Fernando Dacosta
Os Infiéis
Por Elsa Rodrigues dos Santos
Pelos títulos e referências à sua obra, verificamos que Fernando Dacosta, como escritor, nunca se distanciou de Portugal.
Patrick Durrer, investigador literário suíço, defendeu uma tese a que intitula Fernando Dacosta- Um navegante pelo cosmo português.
Deste modo, em Máscaras de Salazar faz uma surpreendente viagem ao Portugal do Estado Novo com depoimentos inéditos de Salazar e de D. Maria, revelando-nos as pequenas minudências da sua vida, mas que caracterizam o seu perfil de homem e de estadista. Um Portugal que se ia desfazendo aos poucos pela asfixia e pela repressão e que Fernando Dacosta faz ressuscitar no seu dia-a-dia, nos cafés onde se conspirava baixinho sob o olhar e os ouvidos dos pides, misturados entre a multidão, as prisões, a rádio, o teatro de revista, o cinema português, e igualmente fazendo desfilar aos nossos olhos figuras que marcaram a época salazarista como António Ferro, Cerejeira, Alfredo da Silva, Franco Nogueira, Fernanda de Castro; Américo Thomaz. Almada Negreiros, invectivando Júlio Dantas, e a voz dos modernistas, como, mais tarde, o Grupo dos Surrealistas e dos Neo-realistas, sempre sob o olhar vigilante da polícia secreta.
E é esta mesma polícia secreta que empreenderá prisões indiscriminadamente, procurando cortar a cabeça da cultura portuguesa, pelo afastamento dos intelectuais mais conceituados, que se opunham ao regime, privando professores de ensinar nos Liceus e Universidades, de jornalistas e de escritores de se fazerem ouvir nos jornais e nas suas publicações, como igualmente militares, diplomatas de expressarem as suas opiniões. Por toda a função pública, e mesmo em outros sectores, a iniquidade das prisões e expulsões.
Fernando Dacosta, numa escrita envolvente, dá-nos conta dessa ditadura que tinha inevitavelmente os seus dias contados e que, à imagem de Salazar, acaba por cair, não da cadeira abaixo, mas por uma revolução que devolvia ao país a sua dignidade.
Também o romance O Viúvo é, como diz Mello e Castro, «uma grande metáfora sobre a vida portuguesa contemporânea», remetendo o Portugal rural para a capital, donde são emanadas as leis e a ordem, o passado para o presente ou, profeticamente, para um futuro ensombrado e assombrado pelos fantasmas do passado. A vida, a morte, os espíritos, os mitos são os ingredientes deste romance que institui no próprio título, o Viúvo, a marca de uma perda, metaforicamente representada pelo país que vê desmoronar o império colonial.
E quem não se lembra da peça de teatro Um Jipe em segunda mão? Sobre a problemática da guerra colonial, obteve vários prémios da crítica e mereceu palavras como as de Amélia Rey Colaço: «Esta peça é uma obra prima do moderno teatro português;
Ou de Gutkin, o conhecido encenador argentino:
«É uma peça que assusta. Assusta porque é profunda, e porque é profunda é bela. É transcendente, humana, terrível.»
E ainda da Prof. búlgara Snezhina Panova: «Um Jipe em segunda mão é um apelo apaixonado contra a guerra».
Os Infiéis:
Também é como navegante que o autor se assume em Os Infiéis. Numa breve análise a este livro encontramos, como tema fundamental, a viagem, núcleo irradiador para outros sub-temas e motivos fundamentais, isto é, as «representações colectivas» (na designação de Lévy Bruhl), as pequenas unidades significativas que se repetem ora como situação, ora como palavra.
O tema fundador, a viagem, (realizada ou imaginada) é a transição no plano mental que permite ao escritor deambular entre o real e o mítico, realizando a fuga para o onírico, sem nunca perder a consciência do real, num contraponto entre a dimensão estética e ética, pondo em relevo a função social da literatura.
Vários críticos destacam uma característica barroca nesta obra, pela profusão de elementos do sobrenatural. Na verdade, o barroco é uma porta aberta para a libertação do escritor, quer ao nível da forma, quer ao nível do conteúdo. Mas eu preferia dizer deste romance que é antes surrealizante com tonalidades barrocas.
Surrealizante, porque, no âmbito dos conteúdos, funciona através de uma série de associações, misturando discursos, tendo sempre o tempo como coordenada fundamental.
Transpõe a linha do real para uma dimensão transcendente, numa simbiose perfeita do presente histórico com o passado e, sibilinamente, com o futuro.
Deste modo, tal como numa epopeia, procede ao entrosamento entre o plano da viagem, o plano histórico e o plano do maravilhoso, com os seus elementos míticos, místicos e encantatórios.
