Jaime Salazar Sampaio

 

 

     Faleceu no passado dia 13 de Abril o dramaturgo Jaime Salazar Sampaio, de há longa data amigo e colaborador da Sociedade da Língua Portuguesa.

     Por isso, foi com profundo pesar que fomos surpreendidos com a sua morte.

 

     Jaime Salazar Sampaio nasceu em Lisboa em 1925. Engenheiro silvicultor, doutorado em Economia Geográfica pela École Pratique des Hautes Études da Universidade de Sorbonne, exerceu durante anos o cargo de Director do Instituto das Florestas, além de outros cargos importantes dentro da sua área profissional, mas era como escritor, ou melhor, como dramaturgo que melhor se sentia, vestindo a sua pele a tempo inteiro, após a sua reforma.

     Em 1997, foram reunidas e editadas pela Imprensa Nacional, 40 peças em dois grossos volumes, com o título «Teatro Completo», escritas desde 1945 até esse ano. Em 2002, publicavam-se mais nove peças, o que significava que essa obra não estava completa, porque enquanto o autor teve um sopro de vida e de saúde continuou a escrever, pois esse foi o seu projecto de vida ou a sua razão de viver. A Imprensa Nacional publicou mais dois volumes, esperando-se ainda a publicação do V volume que estava para breve.

     O teatro português, que tem sido tão maltratado, em apoios aos grupos de teatro e aos dramaturgos, não vendo estes, a maior parte das vezes, as suas peças representadas, no entanto, em relação a Jaime Salazar Sampaio, ele teve a felicidade de ver vários grupos de teatro, sobretudo amadores, interessados pelas suas peças, representando-as com frequência.

     Merecia, porém, que a nível do Teatro Nacional, fosse seleccionado um ciclo de peças suas a serem representadas pelos melhores actores portugueses, homenageando, assim, aquele que é, sem dúvida, hoje, o maior dramaturgo português e único no que se costuma chamar «o teatro do absurdo».

     Entre os estudiosos e ensaístas, Sebastiana Fadda é a pessoa que mais se tem debruçado sobre a sua obra, como analista brilhante que é. Luiz Francisco Rebello e José Mascarenhas igualmente têm seguido e comentado atentamente a sua obra. Carlos Paniágua e o seu Grupo de Loures, bem como o Grupo de Teatro de Portalegre acompanharam desde há muito o autor, levando à cena várias peças suas.

     Sebastiana Fadda dizia da sua obra, no capítulo que lhe dedicou em «O teatro do Absurdo em Portugal»: «O autor no fundo dedicou-se à reescrita de uma única peça, onde se fala de amor, vida, morte e silêncio.»

     Luíz Francisco Rebello frisava que «Huis Clos de Jean Paul Sartre é uma referência obrigatória quando se fala do teatro de Salazar Sampaio, porque ele dá a conhecer as suas personagens em situação, na sua fragilidade, como amostras exemplares da condição humana, incapazes, por vezes, de saírem do compartimento em que se encerraram e de abrirem essa porta fechada.»

     Também a heteronímia de Fernando Pessoa é outra referência obrigatória do seu teatro pelo desdobramento da personalidade das personagens que se repetem, aliás, ao longo da sua obra.

     Peças como Magdalena, Conceição ou um Crime Perfeito, Junto ao Poço, Os Outros, Os Visigodos, A Inauguração da Estátua, O Desconcerto, Fernando (talvez) Pessoa, Rosas e Aplausos para Isabel, O Meu Irmão Augusto, Jardim de Inverno, Um Homem Dividido, enfim toda a sua obra vastíssima configura um autor atormentado entre a angústia existencial da dúvida e a interrogação sobre si e sobre os outros e a lucidez com que constata o absurdo da humanidade, a mediocridade da vida e dos gestos. São as desilusões, os silêncios, a incomunicabilidade entre os seres que estão mais próximos que delineiam as personagens, perseguindo, dir-se-ia, sempre a mesma, cujo ego se desdobra ou se multiplica em inúmeros egos.

