CONCORDÂNCIA VERBAL

 

1ª Crónica

 

Teresa -  Então, hoje,  vamos tratar de que tema?

 

Elsa - Continuaremos com os casos particulares da concordância verbal. E começaremos pelo caso em que o sujeito é o pronome relativo quem.

 

    1. O pronome relativo quem constrói-se, regra geral, com o verbo na 3ª pessoa do singular

    Ex: És tu quem vai receber António ao aeroporto?

 

    Ex: E não fui eu quem te salvou?

 

    No entanto, há vários exemplos de bons autores em que o verbo concorda com o pronome pessoal, sujeito da oração anterior.

 

    Ex: «Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

      E oculta mão clara colora alguém em mim»

                                              (Fernando Pessoa)

 

    Eram os filhos, estudantes nas Faculdades da Baía, quem os obrigavam a abandonar os hábitos frugais.

                                               (Jorge Amado)

 

Teresa - No fundo é o que acontece com o caso citado na sessão anterior «quando o relativo que vem antecedido das expressões um dos (que) em que o verbo de que ele é sujeito vai para a 3ª pessoa do plural, mas, muitas vezes, vai para a 3ª pessoa do singular, sobretudo na linguagem corrente ou popular.

 

Elsa - Aliás nesta e noutras matérias há uma grande flexibilidade que vem registada nas gramáticas como formas possíveis de se usar que, no passado, seriam consideradas erradas.

 

Teresa - Vamos continuar?

 

Elsa -  Vamos. Se o sujeito é formado por alguns dos pronomes interrogativos quais? quantos? Ou dos demonstrativos estes, esses, aqueles, ou dos indefinidos do plural alguns, muitos, poucos, quaisquer, vários, seguidos de uma das expressões: de nós, de vós, dentre nós, dentre vós, o verbo pode ficar na 3ª pessoa do plural ou concordar com o pronome pessoal que designar o todo.

 

    Ex: Mas quantos, dentre vós, ainda estão vivos, devotam à vida a mesma paixão de outrora?

 

    Quantos, dentre vós, que me ouvis não tereis tomado parte desta conspiração?

    Quais de vós sois, como eu, desterrados no meio do género humano? (Alexandre Herculano)

    Muitos de nós andam por aí sem fazer nada.

    Estou a falar com aqueles dentre vós que trabalham na fábrica.

 

Teresa - Por isso, tanto quanto me pareceu, nos casos que citou agora seria mais desejável o uso do verbo na 3ª pessoa do plural, no entanto, escudados até por grandes escritores se aceita, nos casos citados, a concordância com o pronome pessoal que precede o verbo e designa o todo.

 

Elsa - Pois assim é.

 

Teresa - E se o interrogativo (qual, nenhum) estiver no singular?

 

Elsa - Aqui não há dúvidas. O verbo fica também no singular.

 

    Ex: Quando as nuvens começaram a existir,

           Qual de nós estava presente?

                                       Cecília Meireles

 

            Nenhum de vós, ao meu enterro

            Irá mais dândi, olhai! do que eu!»

                                                   António Nobre

 

    E, por hoje, ficamos por aqui, com estes versos do grande poeta António Nobre, mas ainda há muito para dizer sobre esta matéria.

 

 

                                       Concordância Verbal (continuação)

 

2ª Crónica

 

Teresa - Então hoje ainda vamos continuar  com as questões gramaticais ligadas à concordância verbal, não é verdade?

 

Elsa - Exactamente, pois ainda temos vários casos para analisar.

 

Teresa - Como por exemplo?

 

Elsa - Como por exemplo, quando o sujeito é um plural aparente.

 

Teresa - Um plural aparente? É capaz de explicar o que isso significa?

 

Elsa - É o caso dos nomes de um lugar, ou os títulos das obras que têm forma de plural desde que não venham precedidos de artigo. Nessas circunstâncias esse plural é aparente e o verbo vai para o singular.

    Ex: Honduras é um país da América Latina

 

    Cito agora uma frase de Urbano Tavares Rodrigues:

 

«Comparado por exemplo com Agosto Azul, Regressos acusa nalguns capítulos uma ligeira variação de timbre.»

 

Teresa - E os nomes de lugar ou os títulos dos livros que vêm precedidos de artigo do plural?

 

Elsa - O verbo vai para o plural

    Ex: «Os Lusíadas relacionam-se com o ideário dos Humanistas» (António José Saraiva)

 

    Os Estados Unidos fazem demonstrações de força.

 

Teresa -  Ainda bem que nos trouxe este exemplo, porque creio que há dúvidas em relação ao emprego do número do verbo quando o sujeito é Os Lusíadas. Portanto, deve dizer-se: Os Lusíadas são uma epopeia ou Os Lusíadas é uma epopeia?

 

Elsa -  Aqui a regra é outra, porque se trata do verbo ser que concorda com o nome predicativo do sujeito. Por isso se diz: Os Lusíadas é uma epopeia, mas com outro verbo vai para o plural, como na frase já citada anteriormente: «Os Lusíadas relacionam-se…» ou Os Lusíadas fazem parte dos programas do Ensino Secundário.

    Outro exemplo: As Pupilas do Senhor Reitor é um belo livro. Fazem parte do nosso imaginário da adolescência.

 

Teresa - Ainda tem mais algum caso para nos enunciar hoje?

 

Elsa - Podemos ainda falar sobre o caso em que o sujeito é indeterminado.

   Nas orações de sujeito indeterminado o verbo vai para a 3ª pessoa do plural

 

    Ex: Pediram-me que lhe dissesse que o escritório vai fechar para férias.

 

    Se, no entanto, a indeterminação do sujeito for indicado pelo pronome se, o verbo fica na 3ª pessoa do singular.

 

    Ex: Comeu-se um peru inteiro na Noite de Natal. Depois, tocou-se e cantou-se.

 

 

                                                     3ª Crónica

 

Teresa - Hoje ainda vamos continuar com a concordância verbal?

 

Elsa - Vamos, mas apenas com a concordância do verbo ser, que nos dá muita água pela barba.

 

Teresa - Então isso significa que as questões que se prendem com o verbo ser não são tão simples como se julgam.

 

Elsa - É verdade. Mas vamos a essa matéria:

    1. Em alguns casos o verbo ser concorda com o predicativo., como já vimos na sessão anterior quando citámos a frase. «Os Lusíadas é uma epopeia»

    Também nas orações começadas pelos pronomes interrogativos substantivos que? e quem? o verbo concorda com o predicativo se estiver no plural.

    Ex: Que são seis meses?

    Quem teriam sido os primeiros deuses?

    Quis saber quem eram os meus pais e o que faziam.

 

    2. Quando o sujeito do verbo ser é um dos pronomes isto, isso, aquilo tudo ou o = aquilo e o predicativo vem expresso por um substantivo no plural, o verbo ser vai para o plural.

    Ex: Tudo isto eram sintomas graves

     Isto não são conversas para ti, pequena

     Tudo na vida são verdades de relação.

 

    Mas há escritores que, neste mesmo tipo de frases, colocam o verbo no singular.

    Ex: Tudo é flores no presente - Gonçalves Dias

           Se calhar, tudo é símbolos – Fernando Pessoa

 

    Os dois escritores usando o singular (isto é, em concordância com o pronome indefinido), procuram realçar um conjunto e não os elementos que o compõem

 

 

Teresa - Portanto, há aqui a mesma abertura como em casos anteriores referidos, em que havendo uma regra, no entanto, podem-se aceitar outras versões.

 

Elsa - Pelo menos, os linguistas registam.

    Agora vejamos outros casos: Quando o sujeito é uma expressão de sentido colectivo como o resto, o mais, o verbo vai para o plural.

    Ex: O resto são atributos sem importância

          O mais são casos dispersos

  

Teresa - E há mais casos?

 

Elsa - Nas orações impessoais, o verbo ser vai para o plural.

 

    Ex: São duas horas da noite

          Eram quase oito horas

 

Observação - Referindo-se às horas do dia, os verbos dar, bater, soar concordam com o número que indica as horas.

           Ex: Soaram dez badaladas

                 Bateram oito horas no relógio da igreja  

                 Deu uma hora quando ele acordou

 

                                                 

                                               4ª Crónica

 

Teresa - Hoje ainda vamos continuar com a concordância verbal?

 

Elsa - Vamos continuar, porque ainda há vários casos particulares:

 

    1. Se o sujeito for nome de pessoa ou pronome pessoal, o verbo normalmente concorda com ele, qualquer que seja o número do predicativo.

 

    Ex: Camões é muitos poetas ao mesmo tempo

           Toda eu era olhos e coração

 

    2. Quando o sujeito é constituído por uma expressão numérica que se considera em sua totalidade, o verbo ser fica no singular

 

    Ex: Oito anos sempre é alguma coisa na vida de um casal

          Dez contos?! Não será demais?

 

    3. Nas frases em que ocorre a locução de realce, é que, o verbo concorda com o substantivo ou pronome que a precede, isto é, com o sujeito.

Ex: Sofia é que, em verdade, corrigia tudo.

      Tu é que deves escolher o filme que queres ver

      Eu é que estou cansada de tanto andar

 

    Observação – A locução de realce é que é invariável e vem sempre colocada entre o sujeito da oração e o verbo. É uma construção fixa e não pode ser confundida com outra semelhante mas móvel em que o verbo ser antecede o sujeito e concorda com ele.

 

    Comparemos as frases:

 

    1. José é que trabalhou, mas os irmãos é que se aproveitaram do seu esforço. (Expressão de realce)

    2. Foi José que trabalhou, mas foram os irmãos que se aproveitaram do seu esforço.

    Obs: Aqui o verbo ser é o predicado das respectivas orações, embora sejam formas enfáticas.

 

Teresa - Há mais alguma coisa que nos queira ainda dizer hoje?

 

Elsa - Há mais coisas para dizer, mas ficará para a próxima sessão.

    Apenas direi que sobre a expressão de realce é que se podem consultar a Revista Filológica nº7, p.217-225 de 1944 ou o artigo de João Malaca Casteleiro, «Sintaxe e semântica das construções enfáticas com é que», Bol. de Filologia, nº 25, p.97-166, de 1976-1979.     

 

 

                                                                       Elsa Rodrigues dos Santos