(romance)
Lisboa, Editorial Caminho, 2004
Em 2004, foi publicado o romance O Mar na Laginha de Germano Almeida, um dos grandes escritores cabo-verdianos da actualidade que já nos habituou a oferecer uma obra quase todos os anos.
Desde O Testamento do Sr. Napunocemo da Silva Araújo, que foi adaptado a cinema com grande êxito, passando por títulos como O Meu Poeta, A Ilha Fantástica, Os Dois Irmãos, Estórias de Dentro de Casa, A Família Trago, Dona Pina e os Camaradas de Abril, Dia das Calças Roladas, As Memórias de Um Espírito, até O Mar na Laginha, Germano Almeida vai diversificando os temas, não perdendo, contudo, as características que lhe são inerentes. Em primeiro lugar, a ironia que se reveste dos condimentos da sátira, da anedota e da paródia. Em segundo lugar, a arte de bem contar, onde o universo cabo-verdiano, quer da Ilha da Boa Vista, quer da cidade do Mindelo, da Ilha de São Vicente, quer da cidade da Praia (Santiago) emerge do seu quotidiano, nas realidades mais comezinhas, procurando o escritor captar o espírito do seu povo, na sua dramaticidade, mas igualmente no seu lado dionisíaco, compensando através do sexo, do grogue, do convívio pachorrento e da boémia nocturna uma vida de trabalho e de privações.
É o que se vai encontrar em O Mar na Laginha em que à primeira vista se julga estar perante uma obra que tem o acento tónico no sexo e no culto da paródia e da galhofa. Mas o que está por detrás disso é exactamente o drama do ilhéu cabo-verdiano que ainda não viu is problemas da sobrevivência resolvidos.
Assim, o lado epicurista da vida, isto é, o culto pelo prazer, surge como forma de ultrapassar a sua situação.
A Literatura cabo-verdiana sobretudo com Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Baltazar Lopes, Gabriel Mariano e, sobretudo António Aurélio Gonçalves, nas suas notáveis novelas, foi marcada pelo drama da fome que leva as raparigas a prostituírem-se muito cedo ou os homens a emigrarem.
Germano Almeida procura, principalmente neste romance, desdramatizar essa situação.
É, no fundo, uma forma pícara de apresentar a prostituição quer interna, quer para o exterior, ou a primeira entrega da rapariguita que o faz numa idade em que está a despertar para o sexo, a maior parte das vezes com um homem muito mais velho que a seduz com prendas, e ela oferece-se sem preconceitos, apenas pelo prazer e pela curiosidade do acto.
A praia da Laginha em S. Vicente é o espaço marítimo, onde as histórias de recortes da vida quotidiana (as traições conjugais, amores e desamores, a luta pelo ganha-pão da vendedeira de balaio, etc.) são narradas entre um grupo de amigos que aí se encontram todos os dias pelas 6 horas da manhã para o seu banho matinal, ou vividas por personagens que na areia da praia rolam corpos, raivas e sonhos ou em gritos abafados de amor comprado ou dado.
A ironia, a sátira, a paródia e o humor estão presentes, fazendo deste livro um hino à boa disposição, tratando de coisas sérias com uma gargalhada pelas histórias saborosas ou escabrosas, em que o sentido crítico e a captação do espírito e da minudência cabo-verdiana constituem a virtude da arte de bem ficcionar de Germano Almeida.
Elsa
Rodrigues dos Santos