     Salazar Sampaio também se interessou pelo ensino do português e, assim, integrou-se numa experiência pedagógica, com a publicação de duas Antologias escolares, a primeira, Nós, Os Outros, em co-autoria comigo, Elsa Rodrigues dos Santos, e com Arlette Pereira Marques e a segunda, Ler e Descobrir, também comigo, e com Carlos Paniágua e execução gráfica de Daniel Dias, editadas pela Plátano Editora. Mais tarde, organizaria outras Antologias com outras professoras.

     Pessoalmente, recordo essas experiências com muita saudade e carinho pelo muito que aprendi com essas duas maravilhosas equipas e, sobretudo, com o Jaime, pelo seu rigor, sentido estético, sensibilidade e cultura literária.

     Quanto à representação das suas peças, como autor, gostava de acompanhar os ensaios, e, ele próprio encenou a peça Junto ao Poço que foi levada à cena na Sociedade Portuguesa de Autores. Lembro-me que levei uma turma de alunos à ante-estreia e que, apesar da complexidade da peça, pelo desdobramento das personagens, muito pessoanas, os alunos reagiram com muito interesse e duas alunas de 15 anos, do 9º ano, discutiram sobre a peça num diálogo surpreendente que foi transcrito para o catálogo deste espectáculo.

 

Dizia uma das meninas, a Sandra Garcia de Sousa:

     «O poço para mim é a consciência do Luís e é também um meio de evasão porque ele tenta arranjar uma saída. Além disso, vai-se interrogando. Ora quando uma pessoa se está a interrogar e a auto-analisar-se, fá-lo sempre com o espírito de se construir e não de se destruir.»

 

A estas palavras a sua colega, Isabel Pinto Balsemão, responde:

     «Eu não vejo nada disso, nem concordo contigo, Sandra, porque, no final da peça, a personagem diz: “Amanhã é um novo dia, amanhã, depois de amanhã, na quarta-feira…”. Ele é um homem frustrado para a vida toda. A sua vida passará a ser uma rotina. (…) O autor não dá saída à personagem. Aliás, o Luís-Fernando é uma personagem só e o Luís–Fernando somos todos nós. Todos nós temos o nosso poço. Umas vezes, sabemos sair dele, outras, não. É o fim da peça que tu tens de analisar e não ficares pelo meio, Sandra.»

     Ao que a Sandra retorquiu:

     «Mas o autor escreveu esta peça obedecendo a mecanismos. O fim interessa, sem dúvida, mas o fim é assim porque a personagem se contradiz a cada passo. Por isso, eu considero que a peça não tem fim. E não tem fim porque, ao longo do texto, há passos que se poderiam considerar fim. E por isso também penso que esta peça é extremamente real, porque as pessoas estão constantemente a contradizerem-se.»

 

 

     O meu filho, na altura com oito anos e que assistiu a muitos ensaios, questionado sobre o que tinha entendido, respondeu:  

     «Eu acho que tudo aquilo da peça é o que o autor sente dentro de si. A peça que o Jaime Salazar Sampaio fez é a sua vida própria, embora ele nos pareça sempre muito alegre e bem-disposto.»

 

     Isto significa que o teatro do Jaime Salazar Sampaio, apesar de inserido no teatro do absurdo, tem, através da transparência da linguagem e da expressão das emoções e dos sentimentos, a capacidade de chegar a todas as idades, clarificando os absurdos tão próprios da complexidade da vida.

     Aliás, a sua tendência didáctico-pedagógica manifestou-se durante anos, organizando sozinho ou com Carlos Porto, outro amigo já desaparecido, as sessões «A Dramaturgia e a Prática Teatral» na Sociedade Portuguesa de Autores.

     Termino, afirmando: Salazar Sampaio era actualmente o maior dramaturgo português, homem de grande cultura e sensibilidade, perfeccionista por natureza, escrevia e reescrevia as suas peças com paixão, e, simultaneamente, com uma grande lucidez, desbravando o que há de absurdo e de complexo na alma humana. Desvendava a mulher nos meandros da alma feminina, sobretudo no outono da vida, com os seus sonhos perdidos e ainda ansiados.

     A sua morte é uma grande perda para o teatro universal, para a literatura portuguesa e para todos os amigos.

     Um grande aplauso para ti, Jaime, com flores e lágrimas. 

                                  

                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos