a dirigir a acção e a construção das personagens se verifica no escritor cabo-verdiano.

Quanto à ironia que Eça definia fruto de uma atitude estética, mas sobretudo ética, a Santa Ironia que repunha no seu devido lugar a justiça, também, em AAG, se assume com uma finalidade moralizante. Formalmente se repete o mesmo processo do contraste da tragédia concomitantemente com o riso e a situação cómica. Delfim Santos em O Valor da Ironia chamava a atenção para o facto de que nem sempre a ironia leva ao riso, como nem sempre o humor motiva o cómico. Mas mesmo entrelaçando-se com o riso, a ironia é sempre sintoma da situação trágica em que o homem se encontra e indício de libertação. Pode, assim, relacionar-se com o que Unamuno chama «o sentimento trágico da vida».

Lembremos o momento mais doloroso de Pródiga, quando a Mãe de Xandinha manda uma mulher verificar se a filha ainda estava virgem. Descoberto o pecado, a mãe desanca na filha brutalmente como doida, enquanto as irmãs indignadas e, ao mesmo tempo com um ciúme pela cólera da mãe, gritavam pelo buraco da fechadura:

     «- Assim, mamã, mata-a, pica-a e, depois de a picares, faz linguiça com ela. Ela é que é a tua filha Xandinha. Mas a nós, quando tivemos os nossos pais-de- filhos  não nos deste este tratamento. Quer dizer, não nos ligavas, não é deveras?.»

A estas palavras, absurdamente ciumentas, se seguiram vários dichotes do povoléu que acudira à gritaria «e a galhofa pegou»

Deste modo, se a fatalidade, tal como em Eça, introduz na sua arte o sentimento da inquietação perante o universo, a ironia não é apenas uma opção estética, no mesmo sentido que lhe dera Schellegel ao definir esta figura de estilo como a mais nobre de todas, isto é, «a poesia da poesia». Assume-se igualmente com aquele valor referido por Delfim Santos de que a ironia é uma forma de revolução, pois que «o revolucionário é, neste sentido, um homem irónico» ou, aplicando a terminologia de Kierkegaard, «a revolução é também um produto da ironia executiva. O conservador, seja em que plano for, e em especial o burguês, é sempre destituído de ironia, porque se amoldou plenamente ao mundo em que vive e que é o seu ideal.»

António Aurélio Gonçalves faz parte desse escol de escritores que denunciaram os males sociais da sua terra, tal como Manuel Lopes, Jorge Barbosa, Baltazar Lopes, Corsino de Azevedo, Aguinaldo Fonseca, António Nunes, Manuel Ferreira, Nuno Miranda, Arnaldo França, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Orlanda Amarílis, Luís Romano, Teixeira de Sousa, Arménio Vieira, e tantos, tantos outros que revolucionaram o meio numa altura em que era necessário consciencializar o povo cabo-verdiano da sua condição de sociedade colonizada, num meio insular de grandes carências, em grande parte pelo abandono a que fora votado.

O eco da sua voz repercutiu-se ainda ao longo de todas estas décadas, na poesia surrealizante, com laivos concretistas, mas de grande profundidade psicológica de Corsino Fortes, na construção solidamente edificada da poesia de Tio Tiofe ou na ironia de Germano de Almeida, onde a anedota e o picaresco se conjugam na construção do retrato das figuras mais peculiares do universo cabo-verdiano.

Repercute-se nos poetas e ficcionistas que, depois dos anos 80, publicam as suas obras, como Daniel Benoni, Luís Tolentino, João Rodrigues, Oswaldo Osório, David Hopffer de Almada, Mário Fonseca, José Luís Tavares, Vasco Martins, Dina Salústio, Vera Duarte e, muito recentemente na belíssima poesia de António da Névada que constituem um marco na moderna literatura cabo-verdiana, pelas propostas de uma escrita, onde a linguagem se vivifica e se renova na temática do homem novo, independente e livre que, como Margarida Mascarenhas o afirma, «vai levedando a ilha na dissonância do «eu», em confronto com as vozes das diferentes ilhas do arquipélago.»

António Aurélio Gonçalves, na verdade, revolucionou o meio cabo-verdiano, não só pela sua palavra de mestre, ao serviço do ensino, transmitindo-a a sucessivas gerações, como ainda ao serviço da literatura, através da sua pena de prosador exímio e lúcido analista da alma humana.

 

 

    

                                                                                                                                               Elsa Rodrigues dos Santos