Henrique Levy,
Cisne de África
Depois dos livros de poesia, Mãos Navegadas (1999) e Intensidades (2001), Henrique Levy publica agora o seu primeiro romance, levando-nos a Moçambique, mais concretamente a uma aldeia do Niassa, Massiconono, no Norte do território, em plena guerra colonial, nos anos 60. Aí, entre o quartel das tropas portuguesas, o seu hospital militar e as matas onde se aquartelavam os guerrilheiros da FRELIMO e igualmente de um hospital improvisado de campanha destinado aos seus feridos, desenvolve-se a acção, tendo como principais protagonistas a enfermeira portuguesa Maria Helena, o único médico português Rodrigo Noronha, a auxiliar de enfermagem, Eponine Kathipe, e o comandante das tropas da FRELIMO, Raimundo Ndhala.
Maria Helena, que viera de Lisboa, depois de ter sido abandonada no dia do casamento pelo noivo espanhol e de se ter despedido dos pais que amava e de ter tido a notícia, durante a viagem, que a mãe morrera, chega a Moçambique arrasada, mas acreditando que o trabalho que a esperava iria mudar completamente a sua vida. A magnífica paisagem do Niassa dá-lhe ainda mais confiança no seu futuro nessas terras longínquas de África.
E, de facto, o trabalho intenso no hospital, ao lado do Dr. Noronha, apesar de extenuante e, por vezes, frustrante, quando não conseguiam vencer a morte, era igualmente um incentivo para a sua realização.
Eponine, um dia, fala-lhe dos feridos da Frelimo que, do outro lado das matas, não tinham material cirúrgico, nem os cuidados necessários. Helena fica, assim, a saber que Eponine tinha contactos com os que eram considerados os inimigos. Surpreendentemente, ela decide ir ajudá-los, levando-lhes material cirúrgico, pensos, etc.
Ela e Eponine enchem o jipe com o material e embrenham-se na floresta em direcção a esse aquartelamento. Antes, porém, Eponine avisa os seus amigos para ninguém as atacar. Aí chegadas, entram logo em funções, descarregando a viatura e tratando dos feridos com os poucos recursos que tinham. Helena é apresentada ao Comandante Raimundo Ndhala que lhe agradece o seu gesto e lhe revelará, noutra visita, um pouco da sua vida. Era engenheiro, podia ter escolhido outra vida, mas a luta pela independência e pelos direitos do seu povo impunha-se-lhe, por isso tinha renunciado ao conforto de um outro tipo de existência. As suas palavras e as mãos vigorosas de Raimundo apertando as suas, ao despedirem-se, impressionaram-na. Depois desta visita, um sentimento de amor muito forte nasce entre Helena e Raimundo, reforçado, dias depois, quando o Comandante pediu, através de Eponine, para voltarem ao acampamento porque precisava de falar com ela. Helena não hesitou e voltou a visitá-lo. Foram passear para o rio e Raimundo mergulhou para nadar. Ao segundo mergulho um ramo de árvore, que nas águas se encontrava, rasgou-lhe a perna junto ao femoral. Helena imediatamente o socorreu, fazendo-lhe uma intervenção cirúrgica, servindo-se dos materiais que trazia na maleta. Voltou na noite seguinte e foi encontrar Raimundo sentado, esperando-a ansiosamente, no seu quarto de campanha. Aconteceu o inevitável. Ali se uniram numa longa noite de amor.
Dias depois, o cantineiro daquela zona põe a circular a suspeita de que a enfermeira era a favor dos pretos, talvez até simpatizante da causa do povo Moçambicano. A partir daqui, a Pide começou a rondá-la. Tinham descoberto que Helena viera tratar dos feridos guerrilheiros e que se metera de amores com o comandante da Frelimo.