O livro inicia-se com uma viagem no alto do mar. («No grande navio apenas se ouviam os rangidos dos madeiros e os silvos da água»). A acção localiza-se na confluência de três oceanos- o Atlântico ao centro, o Índico a este, o Pacífico a nascente, no entanto, era inlocalizável nos mapas. Logo, temos aqui o primeiro elemento de estranheza, apontando-nos, à partida, para uma narrativa do fantástico.
A personagem que se encontra a bordo do navio é Mestre Dias, cronista de naus, autor de comédias e autos. No Teatro do Bairro Alto «o seu nome chegara a ser popular». O que o movera a fazer-se ao mar, para ser escrivão de viagens, «fora para fugir ao embrutecimento do trabalho, à embriaguês das solicitações, à ameaça dos inquisidores».
«Algo de muito estranho iria suceder», pressentiu Mestre Dias e, de facto, ele percebia «que os boatos sobre a existência de aparelhos misteriosos e de missões secretas ganhavam sentido.
No navio viajavam também, para além de muitos outros passageiros, Galena, uma mulher com surpreendentes poderes de medicina; Bérrio, um soldado que combatia por conta própria e Gabriel, um jovem, presumivelmente de alta linhagem, de cabelos loiros, faces desmaiadas, que tocava alaúde pala noite dentro. O comandante mandara chamar os quatro, dizendo-lhes que se iam passar coisas muito graves. Pelos seus cálculos, aproximava-se um ciclone terrível e o barco não ia resistir. O comandante explica que, havia vinte anos, que cientistas e técnicos trabalhavam num grande projecto em segredo. Tinham construído uma esfera, onde só cabiam cinco pessoas. Quando submergissem, a esfera desprender-se-ia por efeito da pressão. Fora construída de ligas metálicas especiais.
O comandante escolhera-os criteriosamente para participarem dessa terrível experiência que iria pôr à prova o poder da esfera. Mestre Dias, como cronista, faria o relato de tudo o que se iria passar; a Galena caberia cuidar de todos pelos conhecimentos de medicina; Bérrio teria a seu cargo os engenhos; o comandante, conhecedor da máquina, dirigi-la-ia.
Quanto a Gabriel, com o mesmo nome do anjo Gabriel, mensageiro e iniciador, teria uma missão diferente, que permanece misteriosa até podermos compreendê-la, pelo decorrer da acção.
As outras pessoas que se encontravam a bordo iriam desaparecer. Assim estava tudo preparado e determinado. Eles iam ao encontro da tempestade, em vez de se desviarem, para testarem a esfera. «Submergir é um sonho antigo, como voar. Há milénios que pescadores de pérolas no Oriente, mergulham com canas de bambu na boca», diz o Comandante, explicando que o Grande Almirante, em Salamanca, o mandara chamar, tendo tomado conhecimento das suas experiências e estudos sobre as leis de pressão, convidando-o a trabalhar com ele, porque pretendia recuperar o espírito inicial dos descobrimentos. Em nome desse sonho sacrificavam-se todos os passageiros que vinham a bordo, excepto os eleitos, mas também esses, escolhidos por interesses e conveniências, enunciando-se uma doutrina política de puro utilitarismo.
Cada um dos cinco narra episódios da sua vida. Bérrio conta que, em pequeno, levava as ovelhas a pastar. Um dia, já mancebo, os arregimentadores que arrebanhavam os jovens para a guerra, levaram-no também e, daí em diante, vivera entre guerras e mares, percorrendo toda a costa de África e do Brasil. Tivera a oportunidade de conhecer o Grande Almirante, que o convidou para esta expedição.
São evocados naufrágios, tempestades, dramas a bordo dos navios em que se deitavam pela borda fora das baleeiras, pessoas, como carga excedente, na ânsia de se salvarem. Enfim, a história trágico-marítima feita de naufrágios, pânicos e morte. A acrescentar a estes horrores no mar, a Santa Inquisição, em terra, com as suas arbitrariedades, crimes e torturas.
Galena recordava que tinha sido vítima desse Tribunal, pois tinham-na prendido por julgar que ela adivinhava fenómenos antes de se darem. Também a mãe e um irmão tinham sido condenados à morte pelo fogo. Ela lembrava-se desse dia terrível no Rossio, hábitos brancos, cruzes negras. A mãe, condenada por feitiçaria, o filho por práticas nefandas. O costume das acusações.
Aspectos da vida do enigmático Gabriel são revelados. Dizia-se que Gabriel era filho de um nobre. No entanto, fora criado modestamente no paço como moço de estrebaria.
