Chico Buarque,

Estorvo,

Lisbos, Publicações Dom Quixote

 

 

Chico Buarque da Holanda, compositor, cantor, poeta, dramaturgo e escritor é uma das figuras mais conhecidas e conceituadas da cultura brasileira.

Ganhou celebridade com as suas canções cujas letras falam do quotidiano brasileiro com muita ironia e simultaneamente ternura pelo seu povo. Não deixa, porém, de as tornar num libelo contra todas as formas de hipocrisia e injustiça social.

Quem não conhece canções como «Mulheres de Atenas», «A Ópera do Malandro», «Construção», ou um dos últimos CD’s publicados depois do 25 de Abril, proibido no Brasil, ainda no tempo da ditadura, em que o Chico cantava: «Manda-me daí um cravo vermelho, pá, (…) e um cheirinho a alecrim», referindo-se à nossa revolução?

De incontestável mérito também a música que compôs para a fabulosa peça de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, de que iremos falar no próximo programa.

Mas se Chico Buarque se notabilizou pela sua música, igualmente é reconhecido pela poesia que escreve e por todos os outros géneros que cultiva, sobretudo a peça de teatro (e não esqueço Roda Viva que, um dia, quis encenar com os meus alunos e não houve oportunidade) ou a narrativa.

Estorvo é uma narrativa não muito longa, por isso a classificaria de uma novela, que se lê de um fôlego, porque contém os ingredientes necessários para estimular a leitura e prender o leitor até à última gota.

Na abertura do livro, o autor num trabalho metalinguístico, invoca os vários significados ou palavras do mesmo campo semântico de «estorvo», inclusive em francês ou em latim, numa nota bem irónica e surrealista tanto do seu grado.

E cito: «estorvo, estorvar, exturbare, distúrbio, perturbação, torvação, turbilhão, trovão, trouble, trápola, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar, estropício, estrovenga, estorvo».

Logo à partida se fica condicionado pelo título, que é uma espécie de «mise en abîme» ou indício do que vai suceder.

O que será, então, o «estorvo»? Qual o agente de acção de estorvar (pessoa, coisa ou acontecimento)? E o que irá estorvar?

Se atentarmos bem na obra, chegamos à conclusão que, desde o início até ao fim, haverá sempre qualquer acontecimento que condiciona ou perturba as acções da personagem central, constituindo-se ela própria também um «estorvo» para os outros. Deste modo, o título adequa-se bem ao conteúdo, pois instaura-se como o núcleo fundador e centralizador da obra.

O narrador em 1ª pessoa identifica-se com a personagem central. Assim, ele narra vários acontecimentos que vão preencher um tempo vivido vertiginosamente por este homem que não se sabe bem o que deseja da vida e qual o seu objectivo, nem a curto prazo e muito menos a longo prazo.

Logo de início, há alguém que lhe vem bater à porta repetidamente e que ele não abre, limitando-se a olhar pelo olho mágico da porta, procurando reconhecer aquele rosto que não lhe era totalmente desconhecido, mas de quem ele não conseguia lembrar-se. Até que, finalmente, num último vislumbre, descobre que era alguém que conhecera e que desaparecera do seu campo de visão, havia muito tempo, e que não seria aconselhável voltar a vê-lo.

Finalmente, o estranho visitante, vendo que não o atendem, chama o elevador e desce. Na rua, sente que está a ser vigiado do 6º andar.

Entretanto, o narrador desce também. O outro apanha um táxi, mas apenas dá uma volta ao quarteirão, regressando ao prédio. Subindo, desintegra a fechadura da porta e entra no apartamento, invertendo-se as posições. Agora é ele que vigia o dono do apartamento da sua própria janela do 6º andar. Este ali fica no passeio, sem saber bem o que fazer até que resolve procurar um táxi. Pouco depois, já em andamento, sente que está a ser seguido. O taxista, porém, consegue, a seu pedido, iludir o outro. Encaminha-se, então, para a casa da irmã que vive num condomínio fechado de grande luxo.

Também aqui acontecem coisas inusitadas. Depois de se identificar junto do porteiro, este olha-o desconfiado, mas, depois de telefonar lá para dentro, acompanha-o à porta dos fundos, deixando-o entrar.

Toma o pequeno almoço com a irmã na varanda e esta pergunta-lhe se não foi visitar a mãe que se encontra muito sozinha, aliás, por sua vontade por não querer nenhuma enfermeira a ajudá-la. Ele responde que não, porque quando lhe telefona ela não lhe responde. A irmã levanta-se, mas antes de se retirar passa-lhe um cheque, como o fazia habitualmente, para lhe pagar seis meses de arrendamento e recomenda-lhe que telefone à mãe. Aliás, o copeiro traz-lhe o telefone numa bandeja para que ele cumpra a recomendação da irmã. A mãe levanta o auscultador, mas, como habitualmente, não diz uma palavra, apesar de ele chamar por ela e de lhe dizer que é o seu filho. 

A seguir, procura o quarto dos fundos para se deitar. O cheiro do perfume da irmã traz-lhe à mente pensamentos incestuosos. Abre o armário e encontra um cofre que ele abre. Retira de lá umas jóias, mete-as no bolso e depois sai para a rua.

Apanha um ónibus que o leva para fora da cidade. Vai ter a uma moradia com piscina, onde é recebido pelo velho caseiro, comovido, de braços abertos, depreendendo-se que ele é o filho dos proprietários. O velho conta-lhe que a mulher morrera havia dois anos e ele ficara com os filhos naquela casa, onde os proprietários pareciam ter-se esquecido da existência daquela propriedade. Deste modo, os de fora, pouco a pouco se iam apoderando do celeiro, da casa do caseiro, da casa de hóspedes. Tinham até contratado gente estranha para derrubar a estrebaria e comido os cavalos.

Entretanto, ele vai para o quarto que sempre fora dele e adormece. Sente, pouco depois, sem ter forças para reagir, pelo sono que o invade, a presença de uma menina, talvez de dez anos a aproximar-se da cama, a beijá-lo e depois a retirar-lhe das calças todo o dinheiro que ele tem, fugindo a seguir com o irmãozito.

No dia seguinte quando acorda, ouve o barulho de três motas. Na varanda, vê, conduzindo-as, três rapazes com ar pouco pacífico. O mais velho pergunta-lhe se ele é quem está a pensar. Mostra-lhe, então, o relógio, exibindo-lhe simultaneamente uma faca e afirmando que ele tem cinco minutos para sumir do mapa.     

   É o velho caseiro quem lhe dá o dinheiro para voltar à cidade. Ele acaba por procurar a ex-mulher que o deixa ficar naquela casa que fora dele também. Ele apenas quer tomar um banho e descansar. Ela sai para ir trabalhar e deixa-o lá sozinho. Ao abrir a torneira da banheira ela explode e a inundação é inevitável pela casa toda.

Quando a ex-mulher regressa a casa tem um choque de ver tudo inundado e julga que ele o fez por vingança.

Enfim, a narrativa prossegue neste ritmo de violência, de frustração, de ajuste de contas, lado a lado com a marginalidade e traficância de droga, roubos, assaltos, acontecimentos que constituem uma grande metáfora do Brasil, atingindo igualmente o mundo contemporâneo, onde os valores se adulteram, mesmo nas famílias da alta burguesia que acabam por ser também vítimas de um sistema que elas próprias e o grande capital criaram.

                                                                            

 

                                                                                                                                                   Elsa Rodrigues dos Santos