Henrique Teixeira de Sousa
Oh, Mar de Túrbidas Vagas
Plátano Editora, Dezembro de
2005
Henrique Teixeira de Sousa, médico de profissão, escolheu paralelamente um outro ofício que não o de amenizar ou de curar as dores físicas, mas o de tratar dos comportamentos psíquicos e sociais através das suas obras de ficção e de ensaio.
Pela sua qualidade e pela forma magistral como concebe e constrói as suas personagens e as contextualiza, ergue-se, na verdade, à categoria de escritor consagrado.
Toda a sua obra é fruto de uma sabedoria adquirida ao longo da vida e da sua experiência.
Por isso, recordar alguns dos passos mais significativos do seu percurso profissional e literário é importante para compreendermos as obras, as motivações e com ele penetrarmos no seu universo literário.
Após a licenciatura em medicina pela Universidade de Lisboa, em 1946, ingressou no quadro de saúde do Ultramar, tendo sido colocado em Timor como interno do Hospital Central e professor da Escola de Enfermagem. Em fins de 1948, viria a ser transferido, a seu pedido, para Cabo Verde, onde permaneceu até 1954,como Delegado de Saúde na Ilha do Fogo, criando ali um hospital e uma maternidade. Frequentou em Paris o II Curso para a formação de médicos nutricionistas para a África ao Sul do Sara, fazendo os estágios no Hospital de Bichat e no Instituto de Higiene em Paris. Nomeado, no mesmo período, médico-adjunto da missão permanente de Estudo e Combate de Endemias de Cabo Verde e presidente da comissão de nutrição tendo, nessa qualidade, viajado para todas as ilhas. Foi membro titular da Société d’Higiène Alimentaire de Paris. Participou de várias Conferências Internacionais Médicas, especialmente dedicadas à nutrição e possui vasta bibliografia dentro desta área científica, toda ela centrada em problemas especificamente cabo-verdianos.
Não menos significativos são os seus ensaios, quer de natureza filosófica, quer sociológica.
Para o delineamento das suas personagens literárias, muito lhe serviram as viagens que fez entre as ilhas do seu arquipélago, e dos Estados Unidos para Cabo Verde, como ainda o conhecimento de outros povos de que é exemplo o povo timorense, mas sobretudo o contacto com as comunidades cabo-verdianas, quer nos EU, quer na Europa.
Em 1936, iniciou a sua carreira literária com os contos Contra Mar e Vento.
O primeiro romance que se seguiu a esses contos foi Ilhéu de Contenda. Teixeira de Sousa introduz a obra com a frase seguinte: «Entre gente de sobrado, de loja e de funco, nasci e vivi. Nunca cheguei a perceber bem qual o lugar que me coube nessa sociedade. Por isso, este livro é de todos e para todos.»
Aqui nos fala da sociedade colonial cabo-verdiana, com todas as vicissitudes, mas também com os sonhos dessa gente para quem a vida constituía uma permanente incerteza, tendo, como única esperança, o que poderiam encontrar para lá do horizonte.
Capitão de Mar e Guerra, Xaguate e Na Ribeira de Deus formam uma trilogia de análise do comportamento da sociedade do arquipélago.
Xaguate é a história de um emigrante cabo-verdiano que, depois de muitas voltas e reveses, acaba por adquirir fortuna que lhe permite regressar à terra natal, o Fogo, no desejo de cumprir os sonhos que alimentaram a juventude. Simplesmente, os anos rolaram e os sonhos do passado encontram-se já deslocados no tempo presente.
O regresso, contraponto com o tema da partida constitui em Teixeira de Sousa uma forma muito real de encarar o problema do «americano» (como são chamados os emigrantes cabo-verdianos que regressam da América).
Xaguate completa os anseios de Chuva Braba de Manuel Lopes e de Chiquinho de Baltazar Lopes. Nos romances de Teixeira de Sousa, o regresso é visto com a dimensão realista da vida em que a deslocação no tempo dá lugar à frustração do encontro com o passado, mas, por sua vez, à salutar novidade que é de si própria, renovação vital, enquanto que Chuva Braba é a dúvida de ter de partir, acabando por ficar e Chiquinho o querer partir, embora com o regresso adiado para um dia futuro.