Esta era a notícia trazida por Eponine que transmite também a Raimundo. Temendo o que possa acontecer a Helena, Raimundo manda recado por Eponine que ela fuja para Lourenço-Marques para casa dos seus amigos. Esta ordem de Raimundo era fruto da intriga engendrada por Eponine, pois que a Pide não tinha conhecimento de nada. Entretanto, Helena chega a Lourenço-Marques a casa dos seus amigos a quem confidencia o que lhe tinha acontecido e a razão por que saíra do Niassa. O marido da amiga diz-lhe que era urgente que ela passasse à clandestinidade. Ele próprio iria organizar a sua fuga junto dos amigos que conhecia e que estariam prontos a ajudá-la. E assim foi. Eles próprios a levaram a Inhambane para casa de casais conhecidos. Tempos depois, Helena volta para Lourenço-Marques para casa dos amigos. Um dia, recebe a visita de Eponine que lhe confessa que a Pide nunca soubera das suas idas ao aquartelamento da Frelimo, nem dos seus amores por Raimundo. Fora ela que inventara essa história com ciúmes de Helena, porque amava Raimundo, mas sentia-se arrependida. Diz-lhe também que Raimundo fora atingido por uma bala e que estava muito mal no Hospital Central do Malawi. Helena com os seus amigos dirigem-se ao Malawi, e, no hospital, ela vai encontrar o seu apaixonado em coma. Momentos depois morria.
Depois deste triste acontecimento, Helena regressa a Lisboa para viver com o pai. Sentia-se muito triste e a recordação de Raimundo acompanhava-a permanentemente.
Tempos depois, Helena morre numa intervenção cirúrgica mal sucedida.
Corria o ano de 2004. Maria Helena deixara ao filho dos seus amigos uma carta e o seu diário. Na carta pedia a José Francisco que fosse a Moçambique e visitasse os lugares onde trabalhara como enfermeira. Ele assim o faz. O último capítulo é a visita de Francisco José a todos os lugares onde Helena vivera, falando com a população e recordando a simpática enfermeira que fora amada por todos.
Esta é a história com os factos mais importantes. Resta-nos descodificar certos indícios do romance.
Começando pelo título, «O Cisne de África», o cisne simboliza, com a sua brancura, a pureza e a beleza, o poder e a graça que constituem a epifania da luz. Helena é, assim, o cisne imaculado que parte para África para realizar, através da sua generosidade, amor e coragem, a união dos dois povos, ultrapassando as barreiras da guerra, das diferenças raciais e do colonialismo. Unindo-se a Raimundo por puro amor, desafiando as convenções, com o risco da própria vida, demonstra que era possível a conciliação e um mundo mais harmonizado. O cisne, com o seu último canto ao morrer, perpetua as pulsões do amor e da vida. A morte dos dois amantes em tempos diferentes, mas muito precocemente, ele na guerra, ela por doença, é ainda a união de dois destinos, que, no plano do transcendente, se encontrarão para além da morte.
Deste modo, o autor transmite o sentido poético da vida, bem como o seu humanismo, com uma narrativa em que todas as personagens se movem por um certo altruísmo, na sua missão de agentes de saúde, tentando salvar vidas, ou mesmo, soldados e guerrilheiros, por um ideal ou uma causa, mas sem rancor ou ódio.
A ordem de suspensão dos ataques aos militares portugueses para que Helena pudesse circular com segurança ou a declaração do comandante da Frelimo de que não concordava com a guerra e que admirava alguns portugueses pela sua coragem e organização reforçam aquilo que foi possível com o fim da guerra e com a independência dos povos africanos, a união e a solidariedade das comunidades de língua portuguesa, restituindo a Portugal a sua dignidade e ao homem africano o seu lugar no mundo.
É esta a intenção do livro de Henrique Levy, que se afirmara já como poeta ou como ensaísta, principalmente no âmbito da obra de Florbela Espanca, de que ele é um especialista, e que nos revela agora a sua faceta de ficcionista nesta sua primeira incursão pelo romance, modelando as personagens e as acções com emoção e um certo lirismo, próprio de um poeta, sem se afastar das convicções ideológicas, do sentido crítico e da memória de um tempo crucial da História colonial portuguesa.
Elsa Rodrigues dos Santos