Prefácio

 

            Este belo livro de Jorge Fonseca, cidadão luso-cabo-verdiano, caçador de tubarão e aventureiro do fundo dos mares, leva-nos a uma viagem autêntica, fascinante, mas, ao mesmo tempo, perturbante.

            O autor dedica esta obra à sua terra com estas palavras: “Terra pobre e pequenina, mas que tem um mar tão rico e tão grande. Terra onde nasci e me criei…

            Terra onde há tempo para sentir e para pensar.

            Terra e gente que tanto contribuíram para a formação do meu carácter”.

            Essa terra é Cabo Verde, constituída por dez ilhas, sendo Santa Luzia, desabitada e transformada em armazém de desperdícios. Este arquipélago, situado a 455 km da costa ocidental africana, tem uma superfície total aproximadamente de 4033 km2, sendo a maior, Santiago, com 991 km2 e a mais povoada (47% da população recenseada). As outras ilhas, muito mais pequenas, principalmente Maio e Boavista, seguindo-se-lhes Sal e Brava, são desoladoramente áridas.

            Ao aterrarmos na Ilha do Sal, temos a sensação que alunámos, pela sua extrema aridez e agressividade do cinzento do solo que se confunde com o cinza do céu.

            O autor nasceu em São Vicente, aí cresceu e viveu até à idade de vir para a Universidade, em Lisboa, onde se formou em Economia.

            Percorreu todas as ilhas, com aquele sentido próprio do ilhéu, de ser o descobridor do que está para além do horizonte.

             E o escritor declara: “Quis o destino que eu tivesse nascido numa pequena ilha do Atlântico onde a maior estrada que a atravessava tinha dezoito quilómetros”.

            Mas se a terra era pequena, o mar que a rodeava era imenso, era o Atlântico todo, jorrando sonhos e esperanças.

            Por isso, Jorge Fonseca afirma: “Assim, toda a minha infância e quase toda a minha vida adulta estão ligadas ao Mar”.

            E em guisa de intróito do capítulo “O Mar … Um amor predestinado” revela a sua alma poética: “Eu queria dar-te o Mar

                               Todo, todo, todo teu

                               Deixa-te nele enlear

                               Porque o Mar, amor, sou eu”.

            Para se saborear a leitura deste livro é preciso conhecer ou, pelo menos, imaginar Cabo Verde.

            Apreciar o odor das praias e o calor das águas que nos abraçam e nos acalentam.

            Conhecer as suas gentes, a sua morabeza que, no nosso falar continental, significa hospitalidade e amorabilidade.

            Ouvir as suas mornas e coladeiras e dançar nos seus bailes ou nas festas espontâneas, onde a dança e a música são ingredientes obrigatórios, a par da comida, onde não falta os cuscus, a cachupa e o pudim de queijo, grogue e muita bebida.

            Mas é igualmente interessante conhecer-se o autor.

            Homem de 1,80 m, forte, robusto, rosto bonacheirão, sempre pronto para uma piada ou para um piropo a uma dama, Jorge Fonseca é, de facto, um apaixonado pela sua terra e pelo mar que conhece como ninguém. No entanto, criou outros interesses, respeitantes à pesca e congelação do atum e à exportação da lagosta que lhe foram gratificantes.

            Empreendeu vários projectos, todos eles ligados ao turismo marítimo, entre ilhas, que não foram concretizados. Quando falava deles, os olhos brilhavam--lhe e estava aí toda a sua alma.

            Este livro, no qual recorda a infância, os pais, os amigos e muitas das figuras primordiais da terra, como os pescadores, que o influenciaram a mergulhar no fundo desse mar imenso, constitui um importante testemunho.

            O mergulho e a caça submarina e outros desportos náuticos atraem hoje numerosos jovens que o praticam sem terem muita consciência dos perigos que terão de enfrentar. Na verdade, eles podem ser fatais se não tiverem um profundo conhecimento do mar em si próprio, das correntes, da fauna marítima, da anatomia dos peixes e das suas características e hábitos.

            Jorge Fonseca, num discurso muito fluente, simples, agradável, com aquele humor que lhe é peculiar, de uma forma, diria, que não sendo didáctica o é, revela as belezas e os tesouros que estão no fundo do mar e ensina a enfrentar os perigos, narrando a sua própria vivência, por vezes, numa luta corpo a corpo  com esses monstros gigantes (tubarões, jamantas e outros peixes), em que é necessário perícia, astúcia e muita robustez física para aguentar mergulhos prolongados e profundos  em apneia.

            A coragem, a concentração, o controlo emocional são factores fundamentais para quem se dedica a esta paixão que leva homens, como o autor, a despojarem-se da sua própria estabilidade quotidiana para enfrentarem um outro mundo, misterioso, terrífico, mas belo. E só o podem fazê-lo, encontrando com sabedoria as formas de segurança, com um grande sentido de responsabilidade e de solidariedade para com os companheiros, nessa actividade obrigatoriamente de equipe, na qual o amor ao próximo e à natureza está sempre presente.

            O autor que, tantas vezes, arriscou a vida e viu morrer companheiros, homens do mar, habituados ao sol e aos perigos, à tremenda luta contra o imprevisto, adopta uma visão panteísta do Universo, segundo a qual Deus e o mundo formam uma unidade, considerando a natureza como um ser divino, dotada de uma unidade vital e dinâmica.

            Daí a sua oração final de agradecimento a esse Deus do Universo, essa energia inteligente que criou este Universo fantástico.

 

                                                                                                 Elsa Rodrigues dos Santos