Homenagem a José Saramago

Pelo seu falecimento em 18 de Junho de 2010

 

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Conheci o Escritor José Saramago pelo menos há 30 anos. Lembro-me das muitas vezes que ele compareceu na Sociedade da Língua Portuguesa, era então Presidente dessa instituição o Prof. Fernando Sylvan, para assistir às palestras de terça-feira, intervindo na sua forma habitual, arguta e inteligente. Já nessa altura, o admirávamos pelos livros que iam saindo, como o Manual de Pintura e Caligrafia, 1ª ed. em 77, pela Moraes e só depois pela Caminho em 84, Objecto Quase, 1ª ed. pela Moraes em 78 e a 2ª ed. pela Caminho em 84. Mas o livro que a minha geração leu sofregamente foi Levantado do Chão (80), essa saga do Alentejo, de gente fortemente marcada pelo desemprego e por toda a espécie de dificuldades e conflitos. Aí iniciava já uma pontuação nada ortodoxa, sobretudo no discurso directo.

Na década de 80, outros livros seus foram surgindo com uma escrita nova, pela pontuação desconcertante.

Memorial do Convento, em 82, O Ano da Morte de Ricardo Reis, em 84, representam um marco na literatura portuguesa. Suscitaram no público, primeiro, a estranheza, depois, a discussão sobre a legitimidade de uma tal escrita que anulava todos os cânones da pontuação. Reaprendia-se a ler, descobrindo o texto e a sua lógica através do ritmo que o mesmo lhes imprimia e futuramente já não seríamos capazes de o ler de outra maneira. A função estética cumpria-se não só através da genialidade do conteúdo, mas também através da inovação e subversão de um discurso que só poderia ser criado por alguém que manejasse sabiamente a língua e igualmente através da dessacralização do género literário.

Quando são publicados A Jangada de Pedra, em 86 e História do Cerco de Lisboa, em 89, estávamos já aptos para a leitura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no alvorecer da década de 90, em 91, Ensaio sobre a Cegueira, em 95, Ensaio sobre a Lucidez (2004) ou As Intermitências da Morte (2005).

Uma nova questão se formava à volta dos seus livros, já não respeitante ao discurso e à sua pontuação ou à falta dela, mas aos temas contundentes, conduzidos por uma ironia que desconstruía as instituições e os seus comportamentos. Temas como a religião, a ineficácia das políticas, o voto em branco ou a suspensão da morte, vistas de uma forma jocosa, provocavam polémica pelo confronto com o poder instituído.

Obras como Todos os Nomes, (97), A Caverna (2000), O Homem Duplicado (2002), As Pequenas Memórias (2007) e A Viagem do Elefante (2008) acalmariam os ânimos, porque não os inquietavam, apenas lhes traziam o traço inconfundível do autor, a graça, a imaginação, o ponto de vista lúcido sobre os comportamentos humanos. Eis, porém, que surge Caim (2009) que põe em causa a entidade divina e A Bíblia, o livro considerado sagrado.

Então caem-lhe em cima o Carmo e a Trindade, numa espécie de ajuste de contas pela sua irreverência, mas, sejamos sérios, principalmente pelas suas opções políticas e pela afirmação de liberdade, enquanto cidadão e escritor.

Surgem as críticas, inevitavelmente entre os meios religiosos. Mas o mais surpreendente, são os comentários da parte de pessoas que naturalmente nunca leram a Bíblia, muito menos reflectiram sobre o Antigo Testamento e que, provavelmente, nunca tiveram inquietações religiosas ou políticas, ou que nunca procuraram a sua própria verdade.

É evidente que tudo é questionável na vida, Saramago, a religião, Deus, a política, os Prémios que se atribuem, os Partidos, etc., mas num país democrático, a liberdade de expressão e o direito ao pensamento são os bens mais preciosos.

Por isso, nesta hora derradeira, em que o vimos partir e imaginamo-lo no seu diálogo inquietante e ininterrupto com a eternidade, só nos resta prestar homenagem a esse homem extraordinário que levou a língua portuguesa ao mundo e a prestigiou na sua mais alta vertente estética, ganhando, por mérito próprio, o Prémio Nobel da Literatura, colocando-se ao mesmo nível dos grandes escritores e pensadores universais.

Deixemo-nos de julgamentos mesquinhos, em função de ideologias políticas e de preconceitos religiosos que não cabem na obra de um escritor absolutamente livre e universal, como era Saramago, cujo mister era ditado pela lucidez e pela inquietação do conhecimento, independentemente das suas escolhas partidárias.

Isso foi reconhecido inclusivamente por alguns doutores da igreja portuguesa mais clarividentes que afirmaram ver nas suas obras mais polémicas, sob o ponto de vista religioso, (Evangelho segundo Jesus Cristo e Caim) a interrogação, não de um provocador, mas de alguém que se assumia como um teólogo, profundamente conhecedor da Bíblia e que, vivendo num mundo que, desde os primórdios da sua existência até aos dias de hoje, primava pela violência e pela falta de amor, por direito se questionava.

Por isso, a sua obra, longe de ser herética, é, antes pelo contrário, o desejo de encontrar a verdade e a explicação para as monstruosidades que se cometem nessa cegueira colectiva, em que a única salvação se encontra no amor, pois só o amor pode redimir os homens e vencer a própria morte.

  

 

 

                                                                   Elsa Rodrigues dos Santos