Aquilino Ribeiro
no Panteão Nacional
A palavra foi para Aquilino Ribeiro o espelho do mundo: uma expressão de vida e de cultura, um instrumento de trabalho, de realidade e de ficção; um encontro permanente com as raízes; e uma descoberta contínua das virtualidades da língua portuguesa. Fez da literatura – caso muito raro entre nós – um ofício em tempo inteiro e empenhou-se na dignidade da condição social do escritor e do seu estatuto profissional. Pertenceu à comissão organizadora da Sociedade Portuguesa de Escritores, sendo eleito primeiro presidente da direcção.
Nasceu Aquilino Ribeiro no concelho de Sernancelhe a 13 de Setembro de 1885. Passou a infância em Moimenta da Beira; estudou em Lamego e em Viseu. Transpôs, depois, as fronteiras regionais e nacionais; permaneceu vários anos exilado em França, vindo a radicar-se em Lisboa durante cerca de meio século. Esta itinerância nunca o separou da memória das origens que constituiu o cerne da sua produção literária.
A geografia física e a geografia humana da Beira Alta fundidas na Geografia Sentimental – um dos seus títulos emblemáticos – foram recuperadas por Aquilino na sua obra extensa e intensa. O Malhadinhas costuma ser a grande referência. Mas há muitos outros livros de Aquilino que nos retratam o casticismo visceral e telúrico da região. Entre os romances e novelas destacam-se, Terras do Demo, Estrada de Santiago, Quando os Lobos Uivam e a reconstituição autobiográfica de escritor em Cinco Reis de Gente, Uma Luz ao Longe e Via Sinuosa. O inventário beirão de Aquilino ficaria incompleto sem mencionar os ensaios ocasionais reunidos em Aldeia, Avós dos Nossos Avós, Arcas Encoiradas, Homem da Nave, e, ainda, Um Escritor Confessa-se, primeiro tomo de memórias inacabadas.
Figura dominante da vida cultural e política das tertúlias do Chiado, Aquilino conhecia Portugal palmo a palmo. No próximo mês de Setembro completam-se os 50 anos da publicação da Casa Grande de Romarigães, crónica romanceada que se desenvolve em Paredes de Coura, no Alto Minho. O escritor ultrapassara os setenta anos mas continuava na pujança das suas faculdades intelectuais. O cinquentenário da Casa Grande de Romarigães, uma das obras-primas da literatura portuguesa, já está a ser assinalado.
As atribulações da militância política no final da Monarquia e contra o regime de Salazar não conseguiram ofuscar o prestígio de Aquilino Ribeiro. A Academia da Ciências de Lisboa sempre lhe reconheceu os altos méritos. Atribui-lhe, em 1933, o Prémio Ricardo Malheiros ao livro As Três Mulheres de Sansão; admitiu-o, em 1935, como sócio correspondente; elevou-o, em 1958, e por unanimidade, a sócio efectivo. Também partiu da classe de Letras da Academia das Ciências a comemoração, em 1963, das bodas de ouro do primeiro livro, Jardim das Tormentas, prefaciado por Carlos Malheiro Dias.
O jubileu do escritor foi um acontecimento memorável em todo o País, interrompido pela morte inesperada que o surpreendeu a 27 de Maio de 1963, em plena apoteose literária. Decorria, entretanto, uma mobilização nacional e internacional para que lhe fosse atribuído o Prémio Nobel da Literatura.
Na sequência de uma ideia que lançámos, nos anos 90, na Imprensa e que se formalizou numa intervenção pública que proferimos, em Viseu, durante as comemorações dos 120 anos do nascimento do escritor, a fim de se constituir um movimento cultural e cívico para a trasladação de Aquilino para o Panteão Nacional, a Assembleia da República já acolheu o projecto, aguardando-se a respectiva concretização, com as honras devidas a um dos maiores vultos da literatura de língua portuguesa.
António Valdemar