«A ironia, a paródia, a memória e o picaresco
em
A Família trago de Germano Almeida»


 

                                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos

O autor inicia a obra com um narrador em 1ª pessoa do plural, isto é, um narrador autodiegético que participa na acção não só como contador de histórias, mas também como elemento representativo da própria família Trago, descrevendo o seu universo, recorrendo-se à memória dos familiares mais idosos, a fim de recriar as várias gerações duma família da ilha da Boa Vista.

Surge, assim, o retrato de Pedro Trago como uma espécie de mito necessário a preservar. Aliás, ele di-lo:

«Nós só conhecemos Pedro Trago de ouvir dizer, mas com o passar dos anos e as estórias inconcebíveis que fui ouvindo das pessoas, acabei acreditando que Venceslau tinha inventado um mito exclusivamente para a nossa devoção familiar.»

Porém, Pedro Trago, no início da obra, é descrito como uma figura com as demências da idade, «um velho desnorteado e sem tino», capaz dos maiores desaforos, metendo-se com todas as meninas que entravam na sua loja, fazendo-lhes propostas inusitadas e convites desonestos.

Por essa razão, fora considerado pela família incapaz para todo o serviço (e cito) «logo após a tarde em que Dora (a mulher) o tinha encontrado a masturbar-se diante dos olhos escancarados de uma mocinha que imprevidentemente lhe tinha entrado pela loja adentro justo na hora de fechar.»

Dora ficara de tal maneira espantada que abrira a boca tão incredulamente que já não fora mais capaz de fechá-la. Foi preciso Venceslau, seu filho e pai do narrador, chamar de urgência Muriçona que, além de matador de porcos e capador de animais, também prestava serviços de endireita e arrancador de dentes. «Este com um pequeno murro aplicado na barbela de Dora fez com que de novo voltasse a fechar a boca.»

Constata-se, assim, que o livro nasce logo nas primeiras páginas, sob o signo de uma espécie de cómico, onde se põe a ridículo as personagens e faz sorrir o leitor. Simplesmente esta espécie de cómico, por vezes, é mais corrosiva que a habitual comicidade porque se serve de atitudes que se desviam do comportamento habitual e do pudor para caracterização deste painel de uma família, onde a começar pelo ancestral Pedro Trago todos têm um ponto fraco. É exactamente esse ponto fraco que vai ser parodiado pelo autor que, à semelhança das chamadas obras lupanárias castelhanas, de que A Celestina é modelo exemplar, assume, por vezes, faceta picaresca com carácter autobiográfico e pendor para a descrição de inconveniências e velhacarias.

O pícaro, com efeito, segundo o ensaísta espanhol Samuel Gili y Gaia «é uma atitude perante a vida, mais do que um género definível pelo assunto ou por outros caracteres externos.»

Pode, deste modo, assumir várias tonalidades, desde o herói pícaro, como perpétuo vagabundo que aprende, desde a infância, que pouco se pode esperar do próximo, sendo essa a justificação moral para a sua desconfiança, até ao arrependido que, depois de muito pecar, se converte a uma religião, pressionado por uma sociedade auto-repressiva.

Neste romance, Germano Almeida constrói as suas personagens que, em meu entender, roçam as raias de um cómico picaresco «suis generis», coadunando-se com a vivência das suas ilhas e a idiossincrasia do seu povo.

Aliás, o universo cabo-verdiano, cujos factores económicos e sociais dependem de uma débil economia agro-pecuária e, no caso concreto, a Ilha da Boa Vista vivendo unicamente do comércio, tendo perdido gradualmente o seu poder económico, oferece os ingredientes necessários a este tipo de literatura, pela sua pobreza quotidiana e o perfil resignado das ilhas, onde a alma do povo se abandona a uma langorosa passividade lírica. Por outro lado, tal como diz Gabriel Mariano, a insularidade cabo-verdiana incide no comportamento «determinando aspectos predominantemente serenos – o convívio local, com a sua desconcertante familiaridade de contactos, uma especial inclinação para a serenidade repousante ou para a boémia pachorrenta».

A gente da Boa Vista que gozava no fim do século de uma auréola, fruto de uma terra que se podia considerar o centro administrativo, vai ressentir-se de geração em geração da falta de dinâmica económica.

Na verdade, o grande Pedro Trago, como é denominado pela sua envergadura física e altura descomunal, fora um próspero negociante, no princípio do século. A sua loja dava dinheiro para sustentar a família com largueza.

