Concordância Verbal (continuação)
Teresa - Na última sessão, a Dra. Elsa disse que ainda ia continuar com o mesmo assunto sobre a concordância verbal. Portanto, esta matéria ainda não está esgotada., não é verdade?
Elsa - Não. Ainda há várias coisas a dizer, o que prova a grande complexidade da língua portuguesa. Até mesmo nós, professores de língua portuguesa, que passamos a vida agarrados às gramáticas, aos dicionários e prontuários, temos dúvidas e até cometemos, por vezes, erros. Por isso, os nossos caros ouvintes não se preocupem. É preciso, porém, estarem atentos às várias ciladas e encruzilhadas que se nos deparam.
Hoje vamos começar por tratar da concordância do verbo com mais de um sujeito:
O verbo que tem mais de um
sujeito pode concordar com o sujeito mais próximo, nos seguintes casos:
a) Quando
os sujeitos vêm depois do verbo este concorda com o que lhe está mais próximo:
Ex: Que a teus pés se incline a Terra e o Mar
Habita-me a dor e a saudade
Por ali passava todas as tardes a preta das bananas e o vendedor de cautelas
b) Quando
os sujeitos são sinónimos ou quase sinónimos
Ex: A
conciliação, a harmonia entre uns e outros é possível.
Todo o seu comentário, todo o seu exame crítico vinha insuflado de uma virtude elucidativa.
c) Quando
há uma enumeração gradativa:
Ex: O grotesco, o pobre, o fraco era triturado agora na pressão dessa grande cidade.
d) Quando
os sujeitos são interpretados como se constituíssem em conjunto uma qualidade,
uma atitude também o verbo só concorda com um deles, o que lhe está mais
próximo.
Ex: A
grandeza e a significação das coisas resulta do grau
de transcendência que encerram.
Morro se a graça e a misericórdia de Deus me não acode.
Teresa- Estes casos que enunciou são apenas liberdades possíveis, mas não são regras obrigatórias, não é verdade?
Elsa- É evidente. São apenas liberdades que se aceitam e até utilizadas por grandes escritores. O desejável será ir o verbo para o plural, para não haver enganos.
Teresa- E por hoje é tudo?
Elsa - Não. Ainda temos tempo para enunciar outros casos em que a concordância do verbo é obrigatória, nas circunstâncias que vou referenciar:
Infinitivos
sujeitos:
Quando os
sujeitos são dois ou mais infinitivos o verbo fica no singular
Ex: Estudar
e ler alto era o meu recurso de defesa
Fazer e
escrever é a mesma coisa
Vê-lo e amá-lo
foi obra de um minuto
Mas o verbo
pode ir para o plural quando os infinitivos exprimem ideias nitidamente
contrárias
Ex: Em sua vida se alternam rir e chorar
Teresa - Portanto, neste último exemplo que deu dos infinitivos que se opõem já é uma liberdade o verbo ir para o plural, podendo, no entanto ficar no singular, não é assim?
Elsa - Com certeza. Poder-se-á dizer: Em sua vida se alterna rir e chorar
Teresa - Ainda há mais alguma regra que queira enunciar?
Elsa - Falarei para terminar dos sujeitos
resumidos por um pronome indefinido
a) Quando os sujeitos são resumidos
por um pronome indefinido, (como tudo,
nada ninguém ) o
verbo fica no singular, em concordância com esse pronome:
Ex: Letras, ciências, costumes, instituições, nada disso é nacional (Eça de Queirós)
O pasto, as várzeas, a caatinga, era tudo de um cinzento de borralho
b) A mesma concordância no singular
se faz quando o pronome anuncia os sujeitos:
Ex: Tudo o fazia lembrar-se dela: a manhã, os pássaros, o mar, o azul do céu, os campos, sobretudo as fontes.
Tudo temia: o sol do verão, o frio do Inverno, a neve, o calor.
2ª Crónica
Teresa - Então hoje ainda vamos continuar com a concordância verbal?
Elsa - Vamos continuar , porque ainda nos falta falar de certas particularidades.
Teresa - Como por exemplo?
Elsa - Sujeitos ligados por ou e por nem.
1. Quando o sujeito composto
é formado de substantivos no singular ligados pelas conjunções ou, nem o verbo costuma ir :
a) para o plural, se o facto expresso pelo verbo pode
ser atribuído na globalidade e não em alternativa
Ex: O mal ou o bem dali
teriam de vir
Ex: Nem a
monotonia nem o tédio a fariam capitular agora
b) para o singular, se o facto expresso pelo verbo,
tem uma ideia de alternativa
Ex: Fui
procurá-lo, mas o constrangimento de o tornar a ver ou a minha timidez habitual
impediu-me de lhe bater à porta.