Djunga e Entre Duas Bandeiras são dois romances, onde certas figuras carismáticas, como Djunga, inspirado na filosofia real de um homem que existiu, se tornam personagens-tipo, representativas de um certo grupo social da pré e pós-independência.
Colaborador da revista Certeza e da 2ª fase da Claridade, Teixeira de Sousa é conhecido pelo seu perfil frontal e pelas suas posições sociológicas em defesa da língua e da cultura cabo-verdianas.
No seu artigo «A Problemática da língua na literatura cabo-verdiana», Teixeira de Sousa afirma:
«A independência política veio dignificar mais o crioulo de Cabo Verde, na medida em que a nível oficial, da comunicação social, do ensino, se passou a usar o falar quotidiano indistintamente do falar português. A utilização do crioulo nos comícios, na rádio, na Assembleia Popular, nos discursos dos governantes, tem vindo a contribuir para certa aristocratização do nosso dialecto, contribuindo imenso para a sua evolução no sentido de idioma nacional, meta longínqua, devido às variantes e sub-variantes atrás citadas. Até se conseguir a unificação necessária, o português deve continuar a ser implementado, não como língua estrangeira, mas como língua segunda, dentro do contexto bilingue da República de Cabo Verde». Assim, se pronunciava Teixeira de Sousa, preconizando que (e cito) «a nossa literatura, por muitos e bons anos, continuará a ser feita na língua de Camões, sem qualquer complexo edipiano»
Dentro do contexto referido, quer ao nível da língua portuguesa, expressa de uma forma exímia, quer ao nível dos conteúdos, este novo livro de Teixeira de Sousa, Oh Mar de Túrbidas Vagas, surge, já a finalizar o ano de 2005, como uma obra, embora de continuidade no seu estilo e em alguns dos seus temas, no entanto, com uma inovação que convém sublinhar.
O livro toma como título um verso do célebre poema de Eugénio Tavares, «Canção ao Mar»:
«Oh mar eterno sem fundo
Sem fim
Oh mar de túrbidas vagas
Oh mar!»
O título enuncia o tema do mar e determina uma identidade ancestral de que Eugénio Tavares é símbolo e mito.
A personagem principal é um capitão de barco que faz a última longa viagem com o seu barco, o Nossa Senhora do Monte, de Providence, nos Estados Unidos, a Cabo Verde. Estava cansado de estar longe de casa, da família e há longos anos no mar, numa vida sempre intranquila. Então tinha intenção de vender o barco e de trocar a sua vida no mar por uma vida mais calma, ficando à frente da propriedade herdada pela mulher, montando uma lojinha de secos e molhados no rés-do-chão da casa, «longe das surpresas do mar e da longa crise que grassava na América, fábricas a fecharem as portas, gente a caminho da assistência pública em busca de ajuda alimentar, patrícios a não poderem apoiar os familiares nas ilhas, etc.». Aliás, os patrícios que «trabalhavam no carvão, nos têxteis, na pesca da baleia, na apanha do morango, nos restaurantes, viviam em sobressalto por causa dos despedimentos e lay-offs que não paravam.»
Estava-se no ano de 1928 e o autor contextualiza histórica e socialmente a acção através das referências aos Estados Unidos, onde verificamos a crise que se desenvolvia na América e o racismo aí existente. Mas é também com o rigor que lhe é peculiar que nos vai dar uma panorâmica da vida nas Ilhas naquele tempo e os desejos do emigrante que regressa ao fim de vários anos e sonha construir o seu negócio na terra que lhe deu o ser. O papel do emigrante é encarnado por Libânia que, ao regressar à Brava, a sua ilha natal, sente-se deslocada no tempo e sem motivação para aí reconstruir a sua vida, porque tudo já era diferente, acabando por fazê-lo em São Vicente, onde encontra um ambiente mais propício, renovando as suas energias.
E a propósito do racismo americano, o autor lembra que também em Cabo Verde, na ilha do Fogo «havia muito racismo naquelas latitudes», «existia ainda outro tipo de descriminação. Era em relação aos brancos do campo, mais conhecidos por brancos de fora. Estes não frequentavam os sobrados dos grandes da vila. Respeitavam a hierarquia e não se atreviam a grande intimidade com os senhores de São Filipe».
Estas ocorrências de carácter social, que o autor nos dá, clarificam certos procedimentos do passado, sobretudo em certas ilhas de Cabo Verde. Esta análise vem na linha do que o autor desenvolvia em vários artigos de que são exemplos «A estrutura Social da Ilha do Fogo em 1940», publicado na revista Claridade, nº5, Setembro de 1947 e «Sobrados, Lojas & Funcos – Contribuição para o estudo da evolução social da Ilha do Fogo» in Claridade, nº8, Maio de 1958, falando da ascensão social do mulato nas ilhas de Cabo Verde e especificamente na ilha do Fogo, sobretudo no segundo quartel do sec. XX, marcando o início do período pós-colonial.
Mas, voltando à obra, nesta última viagem do Senhora do Monte, havia apenas três passageiros: uma única mulher, Libânia, muito bonita, natural da ilha da Brava, que regressava à sua terra para matar saudades e tentar abrir aí uma padaria.
O outro passageiro, o Amancinho, encontrava-se muito mal de saúde, com um tumor no pulmão e receava-se que não chegasse ao fim da viagem como, aliás, aconteceu.
O terceiro passageiro era Nhô Boaventura do Curral d’Ochôa, um homem roçando os 60 anos, sempre bem disposto e com muitas veleidades em relação às mulheres, procurando todos os pretextos para espreitar o banho de Libânia e vê-la nua ou tentando a sua sorte acercando-se dela, mas em vão.
Libânia admirava o capitão que era um homem elegante, sempre bem barbeado e perfumado em oposição ao marido, um bêbado incorrigível e com muito poucos hábitos higiénicos. Por isso, ela o deixara.
Esboça-se um encantamento de Libânia pelo Capitão, procurando por todas as formas seduzi-lo, mas este, apesar de a tratar com muita ternura e gentileza, não se deixa vencer facilmente pelos seus atractivos, porque ama a sua mulher a quem nunca enganou.
Referi no início que este romance tem uma inovação que convinha sublinhar.
Ora um dos aspectos inovadores começa aqui nesta atitude do capitão, porque o que vamos encontrar neste último romance de Teixeira de Sousa é uma visão quase redentora, positiva em relação a todos os aspectos da vida que acabam por se resolver sempre harmoniosamente, quer a nível social, mas principalmente a nível dos valores éticos.
Deste modo, o capitão Hilário, apesar de apreciar muito a beleza e as qualidades de Libânia, no entanto, procura não se envolver, por uma questão de lealdade para com a sua mulher e família e irá resistir até ao possível das suas forças. Acabam por cair um dia nos braços um do outro, não para se enredarem numa aventura falaciosa, mas para se darem um ao outro num gesto inevitável, mas sem consequências.
Por outro lado, a viagem de Providence a Cabo Verde tem vários contratempos, como a morte de Ancinho, cujo corpo terá de ser lançado ao mar, como era costume naquele tempo, com grande consternação dos presentes; o de se terem perdido no meio do mar, porque Alfredo, um dos rapazes da tripulação, havia-se esquecido de dar corda ao cronómetro, não lhes permitindo ter a hora de Greenwich, indispensável aos cálculos de navegação. Mas após alguns dias passados com grande preocupação, pois os alimentos já escasseavam, são salvos por um barco brasileiro que se aproximava deles. Então, a partir daí tudo corre bem: a recepção a bordo desse barco ao capitão Hilário que aí se desloca para pedir auxílio; o apoio que lhes vão providenciar, prontificando-se o comandante do navio brasileiro a rebocá-los até à linha do mar que os levará a Cabo Verde, pelo preço de 10.500 esc. que, sendo elevado para a época, no entanto é razoável pelo tempo que vão gastar nessa acção; e ainda a oferta de alimentos e a regularização do cronómetro.
