José Manuel dos Santos

O Livro dos Registos

 

«De mim fiel autor em escrita automática

fico espantado de me ler como sou

redijo-me com linguagem enigmática

e não reconheço o autor que me criou

 

Na biblioteca humana de Babel

os homens rasurados e revistos

são curtos textos impressos em papel

onde a vida escreve o Livro dos Registos.»

 

Neste poema, de certo modo emblemático, pois serve de apresentação, o poeta confessa-se atónito pela sua escrita automática em linguagem enigmática e, por outro lado, reconhece que a vida de um homem é toda escrita e reescrita e registada. Por isso, ele, poeta, inscreve no seu Livro dos Registos os seus pensamentos, vivências e sentimentos.

Da sua linguagem automática se destaca uma poesia que assenta na crença de uma realidade superior de certas formas de associações, como no sonho e no mecanismo do pensamento. Trata-se de um automatismo psíquico com que pretende exprimir o próprio pensamento.

É neste uso da linguagem que reside afinal o jogo surrealista.

Na poesia de José Manuel dos Santos há na linguagem surrealizante uma função ética da perspectiva subversiva, pois, para ele, ser livre é procurar a unidade num ponto de equilíbrio entre a lei contingente da matéria e a liberdade de espírito.

O poeta procura «a unidade perdida/ que no seu íntimo se encerra/ entre a ascensão e a descida.», «entre o céu e o inferno».

E o poeta afirma:

 

«Para o achares tens de ver

que o mundo em ti se refaz

este cósmico reaver

só tu em ti o farás».

 

Realiza então uma viagem freudiana ao mais profundo do seu «eu», numa perspectiva humanista, mas igualmente cósmica, tendo por objectivo a subversão dos valores instituídos, em busca da transformação do mundo real, através da transfiguração e do surreal.

E se o surrealismo procura anular a ideia de Deus pela sua presença opressora ou inibidora da liberdade, para José Manuel dos Santos, Deus encarna no próprio homem investido do sagrado através do milagre da sua criação. («Em ti olhei de frente Deus e o milagre/ espelho que me reflecte da cabeça aos pés/ imagem estendida sobre a terra almagre/ onde apenas ao fim tu és aquele que és»)

Mas mais do que o milagre da criação há no Homem o milagre da transformação para uma nova cosmogonia. («É chegada a hora de construíres a catedral do ser/ pedra bruta cinzel razão vontade cuidado/ nada te será negado nada te será dado/ até que surja em ti a luz do amanhecer»).

A pedra bruta é cinzelada pela «sabedoria», «justiça», «humildade». E o poeta declara:

«nada deves ousar nada deves temer

até que em ti se refaça a eterna unidade».

 

O tempo é a dimensão essencial pela qual o homem se refaz e na qual circula no seu eterno retorno.

 

(«um olho é o passado outro o futuro

o unicórnio é o sinal do presente

que progride ao encontro do muro

pedra sobre pedra de tempo assente.»)

 

O tempo gera a vida, a evolução, mas igualmente a morte e esta acaba por gerar de novo a vida.

(«Como o tempo vem da luz

a morte gera o que vive»)

 

Mas o tempo que cinzela o homem, gera igualmente os grandes valores expressos na pintura, na escultura, na arquitectura, no cinema, na fotografia, na ciência, no teatro, na dança, na música, no romance. E a cada uma destas actividades o autor dedica um poema.

Nestes poemas, no âmbito do real, exprimindo os vários saberes e actividades e valorizando as figuras que os representam, o discurso poético torna-se mais claro, mais acessível à interpretação, embora nunca perca a dimensão estética e a representação simbólica.

Sobre cinema, o autor escreve um curioso poema, em que exprime o seu significado, quase de uma forma cartesiana, superando-a, porém, em subtileza.

 

«Como se o tempo fosse o da sua imagem

isolado por dentro fracturado por fora

tacteia no gesto a suspensa linguagem

até que os planos o fixam agora.

