Cristina Semblano,

A Minha Língua

Confessions en portugais et en français

Éditions Lusophone,

Paris, 2004

 

Cristina Semblano nasceu em Ovar em 1955. Vive em Paris desde os 16 anos, tendo completado o curso liceal em Coimbra.

Com Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências de Gestão pela Universidade de Paris I, Sorbonne, foi estudante trabalhadora, tendo leccionado Economia numa escola de Paris.

   Artigos publicados no Jornal «Público» na sua área de especialidade - Economia e Gestão. Poesia publicada em revistas literárias. Organiza regularmente em Paris saraus de poesia.

   Este livro tem um prefácio de Fernanda Angius, professora, ensaísta, especialista na literatura moçambicana e muito particularmente na obra de Mia Couto.

 

Como diz Fernanda Angius no prefácio: «O leitor de A Minha Língua encontrar-se-á num percurso em que o Eu lírico tem dois corpos e duas línguas: o Português e o Francês.»

A obra toma o título do primeiro poema em português «A minha língua» e de um dos seus poemas em língua francesa.

   Cristina Semblano logo à partida enuncia uma filosofia universalista, universalizando a nossa língua, dispersa pelas sete partidas do mundo. Ultrapassa, assim, os limites do território, alargando-o, mas, ao mesmo tempo encontrando na Língua o laço de união entre nós e os povos que connosco conviveram durante séculos, criando raízes e germinando, por vezes, da mesma semente.

   Visão que se aproxima da de Eduardo Lourenço quando se refere às nossas comemorações do fim de milénio cujo conteúdo (e cito): «será o da convocação de todos os nossos fantasmas e a sua sublimação. É sob esta forma, sobretudo, que o passado nos é caro.»

   A poeta invoca os vários pontos de encontro na nossa civilização, fruto da vocação marítima que fez de nós o povo que somos:

 

                       «A minha Língua

                         sabe a terra

                         com laivos de mar

                         irradia da Península

                         é favela

                         sabe a China e a Timor

                         Oriental.

                         Tem a cor mesclada da pele

                         Declina todas as estações do Tempo

                         É Sul a agarrar no Norte

                         É Norte a Sul do Tempo.»

 

Na sacralização da língua através da sua irradiação pelo mundo, o que é legítimo, tem muito de humanismo que me faz lembrar de novo Eduardo Lourenço no seu belíssimo texto «Imagem e Miragem da Lusofonia» em que afirma:

   «É certo que todo o patriotismo, o mais legítimo, comporta uma parte de adesão irracional à nação que é anterior a nós e nos define antes que nós a definamos. De uma nação faz parte a diferença que a constitui como tal em relação a outras. A perversão consiste em outorgar ao amor ou à perpetuação dessa diferença um estatuto mítico que a estabelece numa espécie de exemplaridade ou modelo de que o outro, todos os outros, povos ou nações não seriam mais do que imperfeitos ou lamentáveis esboços.»

   E Eduardo Lourenço prossegue:

   «… é no espaço naturalmente universal de uma língua que cada um tem a mais alta e a única maneira aceitável de ter pátria, (…) lugar onde a particularidade de um povo se simboliza e vive espontaneamente no universal.» 

   É, assim, com esta mesma visão defendida por Eduardo Lourenço que Cristina Semblano invoca os grandes escritores latinos, portugueses e do espaço lusófono Camões, Virgílio, Mia Couto (Moçambique), Teobaldo Virgínio (Cabo Verde), Vinícius de Morais (Brasil), António Gedeão (Portugal).

          

                            «Há sempre alguém que resiste

                              Há sempre alguém que diz não»

 

   Na mesma perspectiva, o poema «Mestiço» une povos e raças num acto de amor, onde o erotismo sublima a união dos corpos e das almas.

   Este sentimento de solidariedade entre os povos alarga-se, saindo do âmbito da Lusofonia, para se deter nas grandes causas de hoje, como a causa palestina no seu poema «Les enfants et les pierres». A poeta alerta que mal caiu o muro de Berlim e o apartheid acabou, logo a seguir, surgiu um outro muro: o da Cisjordânia.

 

                           «Rappelle-toi

                             a peine le mur de Berlin tombé

                             L’apartheid fini

                             Qu’un autre mur se lève déjà

                             Ailleurs

                             En Cisjordanie.»  

 

   Cristina Semblano na sua visão esclarecida sobre a história da humanidade refugia-se no amor e os seus poemas erotizam-se num lirismo sensual e profundo, eivado de simbolismos.

   E se os poemas em língua portuguesa têm uma grande harmonia e musicalidade, igualmente os poemas em língua francesa lembram Jacques Prévert ou Queneau, no ritmo, na clareza do verso, nos jogos de palavras e repetições da palavra-chave, nos temas do quotidiano, concretos, narrativos, mas de um forte lirismo e sonoridade.

   Deste modo, o leitor francês está de parabéns porque pode incluir na sua literatura uma escritora luso-francesa de grande qualidade.

   O mesmo poderemos dizer dos poemas portugueses cantados com toda a sua alma lusitana, celebrando o Eu português no seu regionalismo e universalismo, mas fazendo a simbiose da alma dos dois países, como dois grandes amores que coabitam no mesmo coração. ( «S’il y avait un pays…»  p. 51).

                                                                           

                                                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos