Os Grandes Comunicadores
Como percebemos, a nossa época valoriza em extremo a
capacidade comunicativa dos cidadãos, sobrepondo-a mesmo a outras qualidades
muito mais importantes, para os próprios e, em geral, para a sua convivência
com os seus semelhantes.
Começa por haver um tremendo equívoco sobre o que seja um
grande comunicador, normalmente entendido como alguém que fala com desembaraço,
rapidez, sem gaguejar, quase sem pausas, sem parar.
Já a avaliação daquilo que é dito pelo grande comunicador
parece ter menos importância. Se é verdadeiro no que diz, se é sincero, bem
intencionado, se o que afirma tem sentido lógico, racional, susceptível de ser
entendido, confirmado, se apela para as qualidades intelectivas do auditório,
etc., etc., tudo isto perde valor ante a prestação do suposto artista.
Para o ligeiro critério corrente, o que fundamentalmente
conta é se fulano ou fulana foi convincente, assertivo, se falou com à-vontade,
sem hesitar, se o auditório lhe deu atenção e o desejável assentimento. A
verdade aqui, neste discreterioso juízo, conta pouco, a honestidade do locutor
é coisa praticamente irrelevante.
Aquilo que acima de tudo vale é a figura do Comunicador,
a sua apresentação, a sua colocação de voz, o seu ar de auto-confiança, de
segurança no que afirma, na forma como se dirige ao auditório, melhor ainda se
o interpela, se sugere perguntas, para lhe fornecer respostas rápidas,
directas, supostamente esclarecedoras, mesmo se sacrificando parcial ou
largamente a verdade ou o rigor do conteúdo do discurso.
Sobre a rapidez discursiva, convém logo que nos lembremos
de certos vultos da Comunicação radiofónica ou televisiva para que este mito
caia pela base.
Na minha adolescência conheci alguns excelentes
comunicadores, principalmente divulgados na RTP de então, a preto e branco, com
parcimónia de concursos, de prémios e de gritaria, a provar que nem sempre a
Tecnologia é um bem em si mesmo.
Citarei apenas dois ou três exemplos de conquistadores de
plateias: José Hermano Saraiva, David Mourão-Ferreira e Vitorino Nemésio, que
tiveram na RTP, todos eles, Programas de longa duração, com público fiel e
numeroso.
José Hermano Saraiva ainda hoje o podemos apreciar,
apesar dos seus quase 90 anos, da sua voz enfraquecida, apesar do seu aspecto
visivelmente debilitado. Mesmo assim, ainda ele nos prende a atenção, contando
episódios da grande e da pequena História, revelando pormenores de casos e
acasos da História geralmente desconhecidos da maioria do público.
A paixão que coloca nas suas charlas, mais que palestras,
a forma directa de abordar os assuntos, o seu conhecimento pormenorizado das
matérias, suscitam imediata adesão do público. Daí a explicação da sua longa
sobrevivência na televisão portuguesa, ultrapassando regimes políticos e as
suas imaginadas modas mediáticas.
Já o seu irmão António José Saraiva, competente, como
poucos, em tudo o respeitasse à cultura literária portuguesa, escritor exímio
na nossa Língua, não tinha vocação de Comunicador, faltando-lhe, sobretudo,
presença de voz e à-vontade discursivo.
As suas raras tentativas de intervenção televisiva, mesmo
em áreas onde o seu conhecimento era inquestionavelmente profundo, saldaram-se
por outros tantos fiascos, demonstrando bem que há um mínimo de características
naturais, inerentes à pessoa, absolutamente imprescindíveis para fazer dela um
Comunicador.
David Mourão-Ferreira, que teve igualmente na RTP um
Programa de largo fôlego chamado «Imagens da Poesia Europeia», foi outro
fenómeno da Arte de Comunicar.
Nunca falava depressa, antes introduzia e matizava as
suas pausas discursivas, com fumaradas expelidas do seu inseparável cachimbo,
que parecia emprestar-lhe inspiração permanente.
Divulgou imensos autores, desde os clássicos da
Antiguidade Greco-Romana, os medievos, passando pelos renascentistas, pelos
barrocos, conceptistas, gongóricos, românticos, realistas, naturalistas,
surrealistas, até aos contemporâneos.
Ele próprio declamava alguns dos poemas que seleccionava,
sempre com distinta elegância, com pleno domínio dos seus recursos vocálicos,
suportados num excelente timbre de voz, tirando todo o proveito das suas
condições naturais altamente favoráveis para o objectivo da Comunicação.
Nunca falava, repito, com rapidez, com aquela obsessão
moderna que leva amiúde os candidatos a Comunicadores a tornarem-se trapalhões,
atropelando ou esmagando sílabas durante o discurso, perdendo assim este em
clareza aquilo que erradamente eles pensam ganhar em rapidez.
O caso de Vitorino Nemésio era diferente e deveras original.
Também Professor Universitário, de quem Mourão-Ferreira havia sido Assistente,
na Faculdade de Letras de Lisboa, falava de forma algo lenta, aos arrepelões,
aos solavancos, consoante a inspiração o movesse e as palavras lhe caíssem no
discurso.
O seu Programa televisivo «Se Bem me Lembro...» que durou
longos e sucessivos anos, feito sem notas, sem preparação, totalmente entregue
ao desfiar da sua vasta e erudita memória, cativou muitos milhares de
portugueses, criando-lhes gostos culturais, num tempo em que escasseavam os
meios e o ambiente era de forte opacidade, dado o condicionamento a que toda a
informação se encontrava submetida.
Com Nemésio, percebíamos que estávamos perante uma
poderosa mente, que albergava imenso saber, aparentemente desordenado, mas logo
subitamente alinhado, quando recuperava o fio e o ritmo da sua peculiar forma
de raciocinar em frente das Câmaras. Mudava, com facilidade, de rumo, no
discurso, ao sabor das suas divagações eruditas, mas logo retomava o curso
pretendido.
Jamais esquecerei uma das suas charlas televisivas, em
que dissertou sobre o átomo e a civilização moderna. Achei extraordinário, como
um homem de letras, por excelência, sem formação na área científica, conseguia
falar sobre o mundo das partículas, sem cair em erros ou confusões,
desenvolvendo raciocínios coerentes, em terrenos aparentemente tão distantes e
até hostis aos do seu múnus académico.
Vim mais tarde a saber que Nemésio gostava de estudar
Física, por sua própria iniciativa, como simples autodidacta, sendo leitor
interessado de livros de divulgação científica e até de livros de Física
Atómica de nível universitário.
Ignoro como ele se desembaraçaria dessas leituras, mas
sem dúvida que delas captou conceitos importantes, a julgar pelo que se lhe ouvia
e pelo que ele próprio escreveu sobre o assunto, num livrinho que nos legou,
com o sugestivo título de «Era do Átomo/Crise do Homem» que a Imprensa Nacional
– Casa da Moeda publicou há poucos anos, na sequência de uma iniciativa
louvável, de reeditar a sua obra literária mais significativa, num conjunto de
cerca de trinta volumes.
Enorme serviço cultural, eminentemente educativo,
prestaria ao País a RTP se voltasse a transmitir os programas de elevado cunho
cultural de qualquer destes Grandes Comunicadores.
Com isso, as novas gerações poderiam, elas próprias,
cotejar os ícones mediáticos actuais com os desse tempo, para verem que, apesar
do sistema político geneticamente avesso à Democracia, nem tudo nele era negro
e muitos conseguiam transpor os limites impostos, rompendo com mentalidades
retrógradas, mergulhadas num provincianismo atrofiante, mal de que ainda hoje
não nos libertámos por completo, não obstante a «aldeia global» em que todos
passámos a viver.
Além destes Grandes Comunicadores outros existiam, na
Televisão a preto e branco, não tão brilhantes, mas igualmente de significativo
mérito e não retenho de nenhum deles, como característica mais relevante, a
rapidez de discurso, talvez com uma excepção, a do Maestro António Victorino de
Almeida, que, entre as suas grandes qualidades de Comunicador, reunia também a
da rapidez discursiva.
Estranha-se que a RTP e os demais canais televisivos o
hajam praticamente esquecido, nunca ou raramente o convidando para aparecer em
qualquer programa cultural. Em particular, no vasto universo cultural da Música
Clássica, suponho que seja difícil encontrar no País alguém mais documentado na
matéria do que o Maestro A.V. de Almeida, conhecimento potenciado pelos seus excelentes
dotes de exímio Comunicador, pela sua extraordinária presença em frente das
Câmaras, sempre muito descontraída, naturalmente movimentada, como peixe na
água.
Dos mais modernos, relevo os nomes de Paulo Varela Gomes
e Miguel Portas, que nos ofereceram, há alguns anos, um excelente programa
sobre a presença portuguesa na Índia.
Pelas qualidades comunicativas exibidas, bem podia a RTP
encomendar-lhes outros programas de semelhante recorte cultural, em lugar de se
limitar a repetir enlatados, produzidos maioritariamente nos EUA, nos quais a
visão objectiva e o rigor da narrativa, frequentemente, decepcionam quem possui
algum conhecimento dos temas abordados.
Outro vício proeminente de certos falsos Comunicadores,
como abundam actualmente, é que usam e abusam de recursos retóricos, para
contornar a falta de conhecimento específico das matérias sobre que gostam de
perorar, pensando e, para nossa desgraça, talvez consigam, com tal expediente,
iludir determinados auditórios, menos inteirados das matérias por eles
tratadas.
A própria retórica pode, no entanto, ser usada com
perfeita oportunidade e proveito, desde que se exerça em matéria dominada.
Nunca nenhuma retórica, porém, suprirá a falta de conhecimento adequado das
disciplinas sobre que se discursa.
No final, para avaliar os Comunicadores, o que sempre
subsistirá será a verdade, a seriedade e o rigor com que alguém fala sobre
determinada matéria. Nenhum charlatão, por mais habilidoso que se revele,
conseguirá jamais ludibriar toda a gente, todo o tempo, como creio ter afirmado
um dia um dos Kennedies, com toda a razão, de resto, amiúde comprovada ao longo
dos tempos, em variadas latitudes.
Os cínicos que, com sua estudada retórica, julgam tudo
poder dominar, desde que se façam acompanhar dos apoios convenientes,
carregando na demagogia, elogiando a mediocridade, a vulgaridade, procurando
ganhar a simpatia das massas, a pretexto da pretendida popularidade, continuam,
não obstante as suas artimanhas, a sofrer aqui e ali desagradáveis surpresas.
Lá vem tempo em que as suas rábulas acabam desmascaradas,
porque sempre haverá quem não se deixe levar nas tramóias urdidas por esses
falsos Comunicadores, que apenas buscam a sua rápida gloríola, a sua vantagem
pessoal, sem escrúpulo com a verdade dos factos, que, invariavelmente, nas suas
bocas, se vê, sem rebuço, sacrificada.
Porque só a verdade tem carácter perene; só o seu estrito
respeito assegura a honorabilidade do Comunicador. Isto, que parece evidente a
qualquer espírito são, torna-se difícil de entender aos pretensos
Comunicadores, vulgarmente apelidados de Grandes Comunicadores, pela maior
parte da Comunicação Social, que, também neste ponto, falta ao seu mais
indeclinável dever, que é o de informar no respeito da verdade. Infelizmente,
no entanto, quantas vezes vemos esta Comunicação Social agindo enfeudada a
interesses espúrios, de grupos ou de figuras.
Caberá aos que prezam valores que sempre sustentaram
sociedades, contra as forças que apostam na sua degenerescência, seja por
natural malevolência, seja porque esperem, na sua doutrina ilusória, a partir
dos escombros produzidos, erguer novo mundo, com paradigmas diferentes.
Vimos no que deu esta visão idílica, de que hoje pagamos
o preço amargo, sob o império do neoliberalismo, com a arremetida furiosa de
ideais egoístas, do êxito pessoal a todo o custo, com o concomitante desprezo
de todos os laços e compromissos que asseguram a coesão social, sem a qual a
vida em sociedade se transforma em luta brutal pela sobrevivência,
transpondo-se para ela os mesmos fenómenos que observamos no reino animal, que,
lembre-se, apenas se rege pela força cega de impulsos instintivos. Se não
desejamos vir a viver em tão violento cenário, cumpre-nos repor o respeito dos
valores.
No caso dos chamados Grandes Comunicadores, devemos
denunciar as suas práticas demagógicas, o seu desvio do respeito da verdade dos
factos e atender antes ao conteúdo racional daquilo que dizem, não sucumbindo à
sua eventual elegância frásica, à sua rapidez discursiva, raramente em
conformidade com os requisitos da verdadeira Comunicação.
Entre um falar ágil e mavioso, mas arredio da verdade do
que profere e um outro, menos desembaraçado, porventura entrecortado de
solavancos, mas em que existe raciocínio forte, coerente, assente no respeito
da verdade dos factos, não pode admitir-se dúvida de preferência.
Só o Comunicador que revelar a observância deste último
preceito merecerá o título de Grande Comunicador. Os outros representam a
perversão da própria faculdade comunicativa, desvirtuando essa tão perseguida
característica, entendida como trunfo indispensável a todo o aspirante a
qualquer tipo de protagonismo na sociedade contemporânea.
Pior do que elogiar Comunicadores deficientes, falhos de dotes
oratórios, é incensar aqueles que perversamente faltam à verdade, usando todos
os recursos da retórica para mistificar, deturpar, distorcer os factos, no
propósito de cativar auditórios ou multidões, episodicamente desprovidas de
senso crítico.
Lembremo-nos do imenso mal que têm feito à Humanidade
todos os Demagogos sem escrúpulos, que, no seu tempo de glória, no leviano
critério das massas, também passaram por Grandes Comunicadores.
Óbidos, 05 de Agosto de 2009

António Blanco
Eng.º Electrotécnico ( IST )
- Membro da Ordem dos
Engenheiros nº 19905
- Membro da Sociedade da
Língua Portuguesa nº 11800
- Endereço Electrónico : antónio.blanco@iol.pt
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