Carlota de Barros
Sonho Sonhado
Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro
Praia, Cabo Verde, 2007
Carlota de Barros nasceu na ilha do Fogo, em Cabo Verde. Fez os estudos primários em Moçambique e os secundários em Lisboa. É licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Iniciou a sua carreira no Ensino Secundário em Cabo Verde, de 1966 a 1974, vindo depois para Lisboa, onde continuou a exercer a sua docência.
Carlota de Barros abre o seu primeiro livro, A Ternura da Água, com o poema «Mar e Fogo», fundador da sua imagética, como igualmente memória do lugar onde nasceu.
«Nasci junto ao mar
(…)
me uni para sempre
à água
ao sol
à areia
nasci entre o fogo
e tempestades salgadas.»
A água, o mar marcam-lhe a transparência de vida e transportam para a poesia sinais de uma vivência feliz, na união da família e dos amigos. Transportam-na igualmente para o seu Cabo Verde, sempre presente onde aprendeu a amar, numa morabeza bem peculiar de solidariedade e de ternura.
E se em Ternura da Água, seu primeiro livro, a autora se identifica com amor, com alegria, com família, com terra, neste último livro, Sonho Sonhado, ergue o mesmo hino ao sonho e à vida. Sonho sempre ligado às suas ilhas.
Em «Sonhei uma Ilha», a chuva vem de madrugada beijar os campos. E no poema «Regresso à Terra», o agente poético diz-nos, numa forma coloquial, como é bom voltar ás ilhas, percorrendo a Vila, «aberta ao sol de Agosto»:
«uma música
vem de longe
pensas nos amigos
nas serenatas
dos últimos dias
de Setembro
(…)
ninguém te conhece
não conheces ninguém
(…)
mas
«alguém toca-te
um abraço familiar
uma gargalhada sonora
a tua alma alegra-se
nada mais te dói
a terra colhe-te
sorri-te hospitaleira.»
O mesmo optimismo se verifica no seu poema «Sem o rumor das lágrimas»:
«Amanhece
não quero ouvir
o rumor das lágrimas
a descer os montes
não quero mágoas
(…)
quero adormecer tranquilamente
no silêncio das noites estreladas
sem o rumor das lágrimas».
Encara igualmente a seca com a mesma recusa ao sofrimento:
Não gostaria de ter visto
A seca a crescer
(…) mas vi
esqueletos de goiabeiras
retorcidos
de secura
ocas papaieiras
vergadas
sem seiva sem sémen
não gostaria de ter visto
mas vi
não gostaria de ter visto
os altivos coqueiros de pé
a morrer sem um gemido
o esplendor das árvores
a murchar em silêncio
não gostaria de ter visto
mas vi.»
Também a poetisa não gostaria de ter visto a velha Antónia demente, vergada pelos anos e pela miséria:
«A velha Antónia
ensandeceu
vagueia pelas ruas da nossa Vila
entoando em voz melódica cadenciada
cânticos e aleluias ao Senhor e à Virgem Maria
(…)
comove-me esta mulher
das ilhas
o meu coração magoado
corre a confortá-la
e solta no ar um beijo
de ternos carinhos
pobre Antónia
que ensandeceu
doce alma solitária
que um dia sorriu-me feliz.
À semelhança de quase todos os poetas cabo-verdianos que cantaram a morna nos seus vários matizes, procurando defini-la, decifrá-la, Carlota de Barros descreve-nos esta canção, identificadora da alma cabo-verdiana, de uma forma muito lírica e sentimental, com toda a sensibilidade que lhe é peculiar.
Além disso, ao tentar caracterizar a morna, caracteriza igualmente o povo e a sua terra.
«Morna
encanto de um povo
brando e sensual
(…)
eco silencioso da nostalgia
de um povo pobre
caminheiro solitário no mundo
morna
melodia de amor
esperança e saudade
de um povo simples
náufrago nas ilhas
que Deus sonhou e povoou
morna
doce canto
do ilhéu
na valsa lenta das ondas
voz de um povo de poetas
a namorar o mar
morna
carícia nua
no coração da nossa terra
pobre e desflorida.»
No poema «Se o mar fosse milho», deseja quase como uma prece, chuva e milho para o povo das ilhas que anseia por lavrar a terra e semear o seu próprio pão
«Se o mar fosse milho
as enxadas dos lavradores
não parariam de lavrar
a terra fortalecida
abrir-se-ia sem dor
às sementes mais coloridas»
Alargando o seu olhar pelo mundo, recusa igualmente ver guerras e dias de traição. Em «Tempo injusto», o agente poético diz:
«Busco um tempo liberto
acho um mundo de prisão
de gente sem pão
busco um tempo de paz
acho um tempo de guerra.»
