1. Jogo de palavras

 

 

Teresa -  De que vamos falar hoje?

Elsa - Hoje vamos falar do jogo das palavras.

Teresa - Essa matéria é interessante porque há muitas anedotas que resultam do jogo de palavras.

Elsa - O homem gosta de brincar com tudo e até com as palavras. Assim, vamos começar por contar uma anedota resultante exactamente de um equívoco involuntário de palavras que é citada por Rodrigues Lapa.

 

«Viera para a aldeia um médico já idoso. O seu primeiro doente foi um lavrador que se queixava de fortíssimas dores nas costas. O doutor receitou-lhe uma pomada para friccionar as cadeiras com força, à noite e de manhã. Passados oito dias, encontrando o doente, perguntou-lhe o médico:

- Então como tem passado? Já não tem dores?

-Ai, senhor doutor, as cadeiras estão muito lustrosas, mas eu estou na mesma!

- Ora essa! Como aplicou você o remédio que lhe receitei?

- Olhe, senhor doutor - respondeu o lavrador - todas as noites e todas as manhãs esfrego com quanta força tenho as cadeiras da minha sala. Elas estão lindas, estão, mas as dores ainda não me passaram.

O médico soltou uma gargalhada e disse-lhe:

- Oh homem, não são as cadeiras da sua sala, mas as cadeiras do seu corpo, os quadris, que você deve mandar esfregar!

O aldeão compreendeu, assim fez, e daí a pouco estava curado.»

 

Teresa - Vimos, assim, que o jogo de palavras é uma espécie de trocadilho de sentidos.

Elsa - E é mesmo. Deu-se um equívoco entre os dois sentidos diferentes do mesmo vocábulo, de que ia resultando mal para o pobre lavrador. É o tipo mais frequente - o trocadilho entre palavras homónimas. Aqui, nesta história, o trocadilho foi inconsciente, porque o lavrador ignorava que cadeiras pudesse ter aquela significação que lhe atribuía o médico, de quadris.

Teresa - Há mais formas de criar trocadilhos?

Elsa - Se na história que foi contada houve um trocadilho sem intenção, por vezes, explora-se o homónimo propositadamente com intenção malévola.

Teresa - É capaz de dar um exemplo?

Elsa - Conto mais uma história.

 

«No tempo das guerras liberais contra os miguelistas, por ocasião do cerco do Porto, os pregadores miguelistas diziam ao povo ignorante que o liberal D. Pedro «comia crianças assadas» e liam do alto do púlpito um artigo da «Crónica Constitucional» onde se referia que Sua Majestade «comia a cada jantar um pequeno assado»

 

Alteravam, assim, a categoria gramatical de «pequeno» que, de adjectivo passava a substantivo com significação de «criança» e «assado» de substantivo passava a adjectivo particípio. Claro que neste caso a entoação era importante, carregando no termo «pequeno».

Portanto, a mudança da categoria gramatical das palavras pode dar origem a curiosos equívocos.

Teresa - Ainda há outras formas de se criarem trocadilhos de palavras?

Elsa - Há, mas deixaremos para a próxima sessão.

 

2. Jogo de palavras

 

 

Teresa - Hoje vai continuar com o jogo de palavras?

Elsa -  Conforme prometi na sessão anterior, vamos continuar com o jogo de palavras. Uma outra forma que serve para fabricar trocadilhos é a diferença de sentido que existe entre a palavra simples e a palavra composta.

Teresa - Quer dar um exemplo?

Elsa - Por exemplo, jogando com o sentido das palavras sentir e consentir, conto uma história:

 

   «Frei António das Chagas dizia esta frase a alguém que se lhe fora confessar:

   - Anime-se e dê muitas graças a Deus por sentir as suas tentações, porque o senti-las é bom; e só o consenti-las é mau.»

 

Teresa - Essa é boa!  Estou a gostar destas histórias. Tem mais alguma para contar?

Elsa - «Unamuno, na última guerra civil de Espanha, referindo-se ao partido que ganhou dizia, jogando com as palavras:

- Vencereis, mas não convencereis.»

Teresa - De facto, o trocadilho pode até expressar sábias reflexões políticas. Há mais formas de criar trocadilhos?

Elsa -  Há, por exemplo, jogar com o sentido etimológico das palavras quando este depois se modifica. No exemplo que vou dar do Pe António Vieira, que era um mestre do trocadilho, ele joga com o sentido etimológico das palavras douto e dócil.

Douto que vem do latim «doctu» que significa «que aprendeu», «que sabe», «instruído», «douto», «sábio», hábil» e dócil que vem do latim docile que significava «disposto a instruir-se», «que aprende facilmente», «dócil». No sentido figurativo «que se maneja facilmente».

Teresa -  Douto e dócil tinham, portanto,  no latim, sentidos muito próximos.

Elsa - Pois por isso mesmo o Pe António Vieira, jogando com os  sentidos etimológicos das  palavras, dizia:

«Quem não é dócil não pode ser douto, antes a mesma docilidade é um sinónimo de ciência.

Teresa - Sábia afirmação sobretudo para os convencidos que sabem tudo.

Sobre esta matéria ainda há mais algum exemplo?

Elsa - O trocadilho pode nascer de um simples equívoco de pronúncia, puramente fonético.

Um exemplo neste diálogo:

  

« - Minha senhora, eu queria a mala (amá-la»)

- Que diz?! - exclama a senhora indignada - o senhor é muito atrevido

- Não sei porquê… desejo a mala, que me ia esquecendo dela

- Ah! A mala…- Está bem, desculpe. Tem-na ali ao canto. Leve-a.»

 

Portanto, este foi um trocadilho fundado em equivalências fonéticas, entre palavras homófonas, mas totalmente diferentes (a mala, objecto, e o verbo amar, conjugado pronominalmente, amá-la).

Este tipo de trocadilho é mais grosseiro e artificial.

Mas o jogo de palavras ou trocadilho foi muito utilizado pelos escritores, por ex: no sec. XVII com o seu conceptualismo barroco. Ver inúmeros exemplos em Pe António Vieira sobretudo nos seus sermões. Camões, no século anterior, foi um mestre do trocadilho.

Isto não quer dizer que se recomende o trocadilho como recurso corrente nas redacções. Como dizia Rodrigues Lapa, (e nesta matéria sobre estilo tenho de me recorrer obrigatoriamente a ele): «Em bom estilo deverá partir-se do pensamento para as palavras e não das palavras para o pensamento».

Teresa - E ele queria dizer exactamente o quê com essa afirmação?

Elsa - Ele queria dizer que um recurso estilístico como o trocadilho pode ser empregado  mas na sequência de um pensamento e não metido à força só porque a frase fica mais engraçada. Significa, pois, que as palavras servem as ideias e não o contrário. Mas, claro, em matéria de estilística, a meu ver, tudo isto é discutível.

 

 

 

                                                                                                                                                         Elsa Rodrigues dos Santos