Teresa - Mas, às vezes, quando os
sujeitos estão ligados pela preposição nem,
encontramos o verbo no plural, mesmo quando há uma alternativa.
Elsa - É verdade, Teresa.
2) Na linguagem coloquial há uma tendência para anular tais distinções, principalmente quando os sujeitos estão ligados pela conjunção nem, encontrando-se frequentemente o plural quando seria de esperar o singular, em casos nítidos de alternativa.
Ex: Nem Madureira, nem Rogério serão eleitos presidentes do clube.
(Ora aqui deveria dizer-se «será eleito», porque só um poderá ser eleito presidente)
Outras vezes, faz-se a concordância com o sujeito mais próximo, embora a acção se refira a cada um dos sujeitos
Ex: Nem o sol, nem o vento, nem o ruído das águas perturbava a sua meditação
3) Se os sujeitos ligados por ou ou por nem não são da mesma pessoa, isto é, se
entre eles há algum expresso por pronome da 1ª ou da 2ª pessoa, o verbo irá
normalmente para o plural e para a pessoa que tiver precedência, conforme a
regra geral.
Ex: Ou ela ou eu havemos de abandonar para sempre esta casa
Ex: Nem tu nem eu soubemos lidar com o problema
Teresa - Ainda há mais particularidades?
Elsa - Para terminarmos hoje esta matéria gramatical, ainda tratarei de mais três aspectos que são pertinentes.
Teresa - Então quais são?
Elsa - As expressões um ou outro e nem um nem outro, empregadas como pronome substantivo ou como
pronome adjectivo, exigem normalmente o verbo no singular:
Ex: Só um ou outro menino usava sapatos; a maioria usava tamancos ou andava descalça.
Ex: Nem um nem outro havia idealizado previamente este encontro.
Teresa - Neste caso , naturalmente também há certas excepções, pois também se ouve com frequência o verbo no plural.
Elsa - Na verdade, quando as expressões se empregam como pronome substantivo, verificamos a construção com o verbo no plural.
Ex: Nem um nem outro puderam compreender logo toda a extensão e a gravidade do mal
Ex: Nem um nem outro desejaram questionar.
Teresa - Vamos a outro caso…
Elsa - Vamos tratar da locução um e outro que pode levar o verbo para o plural ou, com menos frequência para o singular.
Ex: Um e outro
tinham um sorriso bonito.
Mas aparece
também o verbo no singular:
Ex: Um e outro é sagaz e atento
Teresa - Quais são os outros casos que nos restam tratar ainda?
Elsa - Resta-nos ainda tratar dos sujeitos ligados por com e os sujeitos ligados por conjunção comparativa.
a) Quando os sujeitos vêm unidos
pela partícula com, o verbo usa-se
normalmente no plural .
Ex: Petrarca com
Camões e Dante são os poetas favoritos dos grandes escritores clássicos.
O rei com toda a sua comitiva saíram para o seu palácio de
férias
b) Neste último exemplo que dei, na verdade, o verbo podia ir para o singular se quiséssemos realçar o primeiro sujeito em detrimento do segundo, reduzido à condição de adjunto adverbial de companhia.
Ex: A viúva, com o resto da família, mudara-se para Vila Real de Santo António.
Teresa - E o último caso que trataremos, qual é?
Elsa - Quando dois sujeitos estão
unidos por uma das conjunções comparativas como,
assim como, bem como e equivalentes, a concordância depende da
interpretação que dermos ao conjunto:
a) O
verbo concorda com o primeiro sujeito se quisermos destacá-lo e fazemo-lo , colocando-o entre vírgulas
Ex: O nome, como o corpo, faz parte da nossa personalidade
b) O
verbo vai para o plural se considerarmos os dois sujeitos englobadamente
e, por isso mesmo, entre os sujeitos não há pausas nem vírgulas
Ex: É inútil acrescentar que tanto ele como eu esperamos que você nos dê sempre notícias.
Nota: De modo semelhante se comportam os sujeitos ligados por uma
série aditiva enfática. (não só… mas
(senão ou como) também):
Ex: Não só os
alunos como os professores estão, nesta altura do ano muito cansados e a
precisar de férias.
Elsa
Rodrigues dos Santos