Por isso, quando se pensa que lhes vai acontecer uma grande desgraça no alto do mar, onde ficariam à deriva sem alimentos, o problema resolve-se da melhor forma. A comida melhora com a carne seca e o gostoso feijão preto brasileiro. Os serões, depois do jantar com Libânia, cantando as mornas de Eugénio, acompanhada ao violão por Porfírio, tornam a viagem mais descontraída, decorrendo, a partir daí, como se fosse um cruzeiro de férias.
E é com este
optimismo e boas expectativas em relação ao futuro que desembarcam numa primeira
paragem
Em São Vicente é a boa recepção e hospitalagem de que vão ser alvos o capitão e Libânia, mas são também as impressões e os aspectos sociais mais relevantes que aqui se narram. A falta de orçamento para se arranjarem as ruas em São Vicente, apesar das verbas que dava o Porto Grande, mas que eram todas canalizadas para os cofres da Fazenda Pública na Praia. Daí a grande revolta dos sanvicentinos que consideravam a capital o sorvedouro dos rendimentos portuários de São Vicente. Esta questão dividia os cidadãos de ambas as ilhas, no eterno conflito entre badios e sampadjudos.
Outros aspectos da época são levantados como a ineficiência dos fornecedores de electricidade, a Western Telegraph e o Senhor Bonnuci, com os frequentes cortes e colapsos totais.
O autor refere-se ainda aos hábitos da alta burguesia com as suas festas, o «court» de ténis e a piscina da Matiota, frequentados só por determinadas pessoas da alta sociedade cabo-verdiana. Estas são referências que recriam uma época e que fazem parte da memória dos que aí viveram, sobretudo no princípio do século.
No âmbito do decorrer da acção, o acidente acontecido no Senhora do Monte, perdendo o ferro com a maresia e que, providencialmente, é levado para o cais de Wilson pelo rebocador da Shell, que por ali passara, evitando que fosse encalhar na praia da Galé, constitui mais um episódio que terminará da melhor maneira. Inclusivamente a reparação do casco feita não pelos ingleses mas por Mano Queta, um homem da terra, da Ilha da Brava, para onde o barco se dirige na sua escala, revela as possibilidades da gente das ilhas que, com poucos recursos, é capaz de superar os maiores obstáculos. Assume-se, assim, este acontecimento como um símbolo da energia regeneradora do povo cabo-verdiano.
Da mesma forma, a gravidez de Berta, a mulher do capitão, com mais de quarenta anos de idade, é outro símbolo da força motriz da mulher e da terra «mater».
Terra, por vezes, sujeita às pragas dos gafanhotos, do bicho preto, matando as colheitas e roubando o pão dos seus homens. Terra que se desfaz e se refaz pela mão calosa do homem nunca desistente, mas permanecendo firme e vigilante.
Esta é a mensagem do romance de Teixeira de Sousa, que até nas fraquezas humanas como na cedência do capitão aos encantos e ao chamamento de Libânia, consubstanciando um acto de amor, se encontra a nobreza das personagens, transformando esse acto de amor em algo de natural e de inevitável que, mais do que a força da libido, preenche o que faltava naquela verdadeira amizade que os unia.
Este livro que revela um profundo conhecimento da terra, como igualmente das técnicas náuticas, é concebido em perfeita harmonia com a medida do homem, mas igualmente tem a intenção deliberada de desdramatizar todo esse percurso, por vezes, catastrófico da vivência em Cabo Verde, sobretudo até à primeira metade do século XX.
Situação social que foi alvo da preocupação dos intelectuais da época e, principalmente, de toda uma literatura que o autor protagonizou nos seus anteriores relatos mais pungentes.
Esta é uma obra optimista, de amor, de morabeza e de alegria de viver, por isso é uma bela prenda para o Natal, pois podemos senti-la como a crença nas potencialidades do povo cabo-verdiano no sentido de valorizar a sua terra, em qualquer lugar onde ele esteja, mas igualmente como a esperança em melhores dias para todo o mundo neste novo ano que se avizinha.
Elsa Rodrigues dos Santos