Arménio Vieira
Nasceu na cidade da Praia e fez os seus estudos secundários no Mindelo, no Liceu Gil Eanes.
Em 62, criou a página literária «Seló», Suplemento do Notícias de Cabo Verde. Tem colaboração em várias revistas e jornais. Em 81, publica Poemas, em 98, Eleito do Sol, em 99, No Inferno, em 2006, Mitografias.
Arménio Vieira é na literatura cabo-verdiana o homem das roturas, quer estéticas, quer temáticas, sobretudo na ficção.
Em Eleito do Sol, em 98, rompera com o tema da terra cabo-verdiana e dos seus múltiplos problemas, nos quais se embrenharam todos os escritores, sobretudo desde os claridosos. Vai buscar a história de um escriba egípcio, transportando-nos para um imaginário da história antiga do Egipto, entre Faraós, torcionários, deuses e mitos, que constituem uma grande metáfora ou uma imensa alegoria sobre o Poder, enquanto força totalitária e autoritária. Como afirma Manuel Veiga, «todas as histórias de Eleito do Sol mais não são do que uma permanente luta entre os dois poderes: O Poder (instituído) e o Saber. Se o primeiro combate pela força das armas, o segundo age pela subtileza do espírito.»
Nesta luta ganha a inteligência e a sagacidade, tornando-se Poder Político. Expressa-se aqui a ironia do autor, nessa indagação sobre o poder que se reverte em favor pessoal e no desrespeito pelo outro. Revela, nesta libertação de cânones literários e na universalidade dos temas, a maturidade e o sentido de liberdade de um escritor que não necessita de ir beber às suas raízes para afirmar a sua identidade.
Na sua obra No Inferno, o livro abre com uma Nota Prévia do autor, em que ele explica a natureza desta obra como uma narrativa que não se enquadra nos habituais géneros clássicos, pois não se trata de um género herdeiro da epopeia de feitos heróicos ou com pretensões realistas ou naturalistas à moda de Balzac, Flaubert, ou Zola ou com vocação para a análise psíquica como o fizeram Dostoievsky, Proust ou Faulkner.
As histórias deste livro são um tanto insólitas, fragmentárias, surrealizantes, mas que acabam por funcionar como um todo, ao porem em questão a própria criação literária, fruto da insatisfação do escritor na busca da verdadeira originalidade. Por outro lado, institui como um dos núcleos fundadores da obra, a insularidade. Na verdade, ninguém como Arménio Vieira expressou até hoje, na literatura cabo-verdiana, de modo tão pungente e tão angustiante a insularidade que é levada ao extremo da sufocação, do pânico, da morte, da loucura, da patologia e do delírio.
Esta forma de expressão leva-nos à velha questão que atravessa a história da literatura: Será a escrita, a criação literária, consequências de uma patologia que atinge o criador e o condiciona irremediavelmente? Ou, pelo contrário, é o acto da criação que leva o autor a mergulhar nos infernos da mente?
A lucidez e o seu talento não deixam lugar para dúvidas em relação à segunda hipótese que mais se ajusta à sua procura incessante da genialidade.
Em relação à poesia, desde 62, quando Arménio Vieira cria a página literária «Seló», apenas com 21 anos (página dos novíssimos) do Suplemento do Notícias de Cabo Verde, o leitor apercebe-se de que está em presença de um poeta de qualidade e muito original. Originalidade que ele vai cultivar e demonstrar, no caderno «A Noite e a Lira» (1º Prémio dos Jogos Florais), nos poemas publicados no Artiletras e Fragmentos ou em Poemas, livro publicado em 1981 que abrange o período de 1971-78 ou Poesia Dois (de 1971-1979).
Muito recentemente, em 2006, o poeta publica Mitografias que, como o próprio título indica, trata de poemas escritos sobre mitos que se reportam às figuras da Bíblia, a Jesus Cristo crucificado e aos velhos profetas, mas também aos deuses da mitologia clássica, com referências a Zeus, Marduk, Osíris, Jeová, ou aos sábios e heróis gregos, Heraclito, Homero, Ulisses.
Reportam-se igualmente aos mitos da nossa cultura ocidental, Pablo Neruda, Maiakovsky, Rimbaud, Breton, o fundador do surrealismo, (um dos seus principais inspiradores), Apollinaire, Quevedo, Mallarmé, Verlaine, Camões, Spinoza, Garcia Lorca, Jorge Luís Borges, Nietzsche ou Mozart e poderia ter referido o seu compatriota João Vário, com quem tem algumas similitudes nessa ânsia da liberdade existencial.
Em todos os poemas está impressa a marca da grande qualidade, da sabedoria, da ironia fina com que trata os temas das arbitrariedades dos poderes e põe em relevo o absurdo das guerras e da repressão, o amor e o desejo, as traições e as hipocrisias que constituem os infernos de muitas relações.
Arménio Vieira é, assim, actualmente um dos expoentes máximos da cultura e da literatura cabo-verdianas que representa para os mais jovens uma espécie de mentor como escritor e como pensador.
Elsa Rodrigues dos Santos