Relembrando um Insigne Defensor da Língua Portuguesa

 

 

José Pedro Machado

( N. em Faro a 08-11-1914 – F. em Lisboa a 26-07-2005 )

 

Por feliz acaso, no início das minhas férias de Verão de 2006, no final do mês de Julho, dei com uma nova Livraria, nas Caldas da Rainha, Martins Fontes de seu nome, assim designada, creio, em memória do distinto escritor brasileiro do século XIX, hoje, porventura pouco conhecido em Portugal. 

Assinale-se, contudo, que foi este escritor brasileiro, Martins Fontes, em tempos, muito lido e elogiado por gradas figuras da cena literária lusitana, como Júlio Dantas (1876-1962), reputada figura pública e conceituado homem de letras, várias vezes Ministro e longos anos Presidente da vetusta Academia das Ciências de Lisboa.

Também lhe teceu copiosos elogios Ferreira de Castro (1898-1974), dos nossos escritores modernos, excluindo naturalmente o nobelizado Saramago, talvez o que maior consagração mundial haja obtido, tendo sido até proposto como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

A sua obra encontra-se traduzida em muitas línguas, em particular, o seu romance «A Selva», livro cativante, pela descrição crua que faz da dura labuta dos homens nos seringais da Amazónia, realidade directamente apercebida por Ferreira de Castro, quando, fugido da pobreza, se achou na pele de jovem emigrante no Brasil, confrontado com novas amargas experiências de vida. 

Já na acolhedora Livraria, entretanto por mim descoberta, tomei conhecimento de um Boletim Cultural, de publicação trimestral, distribuído gratuitamente, intitulado «A Língua Portuguesa», tema tão vasto quanto apelativo e facto agradavelmente surpreendente, numa época que tem descurado por demais o gosto e o culto do idioma de Camões.

 

Logo me veio ao espírito, mais uma vez, o nome de alguém, falecido faz agora um ano, que, entre nós, tanto labutou em favor desse excelso tema. Falo do insigne académico, profundo estudioso e infatigável divulgador da Língua e Cultura Portuguesas, o Dr. José Pedro Machado, por alguns considerado o maior dicionarista português do século XX.

 

Em sua homenagem, referirei, em breve apontamento, certos aspectos mais relevantes da sua vida e obra, com vista a aumentar o seu conhecimento entre os falantes da Língua Portuguesa, nos vários continentes onde ela se implantou e se mantém viva, como língua oficial de oito Países que constituem, hoje, aquilo que poderíamos apelidar de «Mundo Lusíada», pela sobrevivência de determinadas características culturais de forte afinidade com Portugal, a nossa «pequena casa lusitana», como amorosamente a denominou Camões.

 

Daqui, do extremo ocidente do continente europeu, desta estreita faixa de terreno da Península Ibérica, a tal «ocidental praia lusitana», igualmente na formosa expressão do Vate, prodigamente, pelo vasto Oceano, se foram disseminando, sobretudo a partir dos Grandes Descobrimentos Marítimos, nos distantes séculos XV e XVI, essas singulares características de civilização e de cultura que, por intensa miscigenação com os diferentes povos entrados em contacto com os Portugueses, acabaram por resistir às vicissitudes da História, originando um património cultural comum com identidade reconhecida.

 

Para além daqueles mencionados hipotéticos destinatários, seria outrossim desejável que estas breves notas atingissem outros possíveis leitores, nos diversos lugares do Mundo em que a Língua Portuguesa é estudada, como Língua de Cultura, e até naqueles recantos do globo onde permanecem vestígios da sua presença, nos falares locais - crioulos de base portuguesa – de algumas regiões do Índico, nas costas da Índia, Malásia e da China. Na verdade, tão longe e com tal vivacidade se transplantou e vingou esta «última flor do Lácio», no elegante poético dizer de Olavo Bilac.

 

José Pedro Machado, a figura académica aqui evocada, nasceu na cidade de Faro, no Algarve, em 8 de Novembro de 1914. Ainda criança, acompanhando a deslocação do pai, militar da Marinha, fixou-se em Lisboa, cidade em que viveu a quase totalidade da sua extensa vida, e de que pode ser justamente chamado filho adoptivo, sem que isso signifique, todavia, que haja esquecido ou menosprezado a sua querida província natal, a que sempre dedicou atenção e carinho, como provam os diversos e fecundos estudos que a seu respeito empreendeu.

 

Frequentou, na capital, Liceus prestigiados, como os de Pedro Nunes, Passos Manuel e D. João de Castro, famosos pelo apuro do Ensino neles ministrado, bem como pela categoria dos docentes que neles pontificavam, exigentes e competentes, por regra. Estudou depois na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica, em 1938, com altas classificações.

 

Aí teve, como mestre o notável arabista David Lopes, Professor que, na Universidade Portuguesa, introduziu e impulsionou os Estudos de Língua e Cultura Árabes, área em que José Pedro Machado se haveria de distinguir. Outro reputado mestre que aí encontrou foi o erudito Professor, José Leite de Vasconcelos, que haveria também de exercer profícua influência na formação intelectual do jovem Pedro Machado.

 

Analogamente, na mesma Faculdade, conheceria aquela que se tornaria sua esposa, a Doutora Elza Paxeco, brasileira de nascimento, mulher de elevada craveira intelectual, com ele co-autora de trabalhos relevantes de investigação filológica, como a edição comentada do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, antigo Colocci-Brancuti.

 

Por processo algo enviesado, ainda hoje mal esclarecido, viriam ambos a interromper a sua carreira universitária, muito perdendo com isso, comprovadamente, a Universidade Portuguesa, que assim se viu privada do concurso de tão habilitados pesquisadores. Ambos continuaram, apesar das circunstâncias adversas, a desenvolver os seus múltiplos trabalhos de interesse filológico, embora, lamentavelmente, sem contar com os apoios adequados, que o ambiente universitário lhes poderia proporcionar.

 

José Pedro Machado, tendo-se tornado Professor Efectivo do Ensino Técnico, carreira em que atingiu invulgar notoriedade, como o testemunham os milhares de alunos e professores que com ele conviveram, não deixou, entretanto, de prosseguir, em simultâneo, uma frutuosa carreira de investigador de temas filológicos, distinguindo-se notavelmente nas áreas da Etimologia, da Lexicologia, da Lexicografia e da História da Língua Portuguesa, em geral, em que firmaria sólida reputação, profusamente atestada em numerosas obras ímpares que foi laboriosamente compondo ao longo de uma vida de proficiente estudo e trabalho.

 

De entre elas, cumpre destacar, por incontestável relevância, o seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, em cinco volumes, começado a publicar em 1952 e concluído no início dos anos 60 ; o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, em três tomos ; a sua tradução, directamente do árabe para português, do livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, obra enriquecida com abundantes notas explicativas em matérias afins da Filologia, como a História, a Geografia, a Literatura, a Religião, quer do mundo islâmico, quer do cristão ; a sua elaboração ou coordenação, ao longo de decénios, de muitos Dicionários afamados da Língua Portuguesa, entre eles o sempre referenciado Dicionário de Morais, da autoria de um brasileiro, António de Morais Silva, Bacharel em Direito, pela Universidade de Coimbra, considerado o primeiro dicionário inteiramente dedicado à Língua Portuguesa, continuamente actualizado, desde 1789, tendo a sua 10ª e última edição, de 1959, saído em 12 grossos volumes,  profundamente revista, corrigida e muito aumentada, com abundantíssima cópia de abonações de escritores clássicos para explicação dos termos aí compilados, num trabalho em que colaboraram também os estudiosos Augusto Moreno e Cardoso Júnior ; o Grande Dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa, igualmente em vários volumes, etc.

 

Muitas outras obras e intervenções culturais avulsas, em revistas especializadas e jornais comuns, haveriam de confirmar Pedro Machado como Filólogo de largo fôlego, competente e probo, de inquebrantável dedicação profissional, ultrapassando, com raro aprumo, carências, dificuldades e até incompreensões de vária ordem.

 

Na década de 90, a sua coluna semanal no Diário de Notícias votada ao esclarecimento de temas da Língua Portuguesa, mantida por vários anos consecutivos, logrou enorme aceitação popular, atraindo para o tema numeroso público, numa prova cabal de que também a Cultura de cunho mais clássico pode competir com o entretenimento comum, desde que lhe sejam atribuídos espaço adequado e intervenção qualificada, como era inequivocamente o caso. Infelizmente, o jornal não soube ou não pôde preservar e acarinhar, como se impunha, tão categorizada colaboração.

 

Mesmo assim, ainda promoveu o Diário de Notícias, em boa hora, pela sua empresa associada, a Editorial Notícias, a edição de quase uma dezena de obras de José Pedro Machado, em que ficou reunida alguma da sua múltipla intervenção cultural dispersa em órgãos da imprensa regional e nacional, que, de outro modo, continuaria fora do alcance dos leitores comuns.

 

Tudo isto, sem quebra de compromissos, nas diversas funções, que, em concomitância, desempenhava: Professor do Ensino Secundário, Educador, como Pai, no seio da sua família, Esposo e Cidadão de irrepreensível comportamento ético. Segundo um divulgado cálculo seu, teria leccionado a cerca de 10 000 alunos, ao longo da sua extensa vida de Professor, neles conquistando imenso número de amigos e admiradores, com quem manteria depois fortes e proveitosas ligações intelectuais e afectivas.

 

Apesar de não lhe ter sido dispensada a distinção social que a sua categoria intelectual e cívica amplamente justificaria, José Pedro Machado, recebeu, todavia, algumas honrosas provas de consideração e estima, por parte de Instituições e Academias que souberam suscitar a sua colaboração. Mencione-se, entre outras, a sua pertença às seguintes Agremiações:

 

-          Academia Portuguesa da História, na categoria do Académico de Mérito;

-          Instituto Histórico e Geográfico de S.Paulo, Brasil;

-          Academia Brasileira de Filologia;

-          Real Academia de la História, Espanha;

-          Academia Real Sueca de Belas-Artes, História e Antiguidades;

-          Sócio de Honra da Sociedade da Língua Portuguesa de Lisboa

-          Etc.

 

José Pedro Machado, falecido em 26 de Julho de 2005, foi agraciado com o Grau de Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública, em 1996 e com a medalha de Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura do Governo Português, em 1999, sob proposta da Academia Portuguesa da História, que também lhe promoveu, no ano de 2004, uma significativa homenagem em sessão pública, na qual lhe foi atribuído o grau de Académico de Mérito daquela Instituição.

 

No entanto, deve reconhecer-se que, em comparação com outras figuras nacionais prodigamente condecoradas, algumas de escassos ou mesmo duvidosos méritos, tanto intelectuais como éticos, José Pedro Machado não recebeu, em vida, as honrarias que justificadamente merecia. Ainda que postumamente, cumpriria às Entidades Oficiais, presentemente em exercício, efectuar tão justa reparação, gesto que, entre os muitos amantes da Língua Portuguesa, despertaria por certo as suas mais calorosas congratulações.

 

A bibliografia de José Pedro Machado é composta por centenas de obras, opúsculos, artigos e publicações variadas. Estas últimas permanecem ainda em grande parte dispersas, pelas muitas revistas e jornais em que José Pedro Machado colaborou ao longo da vida, aguardando oportuna averiguação de investigador idóneo e paciente, determinado a meter ombros a tão meritória quanto necessária tarefa.

 

O maior tributo que todos lhe poderemos prestar será o de lermos e estudarmos a sua vasta obra. Com tal propósito, não só sairemos altamente beneficiados, como estaremos contribuindo, na nossa modesta medida, para a grande Empresa da Defesa e Ilustração da Portuguesa Língua, para concluir, fazendo uso de expressão muito cara a um nosso ilustre varão renascentista, o sempre citado Dr. António Ferreira. 

 

Honra, pois, à grata memória de José Pedro Machado.

 

 

Breve nota do Currículo e da Bibliografia do Dr. José Pedro Machado bem como das Agremiações Culturais de que era Membro.

 

 

Currículo abreviado :

 

- Licenciatura em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1938.

- Curso de Ciências Pedagógicas, pela Universidade de Coimbra, em 1940.
- Membro da Comissão de Redacção do Vocabulário e do Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (1938-1940).
- Assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1942-43.
- Professor Efectivo do Ensino Técnico, na Escola Industrial Afonso Domingues, mais tarde Escola Secundária Afonso Domingues.
- Director em exercício da Escola Industrial Afonso Domingues.

Membro das seguintes Agremiações Culturais :

- Academia Portuguesa da História.
- Sociedade Euclides da Cunha ( Paraná ).
- Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo.
- Academia Brasileira de Filologia.
- Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
- Academia Nacional de la Historia ( Venezuela ).
- Real Academia de la Historia ( Espanha ).
- Academia Real Sueca de Belas-Artes, História e Antiguidades.
- Academia de Marinha ( Lisboa ).
- Sócio de Honra da Sociedade da Língua Portuguesa.

 
Bibliografia :

- Alguns Vocábulos de Origem Arábica, 1939.
- Contemplação de S. Bernardo Segundo as Seis Horas Canónicas do Dia ( Texto do séc. XV).
- Comentários a Alguns Arabismos do Dicionário de Nascentes, 1940.
- Curiosidades Filológicas, 1940.
- Sintra Muçulmana, 1940.
- Évora Muçulmana, 1940.
- Gonçalves Viana, 1940.
- O Português do Brasil, 1942
- Elementos Hispânicos do Vocabulário Latino, 1943.
- Descobrimentos Portugueses, colaboração na monumental edição do Dr. João Martins da Silva Marques, seu Professor na Universidade, 1944.
- As Origens do Português, 1945.
- Breve História da Linguística, 1945.
- Origem da Língua Portuguesa de Duarte Nunes de Leão, 1945.
- Bases da Nova Ortografia, 1946.
- Cancioneiro de Évora, 1951.
- Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1952.
- Os Estudos Arábicos em Portugal, 1954.
- Gramática da Língua Portuguesa de João de Barros, 1957.
- Influência Arábica no Vocabulário Português, 1958.

- Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, em 12 volumes, 10.ª edição, revista, corrigida, muito aumentada e actualizada, em colaboração com Augusto Moreno e Cardoso Júnior, 1959.

- Dicionário do Estudante, 1960.
- Os Mais Antigos Arabismos da Língua Portuguesa, 1961.
- Notas de Toponímia Portuguesa, 1962.
- Notas Etimológicas, 1963.
- Edição Comentada do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, em oito volumes, em parceria com sua esposa, Elza Paxeco Machado, 1947-1964.
- Nótulas de Sintaxe Portuguesa, 1965.
- Elementos Arábicos no Vocabulário Técnico dos « Colóquios» de Garcia d’Orta, 1963.

- Cartas Dirigidas a David Lopes, coordenação e notas, 1967.
- Topónimos Estrangeiros em Fernão Lopes, 1967.
- Acerca do Nome Árabe de Lisboa em colaboração com Elza Paxeco, 1968.
- A Viagem de Vasco da Gama, de parceria com Viriato Campos, 1968.
- Ensaio sobre Faro no Tempo dos Mouros, 1971.
- Dicionários – Alguns dos seus Problemas, 1971.

- Dispersos de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, em 3 volumes, 1969-1972.
- Tradução directa do Árabe do Alcorão, edição crítica, profusamente anotada e comentada, 1979, edição da Junta de Investigações Científicas do Ultramar.

- Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 1981.
- Notas Camonianas, 1982.
- Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 1984.
- Factos, Pessoas e Livros, 4 volumes, colectânea de artigos publicados no Boletim dos Serviços Bibliográficos da Livraria Portugal, desde 1953 a 1990. A publicação do 5º volume, contendo os artigos elaborados de 1991 até Maio de 2005, encontra-se no prelo.
- Vocabulário Português de Origem Árabe, Editorial Notícias,1993.
- Ensaios Arábico-Portugueses, Editorial Notícias,1994.
- Ensaios Literários e Linguísticos, Editorial Notícias, 1995.
- Palavras a Propósito de Palavras – Notas Lexicais, Editorial Notícias, 1995.
- Estrangeirismos na Língua Portuguesa, Editorial Notícias,1996.
- Ensaios Histórico-Linguísticos, Editorial Notícias, 1996.
- O Grande Livro dos Provérbios, 1998.
- Breve Dicionário Enciclopédico da Língua Portuguesa, Dom Quixote,1999.
- Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, Âncora, 2000.

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António Blanco

Eng. Electrotécnico (IST) - Membro da Direcção da Associação dos Antigos Alunos da Escola Industrial Afonso Domingues, sita em Marvila, Lisboa.