José
Neves Henriques
No passado dia 4 de Março faleceu o Dr. José Neves Henriques que foi um dos fundadores da Sociedade da Língua Portuguesa, membro do Conselho Científico desta instituição e, durante quase 50 anos, consultor linguístico, respondendo regularmente com rigor e de uma forma muito pessoal e afectiva no Boletim da Sociedade. Fez igualmente parte, durante vários anos, dos Corpos Sociais, como Vice-Presidente da Direcção, Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal. Foi também consultor linguístico do Ciberdúvidas, desde a sua fundação.
Licenciado em Filologia Clássica pela Universidade de Coimbra, cidade onde nasceu, exerceu a sua docência, durante cerca de 30 anos, no Colégio Militar, em Lisboa.
Autor de várias obras de referência sobre o ensino do português, nomeadamente Comunicação e Língua Portuguesa e muitas outras, algumas delas em parceria com a sua colega e amiga, Dra. Cristina de Melo. Citamos: Gramática de Hoje (Editora O Livro), A Regra, a Língua e a Norma (Básica Editora), As Regras (ibidem), Minha Terra e minha Gente (ibidem), A Língua e a Norma (Plátano Editora).
Foi um dos pilares da Sociedade da Língua Portuguesa, juntamente com José Pedro Machado, já falecido, e Fernando Peixoto da Fonseca que continua ainda hoje a colaborar com a SLP e a responder às perguntas feitas ao Ciberdúvidas, sítio na Internet, sobre as várias questões da língua portuguesa.
Era um filólogo que defendia a pureza da língua, embora aceitasse a sua evolução, mas apenas desde que ela fosse adequada às regras da sua formação. Quanto aos estrangeirismos, a sua intransigência fundamentava-se em relação aos que entravam por um modismo sem consistência, sobretudo se houvesse na língua portuguesa um correspondente muito mais rico e lógico. Curiosamente entusiasmava-se com a formação de neologismos, quando formados com critério.
Deixou três filhos, um rapaz e duas raparigas e vários netos. Uma das filhas, Eduarda Neves Henriques, também professora e filóloga, herdou do pai a sua paixão pela língua portuguesa.
Por todo o saber que transmitiu, com a modéstia própria dos sábios, deixa em todos os que o conheceram uma grande saudade e gratidão.
Passo a citar uma crónica linguística do seu livro Comunicação e Língua Portuguesa, (p.65-67) que me ofereceu com esta dedicatória, escrita com o seu habitual humor: «À colega Dra. Elsa Rodrigues dos Santos ofereço o remédio mais eficaz para quando não tiver sono».
As palavras lembram às vezes as pessoas
Lá isso lembram.
Havia na minha aldeia um pedreiro! Ele era tudo quanto queria nas horas a que chamam vagas.
-Ó ti Zé, bote-me aqui uns pingos nesta
panela
-Ó ti Zé, arranje-me lá esses sapatos do meu filho. Anda-me sempre para aí atrás das latas velhas a pensar que é jogador do Benfica…
E quando se tratava de construir uma casa, fazia finca-pé em ser ele também o carpinteiro. No tempo da enxertia das videiras, lá ia ele de abalada a este ou àquele patrão. E tinha sorte, o dianho do «home»! Ele era tudo, mas na enxertia, cavalo em que prantasse garfo era videira que daí a pouco se esvaziava às golfadas para dentro da pipa.
Pouco culto. Tinha apenas a 3ª classe, mas gostava de ler. Era de inteligência viva e o seu conselho eficaz. E de nobres qualidades. O povo considerava muito o Zé Enxertador. Alguns tinham-lhe respeito quase religioso. Pois ele era umas poucas de coisas... Tudo dependia da situação em que o punham, isto é, para que o chamavam… e das relações que nos seus trabalhos tinha de estabelecer com as outras pessoas. Sabia encarnar a personalidade própria para o trabalho que estava fazendo. Era, portanto, um homem com tal sentido na sociedade, bem definido, conforme a função que desempenhava. No entanto, ele era apenas uma só forma humana - era o Zé Enxertador -, mas que podia desempenhar muitas funções.
Ora com as palavras parece acontecer coisa semelhante – ou não fossem elas, na pequena sociedade de palavras que é a frase, ou na grande sociedade de palavras que é a obra literária – ou não fossem elas, dizia eu, a projecção do próprio homem, que permanece pelos tempos, quando fixada na escrita.
Assim, por exemplo, não sabemos que é a palavra «dente». A que classe de palavras pertence? Que significado tem? Será aquele dente que serve para mastigar, e semelhante nos vários animais? Será aquele outro, do elefante, esguio e curvo, cuja função é diferente? Será dente de uma serra (objecto cortante)? Dente de alho? Dente de qualquer maquinismo? Sei lá! Em vez de substantivo, como nos casos apontados, será ele o verbo dentar? – que eu dente, que tu dentes, que ele dente… Poderá até cair no papel em função de adjectivo, se manejado por mão de mestre, no caso de se querer realçar as qualidades de certos dentes: «Olhem que estes são dentes dentes! É à semelhança desta expressão que às vezes se usa: «Isto é café café!» (=café verdadeiro, bom), ou desta outra que há dias li numa revista:
Sabe também que o cinema cinema está condenado,
E o seu sentido da história leva-o à televisão (…).
Realmente é verdade. Não sabemos que é «dente» como palavra isolada. Ser isto ou aquilo depende da função que estiver desempenhando em determinado momento, isto é, no texto ou, se quisermos, na sociedade das palavras. A palavra em si, no código da língua, nada significa. É preciso dar-lhe actualização, ou seja, passá-la à fala, pô-la em funcionamento na frase – na sociedade das palavras. É como o Zé Enxertador. Ele é apenas uma pessoa. Só quando «funciona», tornando-se, portanto, actual – actual, porque actua – é que o compreendemos, porque vamos sabendo o que ele é na sociedade dos homens em determinado momento: sapateiro, latoeiro, enxertador…
Estou-me agora a lembrar daquele passo do «Frei Luís de Sousa», do nosso Garrett, na cena VIII do acto I, em que Madalena diz assim:
Em tudo o mais sou mulher e muito mulher, querido.
E vá lá a gente afirmar que «mulher» é um substantivo! Aqui funciona como adjectivo. Repare-se até no advérbio muito a superlativá-lo: muito mulher.
Outro exemplo vulgar: «O automóvel desta marca é muito mais carro que o daquela». Aqui temos carro a funcionar como adjectivo, este no comparativo de superioridade e ainda reforçado com o advérbio muito. E quando a mãe, muito enlevada, diz que a sua pequerrucha é muito jóia?
Casos como estes há muitos. Ele há tantos!... e tantos de feição diversa… E há tanta coisa na língua portuguesa para explorar e depois ensinar aos alunos!... sem ser apenas a rigidez da gramática (que não se deve pôr de lado) e a interpretação, às vezes constituída por conversa vazia que pouco aproveita…
Quando nos disporemos a estudar profundamente o nosso idioma, explorando-lhe os recessos mais ocultos, para depois podermos ensinar a Língua Portuguesa (deixem-me escrevê-la com inicial maiúscula) na sua vasta realidade, conscientizando os alunos das potencialidades que ela nos apresenta?
Elsa Rodrigues dos Santos
Bibliografia:
Co-Autores: José Neves Henriques e Cristina de Mello
Gramáticas:
A Língua e a Norma
Gramática Breve
Gramática de Hoje
A Regra
Manuais e Fichas de Trabalho:
Mensagem – 2 volumes
Tempo de Crescer – 2 volumes
Longa É a Estrada Verde
Fichas de Português
Minha
Terra e Minha Gente – 2 volumes