Eugénio Tavares
(18/10/1867 a 1/06/1930)
Eugénio Tavares, escritor cabo-verdiano, natural da Ilha da Brava, que se revelou nos finais do sec. XIX e princípios do sec. XX, pugnou pela autenticidade da cultura cabo-verdiana e pela valorização do crioulo. Na Revista «Manduco», dirigida por Pedro Cardoso, que comungava igualmente dos seus ideais, ambos se pronunciaram contra a escravatura já abolida, mas ainda praticada por muitos negreiros, e lançaram-se polemicamente na defesa do crioulo.
Eugénio Tavares, no seu livro Poesias, reflecte sobre o quotidiano cabo-verdiano, concretamente da Ilha da Brava dos finais do sec. XX e aborda temas sociais, pondo em evidência as arbitrariedades do poder, as intrigas na sociedade bravense e o conservadorismo de certas elites.
No seu livro Mornas, expressa sobretudo o amor, da forma mais bela e romântica, sobretudo nos poemas que viriam a ser musicados. Os versos não estão espartilhados pela métrica tradicional, mas antes se libertam ao ritmo e à musicalidade.
Ele não foi, portanto, apenas um poeta que cantou o amor apaixonadamente, como era próprio da sua índole, mas preocupou-se com os problemas sociais, expressando sentimentos de solidariedade para com os que sofrem, como o exilado, contra a repressão, a mentira e as injustiças de que ele próprio foi vítima na luta pela verdade, incentivando os homens à revolução («Revolução ou morte! Eis o nosso dever») ou invectivando os corruptos e venais («Ei-los! Os impudentes, os venais, / os que venderam a alma impenitente!»).
Escreve ainda Contos, nos quais o homem cabo-verdiano é o centro do seu universo imagético.
O seu teatro, de que se fala tão pouco, talvez por falta de documentação, é muito importante como sátira de costumes contra os poderes instituídos da monarquia e do clero e os desmandos das classes privilegiadas. Em A Peçonha, Eugénio Tavares procura realçar o contraste entre a fome do povo e a abundância dos ricos, levando os pobres a rejeitar as míseras esmolas que lhes eram dadas, por pura exibição, sem terem em conta a sua dignidade.
Silvano - O desgraçado
Cheio de filhos com fome,
Num sofrimento sem nome,
Quando é honrado e altivo
E não digere, passivo,
Insulto e bofetadas
Não é digno de dentadas
Desse amargo e negro pão
Que os «caridosos» lhe dão.
(In A Peçonha)
Há nesta obra igualmente uma esperança de que a República poderá salvar a situação económica e social das ilhas, simplesmente ainda é uma luz que se vislumbra ao longe.
Ideia que será mais evidenciada na peça Filhos que traem e filhos que salvam, em que o Albatroz simboliza o povo e Catarina, a República.
Num discurso veemente e agressivo, o autor denuncia os crimes da monarquia, levantando a sua voz em favor do regime republicano, como forma de salvação do povo.
Em Ceia da Parelha, o autor satiriza
ferozmente o clero, com os seus vícios da gula e do álcool.
Mas Eugénio Tavares não se evidenciou apenas como poeta, contista e dramaturgo, mas igualmente como jornalista.
Félix Monteiro organizou em 1997 um livro a que intitulou Eugénio Tavares pelos jornais, em que divulga muitos dos seus artigos mais importantes que nos elucidam sobre o seu carácter e as suas convicções sociais e políticas.
Tendo sido
obrigado a emigrar para os Estados Unidos, fugindo às perseguições políticas,
que já o tinham levado à prisão com argumentos falsos, fundou
Com apenas 15 anos, em 1883, estreou-se no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. Mais tarde, em 1897, publicou em Das Ilhas e em A Marselhesa.
Nesse mesmo
ano, correspondendo-se com o jornal Das
Ilhas, pronuncia-se contra os governos das colónias por militares ou,
noutro jornal, refere a sobranceria dos ingleses
Pelo seu desassombro e pela sua escrita correcta e corajosa, Eugénio Tavares foi considerado, na sua época, um dos maiores jornalistas do espaço ilhéu.
Elsa
Rodrigues dos Santos