José Jorge Letria

Quem com ferro ama

 

  José Jorge Letria, poeta, contista com variadíssimos prémios e uma vasta obra iniciou-se há pouco mais de 30 anos.

   O primeiro livro publicado, Mágoas Territoriais data de 1973 (1ª ed.), e 1974 (2ª ed.)

De 73 para cá muitas obras foram publicadas, mais de 30, o que significa que José Jorge Letria muito tem trabalhado em prol da literatura portuguesa.

 

       Quem com ferro ama, editado pela Quetzal Editores, em Janeiro de 1999, constitui um percurso de vida que nos dá a conhecer a sua forma de ser e de estar e nos põe a velha questão da legitimidade ou não de se inferir a personalidade do autor através da obra, isto é, o real através da ficção.

    Quem com ferro ama corresponde analogicamente à primeira premissa do provérbio «Quem com ferro mata», deixando para o decorrer e para o fim do seu tecido textual o entendimento e o subentendimento deste aforismo.

   A obra tem como ponto de partida um poema intitulado «A despedida da luz» que evoca a adolescência na sua íntima ternura e felicidade que se consubstanciam numa vivência feita de Agosto, de mar, de areia molhada, da rua «a festejar amores» e da casa que segundo palavras suas, «se abria como um livro para ouvir, sofrer ou contar.»

   O final do poema situa o poeta no presente, buscando (e cito) «a minguada luz que lhe ensine «como se sai da treva para o júbilo», isto é, como consegue um adulto sair do estado de angústia para o estado de alegria.

   Mas se a infância ou a adolescência eram para o poeta um tempo de alegria, rodeado de amor, eram também um tempo de interdições, «do não faças isso que parece mal», numa terra onde toda a gente se conhecia, e simultaneamente um tempo de dúvidas, de medos e com promessas de felicidade a esvaírem-se.

   A morte do pai é crucial, marcando-o indelevelmente. Depois a partida, as recomendações da mãe, as saudades dos cães, da casa, as cartas, um retrato muito longe, a mágoa de uma morte a envenenar e «esta incapacidade de me deixar amar e de ser amado». E toda essa febre

                   

«a lembrar-me que tudo é ruim

quando a máquina da paixão

            arrefece e pára, no eclipse da alma»

 

   Neste livro que se desenvolve como a própria vida, o escritor recorda a actividade da poesia que o formou e que o fez crescer e lhe ensinou a olhar o mundo, reflectindo, deste modo, sobre a função poética.

 

«como numa comédia de Plauto

eu sou o autor que ri do autor,

              rindo também do sortilégio dos deuses,

      convocando as misérias do império

      para a mesa comum dos mortais.»

 

E no poema «Havia sempre um cigano a cantar» é a lembrança duma passagem por Córdova onde se comiam calamares e churros e se compravam bugigangas e postais, enfim, tudo era assombro e descoberta, enquanto o nome de Lorca lhe enchia os olhos adolescentes.

   E neste diálogo com a infância onde se descortinam vozes, rostos, a imagem dos primos da província, as caçadas, o cheiro das perdizes sobre a mesa da cozinha, vai-se desenhando o tempo no qual os filhos crescem. Citando o poema:

 

«e já não se demoram em casa

             partem pela calada da noite, ágeis,

   seguindo o rasto da lua,

 seguindo o instinto,

com um impulso de brisa

 a guiar-lhe os passos.»

 

   E o poeta prossegue na senda do seu próprio «eu», procurando desvendar-se, reconhecer-se:

 

«Que não se espere de mim, nunca,

a linfa gotejante da resignação,

a água turva e morna do destino aceite.

Eu sou feito de outra matéria,

Da matéria incandescente e ferina

Que queima as mãos dos apaziguadores,

Que semeia o caos na ordem dos benfazejos»

 

   Nessa matéria incandescente de que é feito o poeta cabe o grito e a revolta, a verdade e a justiça que incomodam os apaziguadores, mas que definem José Jorge Letria, nesta viagem iniciática, que é o próprio livro.

   Voltando ao título (Quem com ferro ama), em intertextualidade com o provérbio «Quem com ferro mata com ferro morre», substituindo «mata» por «ama» e depreendendo-se a segunda frase («com ferro morre»), podemos concluir que é da sua índole viver intensamente, amando, revolucionando, revolucionando-se e sofrendo as  consequências dessa mesma forma intensa de estar no mundo até ao fim dos seus dias.

 

                                                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos