Eduardo Prado Coelho

 

 

Eduardo Prado Coelho morreu no passado dia 25 de Agosto, deste ano de 2007, apenas com 63 anos, vítima de uma paragem cardíaca em consequência de um longo sofrimento, devido a uma grave doença que o levou a uma intervenção de transplante do fígado. Recuperara, porém, e retomara já a sua vida normal, nada fazendo prever este desfecho prematuro.

            Eduardo Prado Coelho, filho do prestigiado Professor Jacinto do Prado Coelho, nasceu entre livros e com eles se familiarizou desde criança. Por isso, cedo se revelou nas letras. Com 15 anos já colaborava na Imprensa, primeiro no Diário de Lisboa Juvenil, mais tarde na Vértice e na Seara Nova. Nos anos 60, começou a fazer, de forma regular, crítica literária e de cinema, no Diário de Lisboa.

            Na Faculdade de Letras, no Curso de Românicas, onde seu pai era Professor Catedrático, foi sempre um aluno brilhante e interveniente. Quando se licenciou e foi convidado para Assistente da Faculdade, a PIDE deu-lhe uma informação negativa. Seu pai foi aconselhado a mandá-lo para fora do país e, assim, Eduardo Prado Coelho seguiu para Aix-en-Provence em cuja Universidade ensinou Português, durante um ano, como leitor. Com a morte de Salazar e no governo de Marcelo Caetano, Eduardo Prado Coelho volta para Portugal, regressando à Faculdade de Letras de Lisboa, onde se doutorou, com a Tese Os Universos da Crítica. Paradigmas nos Estudos Literários (publicado em 1983).

            Antes, porém, era já conhecido pelo seu entusiasmo pelo estruturalismo e pelos livros que ia publicando:

            Estruturalismo (antologia, 1968)

            O Reino Flutuante (1972)

            A Palavra Sobre a Palavra (1972)

            Hipóteses de Abril (1975)

            Poesia mais Prosa I (com Maria Alzira Seixo, 1975)

            A Crise da Revolução (com Eduardo Lourenço e César de Oliveira, 1976)

            Prosa Mais Prosa II (com Maria Alzira Seixo, 1978)

            A Letra Litoral (1978)

            O cinema foi também um dos seus pólos de atracção, publicando em 83, Vinte Anos do Cinema Português. Seguem-se outros livros por ordem cronológica:

            A Mecânica dos Fluídos (1984)

            A Noite do Mundo (1988)

            Tudo o que não escrevi – Diário (1992)

            Tudo o que não escrevi – Diário II (1994)

            O Círculo das Sombras (1997)

            A Escala do Olhar (2003)

            Crónicas no Fio do Horizonte (2004)

            Situação de Infinito (2004)

            O Fio da Modernidade (2004)

            Diálogos Sobre a Fé (com D. José Policarpo, 2004)

            A Razão do Azul (2004)

            Dia por Ama (com Ana Calhau, s/d)

e finalmente, em 2006, Nacional e Transmissível que, tal como Nuno Judíce afirmou no Jornal de Letras (Edição especial de 29 de Agosto-11 de Setembro de 1007) é uma espécie de testamento e cito: “Começo a lê-lo como um testamento, à maneira de testemunho e auto-retrato, onde a dimensão criativa ganha já uma presença que poderia supor continuações para uma ficção que imagino que se desenvolveria nessa direcção autobiográfica”.

            Colaborador desde muito cedo de diversos jornais e revistas, foi articulista ou colunista, durante muitos anos de O Jornal como ainda desde o início do Jornal de Letras, e depois do Expresso e, a partir de 1998, logo que foi criado o Público, participou desde o seu primeiro número, como cronista e crítico literário, assinando a coluna diária (cinco dias por semana) O Fio do Horizonte.

            Teve vários cargos, no âmbito cultural.

            Foi nomeado em 89, Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Paris, onde permaneceu até 98 e, nessa cidade, director do Instituto Camões, de 97 a 98.

            Antes, porém, em 75-76, foi nomeado director-geral da Acção Cultural.

            Como docente, depois de ter sido Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, foi Assistente da Sorbonne no Departamento dos Estudos Ibéricos. E no regresso definitivo a Portugal, ingressou como professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se aposentado quando fez 60 anos de idade, isto é, há cerca de três anos, em 2004.

            Foi nomeado como Comissário da Europália, em 94, e do Salon du Livre de Paris (2000), e membro do Conselho Directivo do Centro Cultural de Belém (CCB) e do Conselho Superior de Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM) e dos Conselhos de Opinião da RTP e da RDP. Participou em vários programas da rádio e da televisão, ficando célebre a sua ida ao programa “Na cama... com Alexandra Lencastre”.

            Foi premiado pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) com o Grande Prémio APE da Literatura Autobiográfica e pela Sociedade da Língua Portuguesa com o Prémio da Crónica João Carreira Bom / SLP, em 2003.

            O júri, constituído por Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Dacosta, a Jornalista Maria José Mauperrin (viúva de Carreira Bom), por mim, Elsa Rodrigues dos Santos, na qualidade de Presidente da SLP, e por José Manuel Matias (Vice-Presidente da SLP) e por José Gabriel Viegas (representante da Vodafone, empresa patrocinadora) decidiu por unanimidade atribuir-lhe o prémio, tendo pesado o seu perfil de homem de cultura, com uma obra representativa, sobretudo no ensaio literário, mas fundamentalmente pela regularidade das suas crónicas nas páginas do Público, desde 1998, assinando a coluna O Fio do Horizonte. Nestas, embora, ideologicamente, não oferecessem um consenso geral a todos os quadrantes políticos da sociedade portuguesa, elas, no entanto, mereciam o respeito pela excelência da escrita e pela reflexão sobre variadíssimos aspectos da “res publica” da nossa terra e do mundo que nos rodeia.

            Eduardo Prado Coelho, um homem apaixonado pelos livros como pela vida, sempre inquieto e irrequieto, viveu a política da mesma forma, transitando do Partido Comunista, para onde entrara, em 75, para o Partido Socialista, em 76, tendo sido apoiante do PRD, de Ramalho Eanes, nas eleições presidenciais, como mais tarde, na 1ª. volta de Maria de Lurdes Pintassilgo. Em 2001, nas autárquicas apoia o Bloco de Esquerda e, em 2006, nas presidenciais, está na candidatura de Manuel Alegre.

            Essa volubilidade nos seus critérios políticos granjeou-lhe uma nota negativa na visão de certos sectores do público português que não aceitavam que um homem com a sua envergadura cultural pudesse ter tido tantas dúvidas e critérios tão díspares e mudanças tão radicais em curtos espaços de tempo.

            Por isso, o poeta Nuno Júdice, seu companheiro, de muitas lides literárias, o quis ver, nessa irrequietude, como um poeta da utopia e na carta “post mortem” que lhe escreveu, afirma:

            “Espero que aceites que te veja como um poeta, no optimismo que sempre marcou a tua relação com a vida, no sonho e na utopia que nunca te abandonaram, e no valor dos afectos e das paixões que ainda trazem alguma luz à “noite do mundo”.

            Se estas palavras são uma forma de tentar compreendê-lo, não sabemos. Assim o cremos interpretar e desejar que, lá, no insondável da eternidade, possa encontrar a Utopia com que sempre sonhou.

 

                                                                                                                                                                     Elsa Rodrigues dos Santos