Com o rodar dos tempos, porém, com a velhice e depois, pela sua morte, a maior parte dos proventos desta família foi decaindo, até porque os filhos não tiveram capacidade para administrar os bens.

Estas vicissitudes assemelham-se à vida da própria ilha que, por volta de 1840, tinha, como já foi referido, uma grande importância, sendo o centro do governo e que deixou de ser porque foi substituída pela dinâmica do Porto de S. Vicente

«O comércio», como diz Germano Almeida, em entrevista ao Expresso, «não aumenta a riqueza das ilhas», embora estas vivam à sua custa. De qualquer forma, sem o fluxo da moeda estrangeira, a Ilha da Boa Vista não sobreviveria, como, por extensão, todo o arquipélago.

Com esta consciência, se desenha o romance entre o riso e o sério, o imaginado e o real.

O autor converte-se em narrador/actor, bisneto do grande Pedro Trago que, recuperando quatro gerações da família, restitui o perfil desta ilha. E fá-lo, parodiando aspectos reais desde a casa, os primeiros ardores da puberdade, o casamento, as relações paralelas, a esposa, os filhos, a velhice, a igreja e até a morte, através de pequenos acontecimentos, sendo as manifestações sexuais, as crendices, o insólito e, por vezes, o escatológico, os motivos que mais servem para conferirem o tom jocoso e pícaro a este microcosmos do universo cabo-verdiano.

Assim, começando pelo espaço, a velha casa que, durante muitos anos, não tivera sala de banho, recorrendo-se a família às latas recolhidas à noite pela carroça da Câmara, vai ser testemunha de um pequeno incidente que nos fará sorrir. Por insistência do jovem narrador, finalmente seu pai dispôs-se a mandar construir uma casa de banho. Vindo a férias, sua mãe conta-lhe que o pai acabara por fazer-lhe a vontade «desde um tropeção que ele tinha dado na lata das nov’horas e consequente queda dos dois (ele e lata) um sobre o outro, (...), provocando um desastre que o tinha posto furioso durante muitos dias.»

Adivinhe-se o resto, mas o que está implícito é sempre algo de insólito e desconcertante que alimenta o humor do autor e que transforma as personagens em pequenos heróis duma novela com laivos de cómico, movimentando-se num espaço que os aceita nessa atitude de «boémia pachorrenta» a que se referia Gabriel Mariano.

A própria narração destas estórias surge desde logo com o carácter de crónica ou memória, meio inventada, meio verídica, onde o panegírico ou o apoucamento e a anedota são fruto da imaginação, da ironia e duma atitude pícara do narrador, nomeado escriba oficial da família depois duma redacção escolar sobre o Marquês de Pombal em que revelara dotes de escritor.

Na verdade, Venceslau, seu pai, que guardava uma profunda recordação do velho avô, sempre tivera o sonho de se escreverem as memórias da família. É este bisneto, com a cabeça povoada de estórias, contadas repetidas vezes pelo pai, familiares e amigos, que vai concretizar este desejo. A figura de Pedro Trago cresce dentro dele, «como uma personagem que inventava e que só existia no seu espírito», parecendo-lhe entrever, na fotografia que havia dependurada na sala, o seu sorriso de troça, piscando-lhe o olho cúmplice. Nesta cumplicidade, o autor sente como legítimo a liberdade de inventar o que não sabe, comprazendo-se, por vezes, em pôr a ridículo certas pessoas da família, tornando-as comparsas de situações insólitas.

Assim, encontrando-se a origem paterna de Pedro Trago um tanto enevoada, o narrador inventa-lhe um pai. Este poderia ter sido o Senhor Spencer de Melo, proprietário de uma casa abastada, onde sua mãe servia, quando ainda mocinha e bela, pois, conforme refere ironicamente o autor, era hábito «o uso do direito de pernada dos proprietários sobre as suas criadinhas.»

O narrador, porém, mais romanticamente prefere imaginar um pai extremamente inteligente, mas um vagabundo alcoólico que tinha passado certo tempo na Ribeira Brava e que obtivera a alcunha de Trago «porque passava a vida a pedir às pessoas que lhe dessem de beber um trago».

Desta forma, se parodia o nome, baptizado com vinho.

Pedro Trago herda-lhe a inteligência e, das suas tendências báquicas lhe ficaria esse lado dionisíaco da vida, um tanto libidinoso, sobretudo na velhice, que transmitiria a seu filho Serafim, apesar do nome angélico que sua mãe lhe dera.

Mas Pedro Trago possuía outros dotes mais nobres. Começara muito cedo a trabalhar por necessidade e sempre revelara qualidades inegáveis de trabalho e de curiosidade intelectual. Aos dezasseis anos, conhecera o Dr. Maldonado, um médico maçónico e deportado para as terras inóspitas de Cabo Verde por não ser monárquico e ter ideias revolucionárias. Com ele aprendeu a ser ateu e republicano, recordando, frequentemente, as opiniões do Dr. Maldonado que repetia como um ensinamento:

«A igreja é apenas um imenso partido político encapotado na farsa da salvação do homem para a vida eterna.»

O Dr. Sena, também médico, maçónico e deportado para a Boa Vista, grande amigo do Dr. Maldonado e influindo igualmente no jovem Pedro Trago, referia-se do mesmo modo á Igreja, vendo os seus prelados em Portugal como aliados de Salazar: mesmo de ceroulas;

Ou a seráfica e virgem Antónia, sua mulher, que acaba por se revelar com grandes dotes para a vivência sexual, o que faz o marido inverter o papel de amante na esposa maternal;

Ou o velho Pedro Trago nas suas escapadelas lascivas;

E, na área do sagrado, o episódio da fuga do santo, isto é, da imagem de S. Roque, transferida contra a vontade do povo da Povoação Velha para a Boa Vista, desaparecida e reaparecida depois, revestindo-se de cores jocosas e burlescas.

O mesmo sucede com o tratamento da morte em que há sempre um aproveitamento cómico.

Toia, a primeira mulher de Frederico, tendo passado a desmaiar frequentemente após uma série de partos seguidos, é Nha Ninha quem a vai acudir a chamamento do marido, pois nestas ilhas não existia um único médico, mas apenas um enfermeiro incompetente. Nha Ninha, «a bruxa», como a chamavam, reanimava-a com as suas rezas e sacudidelas. O marido costumava oferecer à curandeira bolos e café com leite, antes de entrar em funções. Nesse dia, porém, chamada à pressa, já não foi capaz de fazê-la regressar à vida. O marido com voz de choro, lastimou-se: Ah, Bajija, Bajija, hoje você não mereceu a chávena de café com leite»

Para além do sorriso que esta cena faz assomar aos lábios do leitor, também tem o objectivo de pôr em realce a inexistência de infra-estruturas de saúde, sendo ainda hoje um problema não resolvido satisfatoriamente.

Todas estas personagens, pois, pelo inédito da situação e pelo prazer do cómico, provocam não repulsa mas uma boa gargalhada.

No seu conjunto, porém, o leitor poderá descobrir outras ilações mais profundas e mais sérias como a dimensão social, política e comportamental do ilhéu cabo-verdiano isolado e deixado ao abandono durante décadas e séculos na sua insularidade e pobreza.

A Família Trago de Germano Almeida constitui-se como ponto de encontro dos temas paradigmáticos da literatura cabo-verdiana.

Ergue-se a arquitectura do discurso narrativo desenvolvido através de anacronias, nomeadamente analepses, recuos a um passado finissecular e de princípio do século, esclarecedor da verdadeira história do arquipélago na mundividência ilhena.

Os dados sociais e políticos são tratados com uma grande seriedade, embora com a mesma irreverência com que parodia outros aspectos.

Evidencia-se a modernidade do romance pela via da memória, da ironia e da anedota, sendo explorada uma das facetas da alma cabo-verdiana, onde o picaresco se assume como forma de resistência ou como comportamento compensatório da insularidade e de factores climáticos inibidores.

Bibliografia

Do autor:

ALMEIDA, Germano, A Família Trago, Lisboa, Editorial Caminho, 1998.

ALMEIDA, Germano, «Temo pelo futuro do meu país», Entrevista de António Loja Neves, in Expresso, 12 de Setembro, 1998.

Bibliografia geral:

GAYA, Gili Y, Guzman de Alfarache, Int. p. 8, Madrid, 1962.

MARGARIDO, Alfredo, «O arquipélago de Cabo Verde e as ilhas atlântidas» in Cabo Verde, nº127, Abril, 1960, pp. 28-30.

MARIANO, Gabriel, «Inquietude e serenidade – Aspectos da insularidade na poesia de Cabo Verde», in Estudos Ultramarinos, nº3, 1959, pp. 55-79.

PALMA-FERREIRA, João, Do Pícaro na Literatura Portuguesa, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, col. Biblioteca Breve, 1ª edição, 1981.

PAIVA, Maria Helena de Novais, Contribuição para uma Estilística da Ironia, Lisboa, Publicações do Centro de Estudos Filológicos, 1961.