Nos poemas «Dias de traição», «Os homens enlouqueceram» e «Sem piedade», o discurso torna-se mais afirmativo, com alguns laivos de agressividade como forma de contestação pela violência no mundo.
«Vejo grades no sol
vilmente amordaçado
(…)
vejo longos dias de sangue
mentira
vilania
cobrir a terra de negro terror
(in «Dias de traição)
A invasão americana e a guerra no Iraque são factos que lhe merecem palavras de reprovação e de repulsa:
Os pássaros da morte
Pairam sobre o Iraque
Sem piedade
Deixam cair seus excrementos viscosos
Sobre homens e mulheres
Alucinados de desespero
(…)
os pássaros da morte
violam o Iraque
sem piedade
(in «Sem piedade»)
O discurso da agressividade é, porém, confrontado com o seu habitual lirismo doce e sensível às coisas simples da vida no poema «Os homens enlouqueceram»:
«Os homens enlouquecidos
abriram as portas do inferno
calaram os sonhos
secaram os poços de água pura
e bebem do lado viscoso que restou
não sabem já do amor
da água pura
de crianças felizes a cantar na roda.
Os grandes homens do poder
Estendem os dedos do ódio
Da guerra e da morte
Pelas cidades vilas portos
Já não sabem do aroma da rosa a abrir
Do silêncio do amor a despertar
Não sabem do doce rumor da paz
A penetrar a alma.»
No verso curto, na escolha das palavras, no lirismo telúrico, na solidariedade militante sente-se a cada passo a presença de Eugénio de Andrade que é, na verdade, uma referência literária para Carlota de Barros. Quando o poeta nos deixou, Carlota escreve-lhe uma longa carta que intitula «Última Carta para Eugénio Andrade», numa despedida comovente:
«Ouço-te no silêncio do orvalho sobre o coração da terra, como o som harmonioso das primeiras chuvas sobre as telhas. Vejo o teu olhar de criança escutando a respiração vagarosa dos montes, imaginando a delicadeza da flor da água que não chegaste a saber como era. (…).
Como disseste na elegia para Che Guevara digo-te também: «Cada palavra tua é um homem de pé» E digo-te mais: Cada palavra tua é a verdade, é o amor, é um bago de cristal puro na guerra dos mundos.».
E, finalmente, o sonho sonhado da poeta é o regresso à terra de todos os que partiram num abraço único de empenhamento para a reconstrução do país. Traduz, assim, a mesma mensagem de Corsino Fortes quando ele nos fala em «Mar & Matrimónio», isto é, o mar serve para que o emigrante cabo-verdiano saia da sua terra em busca de melhor vida, sim, mas mais do que isso, em busca do conhecimento e de experiência que virão enriquecer e fecundar a terra «que toda a partida é alfabeto que nasce/todo o regresso é nação que soletra», adverte Corsino Fortes.
Carlota de Barros dirige-se ao filho do emigrante no poema «Quando fores homem»: «Cabo-verdiano que nasceste/ longe do país dos teus pais/ vai à terra quando fores homem (…) beberás o vento, comerás os frutos/ mastigarás a terra e o sal/ do doce mar de Cabo Verde».
Incentiva, assim, todos os que partiram a regressar:
«Venham todos
os que partiram
ergam os braços aos céus
pelo sonho sonhado
por uma terra com brilho
caminhos claros
esperanças reforçadas
levantem-se todos
por este sonho sonhado.»
Este livro é, assim, um hino erguido ao amor, à paz, ao bem estar da terra que a viu nascer; à felicidade dos homens, reagindo com perplexidade e revolta a tudo quanto viole a harmonia universal.
Bem hajas, Carlota, pela pureza do teu coração e pela simplicidade da tua poesia que atinge, porém, a complexidade do homem, simplicidade que é sinónimo de lucidez e de despojamento que lembra o teu pai poético, Jorge Barbosa, quando ele afirma no seu poema «Simplicidade»
«Eu queria ser simples naturalmente
sem o propósito de ser simples
(…)
Eu queria ser simples
E a minha vida seria
Sem egoísmos, sem ódios, sem invejas, sem remorsos.
(…)
Seria sem gramática
A minha poesia
Feita toda de cor
Ao som do violão
Com palavras aprendidas na fala do povo
Eu queria ser simples naturalmente
Sem saber que existia a simplicidade.»
É com essa simplicidade, «feita toda de cor ao som do violão», melhor diria, no abraço da ternura, que Carlota de Barros escreve as suas obras.
Elsa Rodrigues dos Santos