 

Máquina abstracta que gera o concreto

Círculo em fita de espaço dual

Rápida passagem do puro objecto

Na luz da imaginação material».

 

E sobre o romance, o poeta descreve a essência ficcional nestas palavras:

 

«Este foi o acordo do homem com o diabo

fazer da realidade o rio do simulacro

vaivém de vestígios presos a um cabo

esqueleto refeito desde o osso sacro.»

 

Depois, o seu olhar dirige-se às grandes figurass da cultura universal como Miguel Ângelo, Kafka, Rembrandt, Vieira da Silva, Mozart, Yourcenar; Rimbaud, Foucault, Raul Brandão, Cesário, Cesariny, Becket, Nietzshe, Paul Celan, Younger, Marie Curie, Jorge Luís Borges, Natália Correia e Amália Rodrigues.

Todas estas figuras marcaram a sua própria formação e moldaram-lhe a sensibilidade.

Cito apenas um verso ou outro que, de uma forma mais veemente, caracterizam estas personalidades.

Miguel Ângelo:

«O homem voltou a ser criado no momento

em que tu pintavas a Capela Sistina.»

 

Kafka:

 

«Queimar teus livros era o impossível absurdo

Era rasgar-te inteiro e condenar-te ao sacrifício

De eternamente os escreveres desde o início»

 

Vieira da Silva:

 

«O labirinto, a busca perpétua

Ateliers, bibliotecas, cidades

Transparências e densidades

Da luz que na tela flutua

 

Mozart:

 

«Esta música é de esferas rarefeita

no mais secreto a voz de Deus ecoa

(prodígio que Salieri não perdoa.)»

 

Cesariny, poeta inaugural do surrealismo português:

 

«Com largo e distante passo

viajas no universo

(tu e o teu contrário

no reverso do verso

escrito por Cesariny Mário)

a luz levita no espaço

e vê-se olhada ao inverso.

 

Cesário Verde:

 

«No passeio soturna e infectada arrasta-se a puta

à janela as mulheres escandalizadas comem fruta.»

 

Amália:

 

«Que voz é esta que voz

cheia de lumes acesos numa corrida veloz

ao sopro dos gritos presos

no coração de um de nós?»

 

À memória de Natália Correia:

 

«Era o corpo na hora em que cessasse

e ao cessar ainda te abraçasse

a sombra sobe quando a luz desce a pique

e a princesa dorme em Eros e Psique.»

 

Também de referência são os lugares, as paisagens, as cidades, as regiões: os Açores, a Ilha, Lisboa, o Alentejo, São Rafael, Colónia e a bela Veneza.

O amor não é descurado, porque diz o poeta:

 

«Apenas o amor nos transmite o sinal

de que a terra treme e a vida ressuscita.».

 

A morte é outro tema, como espectro inevitável, «vida mergulhada na morte/ do oceano sem fim dessa visão.»

 

A poesia de José Manuel dos Santos segue o percurso da vida, surgindo de associação em associação, como o fluir do pensamento, no seu mecanismo de corte e de prolongamento, descobrindo a sua própria física e ordem das coisas.

Como dizia Natália Correia, que vogou também em águas surrealistas. «O cerne da visão poética é o olho selvagem do poeta.»

Assim o autor nos diz:

 

«Leio o mundo com o em partitura

da esquerda para a direita de cima abaixo

abrindo em claves pela altura

que vai do violino ao contrabaixo

 

Assim me arrumo dentro da estante

Sob lâmpadas de vácuo e filamento

Acesas e apagadas no mesmo instante

Em que se dá o sismo do pensamento.»

 

Termino interrogando:

Que poesia é esta, que poesia é esta, densa, cerebral, por vezes hermética, abrindo-se logo depois, como um lago manso e transparente, numa escrita dócil, lírica, enredando-se em seguida numa teia obscura de palavras e sons?

De uma coisa, porém, estou certa. Esta poesia, escrita de uma forma exímia, traz-nos a voz de um poeta de grande qualidade.                         

 

                                                    

                                                                  Elsa Rodrigues dos Santos