Mariano Deidda canta Pessoa
Teatro Nacional D. Maria II
Concerto de 31 de Janeiro - 2 de Fevereiro de 2008
Hoje não falarei, como habitualmente, de um livro, mas de um concerto muito especial.
Falarei de música, de Pessoa, da nossa portugalidade, do olhar de um estrangeiro sobre o nosso universo mais íntimo
Falarei de Mariano Deidda.
Falarei ainda da jovem e talentosa pianista Sílvia Cucchi. De Luca Zanetti, que extrai do acordeão as notas mais inesperadas, transformando-as em sons de órgão ou de tambor ou abrindo-se em orquestra de múltiplas sonoridades. Do contrabaixo Saverio Mielo, contracenando ora com o piano, ora com o clarinete, ora com o acordeão, emprestando-lhes a gravidade necessária do jazz clássico. Falarei também de Diego Mascherpa, clarinete ou saxofone soprano, vibrando soberbamente nessa viagem admirável pela poesia de Pessoa e pela música concebida pelo próprio Mariano Deidda e por Nino La Piana.
Mariano Deidda agiganta-se em palco, impondo-se por uma simplicidade que traduz reflexão, cultura, talento e genialidade.
Na verdade, ele é um cantautor italiano que revolucionou a música de autor, interiorizando-a e indo ao encontro do espírito do poeta, neste caso de Fernando Pessoa, e igualmente da sentimentalidade de um povo, concretamente o português. Há vários anos que a sua obra musical está intimamente ligada aos nomes mais importantes da literatura universal (Pirandello, Dagerman, Goethe, Pavese, Saramago e Fernando Pessoa).
Em 2001, publica o primeiro CD, intitulado «Deidda interpreta Pessoa». Em 2003, edita o segundo trabalho dedicado a Fernando Pessoa, «No meu espaço interior». Em 2005, conclui a trilogia com «A incapacidade de pensar», considerado esse trabalho, entre oito de grande qualidade, como o melhor do ano (La Stampa, 20 de Dezembro de 2005).
A sua selecção de poemas, traduzidos para italiano pelo escritor, seu compatriota, também ele lusófono de coração, António Tabucci, e a música que criou para os acompanhar, transformam Deidda não só num músico de grande qualidade, mas igualmente num poeta e num notável conhecedor da poesia de Pessoa.
Seleccionou poemas da Mensagem, iniciando com «Dona Tareja», recuando a um momento fundador da nossa nacionalidade:
«As nações todas são mistérios,
cada uma é todo o mundo a sós.
Ò mãe de reis e avós de impérios,
Vela por nós»
Segue-se-lhe «Dom Dinis», o rei poeta que
«na noite escreve um seu cantar de amigo
o plantador de naus a haver
e ouve um silêncio múrmuro consigo:
e o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.»
Evocando a epopeia marítima dos portugueses, Deidda lembra o célebre poema «Mar português»:
«Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu.
Mas nele espelhou o céu.»
Para o homem do mar, da epopeia marítima, mesmo para o mais afoito, há sempre um momento de terrível silêncio, de solidão, de medo, de fraqueza, perante a escuridão do mar imenso. Então ele murmura uma «Prece»:
Senhor, a noite veio e a alma é vil
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade:
Mariano Deidda vai depois em busca da interioridade do poeta que confessa:
Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento
Minha alma não tem alma
Ou ainda:
Nada sou, nada posso, nada sigo.
(…) sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.
Viajando pela heteronímia de Pessoa, Mariano Deidda encontra-se com Ricardo Reis, o médico culto, conhecedor da cultura clássica e seguindo-a no estilo da sua poética. Sonhando com Lídia, desabafa o poeta as amarguras do seu pobre coração:
Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.
(…) Meus dias, mas que um passe e outro passe
ficando eu sempre quase o mesmo, indo
para a velhice como um dia entra
no anoitecer.
E porque, como dizia Fernando Pessoa, «afinal a melhor maneira de viajar é sentir», Mariano Deidda, apaixonado por Lisboa, procura em Álvaro de Campos, o mesmo olhar, a mesma cumplicidade. Assim, entoa uma «Canção para Lisboa», com estrofes de «Lisbon Revisited»:
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver.
Os pombos de Lisboa, nos beirais dos telhados, são recordados ao som do esvoaçar do acordeão, do clarinete e dos acordes do piano com letra do poema «Os pombos».
Deidda viajara também por Beirute, assistindo ao drama do povo palestino, como do libanês. Aí cantara-lhes o poema «Irmão de todos» «mesmo que não pertença à família». Belo poema de solidariedade, que foi traduzido para árabe, servindo essa tradução de pano de fundo, em projecção no écran, aproveitando esteticamente a beleza dos caracteres árabes.
O amor por Ofélia também não é esquecido, musicando duas das mais belas cartas de Fernando, o seu inho inho, à sua pequena bebé. Cartas aparentemente pueris, ou como o próprio Pessoa diria, ridículas («Todas as cartas de amor são ridículas»), mas, na realidade, exprimindo a ternura, as incongruências do próprio amor e de um carácter difícil como o do poeta, como ainda revelando momentos dramáticos da sua vida.
Deida imprime às canções essa leveza e puerilidade num lindíssimo momento musical.
Com «A eterna calma de Deus» encerraria o sarau, mas o público, aplaudindo sem parar os virtuosos músicos, obrigou-os a voltarem ao palco. Mariano Deidda ofereceu, então, um último poema e, desta vez, de um outro grande poeta, David Mourão-Ferreira, «Os cafés de Lisboa», acompanhado ao som de uma surpreendente valsa jazz, criando a ambiência própria do afã quotidiano dos cafés citadinos ou da boémia nocturna lisboeta.
Mariano Deidda voltou a Lisboa, depois de vários espectáculos já aqui, em anos anteriores, realizados, para de novo nos encantar e nos emocionar. O público correspondeu-lhe, aplaudindo-o entusiasticamente, a ele e aos restantes músicos, gritando alguns «obrigados», sentindo-se gratificado por este grande artista italiano apreciar a sua cultura e a divulgar com tanto talento e arte, aliando o canto, a extraordinária música de sua autoria, com intérpretes de elevado mérito, à interiorização da poesia de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa e universal, Fernando Pessoa.
Elsa Rodrigues dos Santos
Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa
(Crónica para ser lida aos microfones da RDP
Internacional, no Programa «Fantástica Aventura»)