D. Sebastião, ainda príncipe, simpatizara com ele e tomara-o como pajem. Ambos adoravam cavalos e cavalgavam durante horas. O príncipe falava-lhe incessantemente dos seus projectos de alargar o reino, pela África do Norte, combatendo os mouros. Aventura essa que era repudiada pelos seus conselheiros. D. Sebastião fazia-o jurar que ele o acompanharia nessa grande batalha tão almejada por si. «O seu sonho levara-o a afastar-se de todos os que não acreditavam nele. Odiava a corte, o estado, a família, por fim, o povo. As multidões amaldiçoavam-no. Muitos ansiavam que o trono passasse para o domínio de Castela. (…) De noite ouviam-se defronte do palácio vozes desconhecidas a insultá-lo. Uma delas era a do fantasma de D. Afonso Henriques, diziam»
Descortina-se uma relação andrógina entre os dois. Gabriel guardava dentro de si as palavras e a visão da noite anterior à batalha:
«Em Alcácer, na última noite, disse-me:
- Toma-me, amanhã estarei morto, assim é preciso. O seu corpo foi-se dissolvendo no meu até ele ser eu.», como se o seu corpo fosse dissolvendo no próprio corpo de Portugal, através de um perpétuo sebastianismo.
«Após a sua morte», diz o autor, «Portugal adormeceu para despertar, não ao terceiro dia, não passados sessenta anos, mas só depois de se despojar dos impérios territoriais –que a sua missão não é tê-los».
Confronta-se, assim, o passado histórico de finais do sec. XVI com o passado recente de Portugal, numa crítica implícita ao imperialismo colonial.
«O declínio começou quando os monarcas se assumiram absolutistas, quando as razões de Estado passaram a dominar, por elas foi morta D. Inês e abandonado
D. Fernando, quando a religião de Roma se sobrepôs à do Santo Espírito.»
A nível da narração, a hora da tempestade e do grande momento de se testar a esfera aproximava-se. Mestre Dias pensa que a única maneira de se libertar da realidade, da esfera e da viagem era ficcioná-la, escrevê-la. E é a voz do autor que se ouve, dizendo:
«A palavra revela-se mais consistente do que a pedra, do que o metal, um povo só atinge a maturidade quando se reinventa, se reafirma pela escrita – só se faz acto o que se faz palavra, o que se faz primeiro pensamento, desejo e fracasso».
E a sua voz continua:
«A primeira coisa que projectou Portugal no exterior não foi de natureza guerreira nem comercial, nem política. Foi de natureza literária, foram as cantigas de amigo, as trovas de cavalaria. A escrita e a navegação, formas superiores de conhecimento, fizeram-nos universais.»
A crítica aos governantes prossegue numa associação subtil com o presente:
«Os governantes desinteressaram-se, porém, delas. Deixaram perecer os criadores, desmantelar os navios. (…) O comprazimento em sufocar as nossas pulsões, as nossas obras, preterindo-as às estranhas, é assustador.
Da mesma forma, ao referir-se à degradação de valores, instituída pelo fogo da Inquisição, o autor faz a análise da situação do país da época de então, denunciando a teoria do poder que está subjacente em todos os regimes totalitários, com base na instauração do medo.
«Anéis de decrepitude cingiam o reino por dentro e por fora, pela alma e pelo corpo, o império fazia-se abismo de vidas, de ódios, a maldade, a inveja paralisavam, apodreciam tudo.» E continua: «As últimas notícias davam a independência em perigo, o país tomado pelos políticos, pelos militares, pela economia, pelas ideias, pelos negócios dos de fora, os poderosos de fora a comprarem-nos tudo, casas, empresas, herdades, engenhos, inventos, forma outra mais terrível, porque mais invisível, de dominar.»
E são estas considerações sobre os governos ditatoriais, o papel da cultura e das religiões e o seu confronto com o poder, que se assumem como unidades significativas, uma espécie de leit motiv que se repete em todas as obras e que formam a orquestra textual de cada livro.
O final desta obra é absolutamente surreal. Mestre Dias, o cronista, consegue desprender-se da esfera, como um ser demiurgo, deus, ou o princípio organizador do universo, e fica a olhar os outros naquele submergível, agora transformado em ogiva ou nave que se eleva do fundo do mar aos céus, até se perder num ponto invisível dos tempos em direcção ao futuro.
Carregada de simbolismos, esta obra de Fernando Dacosta exprime no título Os Infiéis a súmula da significação da sua escrita, isto é, a insubmissão «dos que ousavam ser infiéis ao que os outros lhes impunham, infiéis porque fiéis a si próprios, porque insubmissos», segundo palavras do autor que instauram a marca da transgressão e da insubmissão como factores essenciais não só da filosofia política como da própria função da literatura.
Fernando Dacosta, transmudando-se ora em Gabriel, mensageiro e andarilho pelo tempo, ligando épocas históricas pelo fio de Ariadne, ora em Mestre Dias, cronista de um Portugal que não encontrou ainda a sua rota, dignifica as Belas Letras por uma prosa exímia, lúcida e dramaticamente portuguesa.