António Modesto Navarro
Natural de Trás-os-Montes, nasceu em Vila-Flor, onde teve uma infância difícil, pois trabalhou desde os 10 anos na oficina de ferrador de seu pai. Fez-se homem numa família de onze filhos à custa de muito trabalho e de uma vocação nata para a cultura e para as letras. Assim, é um auto-didata que cresceu intelectualmente a pulso, observando e vivendo a realidade extremamente dura que o rodeava, o seu nordeste transmontano.
Cumpre o serviço militar como fuzileiro naval de 1963-1967, parte dele em Moçambique, durante a guerra colonial, experiência que o marcou. É assim que vai despertando para o pensamento político e para a militância.
Entra para o Partido Comunista em 1971, ligando-se desde muito cedo a cooperativas e associações culturais, entre elas a Devir, a Associação Portuguesa de Escritores (de que foi fundador), Associação do Nordeste Transmontano, A Casa-de Trás-os-Montes e Alto Douro em Lisboa, a Sociedade Voz do Operário (de que é presentemente Presidente da Direcção). Tem desenvolvido desde o 25 de Abril e até antes intensa actividade política. É membro da Assembleia Municipal de Lisboa, órgão a que presidiu de 2003 a 2005. Preside actualmente à Comissão Permanente de Educação, Desporto e Juventude da Câmara Municipal de Lisboa.
A sua actividade literária reflecte, pois, a análise política e social, de ontem, denunciando o regime fascista, de hoje, os desmandos dos poderes e a sua falta de ética.
Muitas das suas obras tratam do Nordeste trasmontano, com a sua falta de perspectivas para os jovens, as difíceis condições de sobrevivência, a prepotência dos ricos e poderosos, as histórias da emigração.
Ainda em relação à sua obra literária, fez este ano exactamente 40 anos que iniciou as suas publicações com o livro de contos Libelo Acusatório, em 1968. Seguiram-se-lhe História do Soldado que não foi condecorado (contos) em 72, (edição do autor), Ir à Terra (poemas, 72, ed. de autor), Emigração e Crise no Nordeste Transmontano, ensaio e entrevistas, 1973, Brasões de Fina Flor (novela), 74, Ed. Futura, Prisão e Isolamento em Caxias, textos de 1974, Ir à Guerra (romance), Ed. Futura, País de Enquanto (romance), 1975, Perspectivas de Libertação no Nordeste Transmontano (textos e entrevistas), Vida ou Morte no Distrito de Viseu, 76, Das Árvores Mortas à Reforma Agrária (reportagem), 76, Retornar, romance, 76, O Norte cantar a Reforma agrária (poesia), 76, Velha Querida, romance, 78, Fronteira de Abril, contos e textos, 79, ed. Alfaómega, Contos Transmontanos, 1980, Ed. Veja, Poemas Populares Alentejanos (Org. e introdução), 81, Regresso Ausente (contos e textos), A Morte no Tejo (romance), A Morte do Pai (romance), Morte no Douro, romance, Condenado à Morte, romance, 91, (Prémio Caminho da Literatura Policial), O Deputado, 2002, Fina Flor, Seis Mulheres na Madrugada, O Emblema Leonino, Histórias do Nordeste, Ed. Escritor, 96.
Pode considerar-se Modesto Navarro o primeiro ou um dos primeiros autores do romance policial com os livros Morte no Tejo, A Morte dos Anjos, A Morte do Artista, sob o pseudónimo de Artur Cortez. Igualmente A Morte no Douro e O Pântano são dois romances com muitas afinidades com o romance policial.
Podemos constatar que as publicações se entrelaçam entre a ficção (contos, novelas, romances e o romance policial) e o texto de natureza política, quase como uma continuação do seu imaginário e da sua vivência como escritor e cidadão.
Modesto Navarro,
Histórias do Nordeste, (Narrativas pequenas)
Lisboa Ed. Escritor, 1996
Trata-se de pequenas histórias que retratam, por vezes, a violência doméstica, o desamor entre os casais por uniões falaciosas movidas por interesses económicos, casamentos que se desmoronam por rotina, má formação, maus hábitos, vícios, a bebida, o jogo, a falta de dinheiro que leva à emigração do homem para terras longínquas, a guerra colonial, as situações de rotura na família, os filhos, a duplicidade, enfim, Histórias do Nordeste dão uma perspectiva interior de uma sociedade trasmontana nos seus segredos mais íntimos.
Elsa Rodrigues dos Santos