José Rodrigues dos Santos nasceu em 1964 em Moçambique. É conhecido sobretudo como jornalista da RTP, tendo ocupado por duas vezes o cargo de Director de Informação. Doutorado em Ciências da Comunicação, é igualmente Professor da Universidade Nova de Lisboa. Galardoado com dois prémios do Clube Português de Imprensa e três da CNN, tem várias publicações de ensaio no âmbito da Comunicação e da Crónica de Guerra.

   Na Ficção publicou os romances:

A Ilha das Trevas

A filha do Capitão

O Códex 632

A Fórmula de Deus

 

 

 

José Rodrigues dos Santos

O Codex 632                                             por Elsa Rodrigues dos Santos

Lisboa, Gradiva, 2006

 

 

José Rodrigues dos Santos, fazendo uma incursão pelo romance histórico, como acontece, aliás, na sua restante obra de ficção, sobrepõe uma técnica característica do romance policial, na medida em que a acção se encontra envolta numa névoa de mistério, seguindo a personagem principal inúmeras pistas até à solução dos enigmas. É evidente também que não é alheia a sua formação quer de investigador como de jornalista.

A acção anda à volta de uma investigação no âmbito dos descobrimentos, incumbida a um velho historiador que morre subitamente no Rio de Janeiro, fulminado por um ataque de coração.

Tomás Noronha, Professor da Universidade Nova de Lisboa e perito em criptanálise e línguas antigas, é contratado para prosseguir o trabalho do professor falecido. Nesse sentido, recebe um convite da Fundação Americana de História para ter uma reunião em Nova Iorque. Interrompe, então, as suas aulas na Universidade, onde dias antes acabava de chegar uma nova aluna de nacionalidade sueca, muito bonita, que logo nos primeiros momentos se insinua no professor.

Este é casado e tem uma filha com o síndrome de Down. A propósito desta deficiência da filha, o autor aproveita para criticar o sistema escolar que, na verdade, não dá resposta nas escolas a casos como os desta criança, não colocando professores do ensino especial, por falta de verbas, o que melhoraria substancialmente a sua evolução. Assim, os pais vivem angustiados com o futuro da filha, porque desejam muito que ela se sinta feliz

Noronha parte para Nova Iorque e é hospedado no Waldorf Astória, um luxuoso hotel, onde os Duques de Windsor tinham vivido. Depois, é recebido pelo Presidente da referida Fundação, no seu sumptuoso escritório, onde se apercebe não só da riqueza desta instituição como da do próprio Presidente que, em conversa, diz possuir na sua residência um quadro original de Pollock e outro de Mondrian.

O Presidente explica que tinha encarregado o Professor Toscano da Faculdade de Letras de Lisboa a investigar se Pedro Álvares Cabral descobrira o Brasil por acidente ou de propósito. Sobre esta matéria muita coisa ficara no segredo dos deuses pela política de sigilo do sec. XV.

Caracterizando o Prof. Toscano, o Presidente afirma que ele não era um investigador que se mantivesse apenas dentro dos limites da sua área de investigação, pois sendo um tanto indisciplinado, seguia pistas que, embora interessantes, se revelavam irrelevantes para o estudo que tinha em mãos.

Este dado constitui um indício a ter em conta para o desenvolvimento das investigações que iriam ser realizadas e que não passará despercebido pela perspicácia não só da personagem Tomás Noronha, como da do próprio leitor que, numa obra como esta, é implicitamente convidado a fazer parte da investigação. O próprio autor declara numa entrevista que «o mais importante era pôr as pessoas a pensar».

Prosseguindo a conversa, o Presidente da Fundação afirma ainda que o Professor Toscano chegara a comunicar que tinha feito uma descoberta importantíssima que iria mudar tudo o que se sabia sobre os Descobrimentos, constituindo uma verdadeira revolução. E aqui temos outro indício a considerar.

O leitor, tal como a personagem, perguntar-se-á qual seria o acontecimento mais importante da época dos descobrimentos dado como inequivocamente certo que poderia ser posto em causa.

O Professor Toscano morrera sem deixar nenhuma indicação e o problema é que teriam de apresentar o resultado da investigação num prazo de três meses. Noronha terá de ir ao Brasil retomar a investigação do Professor falecido que deixara enigmas cifrados com as respectivas chaves, mas as ocultara.

No Rio de Janeiro, Noronha vai à Embaixada de Portugal encontrar-se com o Cônsul que lhe oferece um requintado almoço. E à maneira queirosiana, o autor detém-se em detalhadas descrições, quer do belíssimo palácio da Embaixada, quer do próprio almoço, desde a apresentação da mesa às iguarias oferecidas. No mesmo estilo, já o fizera de forma finíssima, descrevendo o luxuoso Hotel Waldorf Astória em Nova Iorque.

O Cônsul fala-lhe das pesquisas do Professor Toscano na Biblioteca Nacional e no Real Gabinete de Leitura. Apresenta-lhe a fotocópia de vários apontamentos deixados pelo Professor. Entre eles, havia um papel com uma estranha inscrição que tinha sido encontrada dobrada na carteira do Professor:

O autor explica a diferença entre código e cifra. Código é uma substituição de palavras por outras, enquanto a cifra implica a substituição de letras.

Noronha vai consultar a imponente Casa Real de Leitura que é também descrita na sua fabulosa estrutura. Verifica que o Prof. Toscano perseguia a investigação conclusiva relativamente às velhas suspeitas dos historiadores de que Pedro Álvares Cabral se tinha limitado a oficializar o que, antes dele, tinham descoberto em segredo, e que não fora divulgado devido à política de sigilo à volta das Descobertas. Política que, entre muitos factos, silenciara o feito de Bartolomeu Dias, que atravessara o Cabo da Boa Esperança e descobrira a passagem do Atlântico para o Índico. Fora Cristóvão Colombo que estava em Lisboa, por ocasião do regresso de Bartolomeu Dias, que revelou depois ao mundo tão extraordinário acontecimento.

E o autor explica as razões da política de sigilo:

«Os portugueses eram um povo pequeno e com recursos limitados, não seriam capazes de competir com as grandes potências europeias, em plano de igualdade, se todos partilhassem a mesma informação. Eles percebiam que a informação é poder e, conscienciosos, guardaram-na com grande avareza, preservando, assim, o monopólio do conhecimento sobre esta matéria estratégica para o seu futuro.

«É certo que o silenciamento não era total», diz o autor, «mas selectivo, ocultando apenas determinados factos sensíveis. (…) Havia situações em que, pelo contrário, até era conveniente publicar as descobertas, uma vez que a prioridade da exploração de um território era o primeiro critério na reivindicação da sua soberania.» Deste modo, «muitas das mais importantes navegações dos portugueses foram silenciadas pelos superiores interesses do Estado.»

E o autor prossegue com várias considerações no que dizem respeito à descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral e à política de sigilo que obrigou ao silenciamento de muitos factos e de que a célebre carta ao Rei D. Manuel de Pêro Vaz de Caminha, cronista que acompanhou o navegador, é indicadora, pois o cronista não manifesta surpresa por se ter encontrado terra naquelas paragens, o que leva a crer que a descoberta pode não ter sido acidental, mas já conhecida anteriormente.

   São, pois, considerações históricas que atestam o interesse do autor e a sua investigação e que entrosam com os acontecimentos ficcionados.

 

Noronha regressa a Lisboa e ao retomar as aulas na Universidade vai ser assediado pela aluna sueca que o convida a ir jantar a sua casa. À descrição do apartamento da lindíssima jovem que se apresenta de uma forma bastante provocante e convidativa, ao pormenor da sopa de peixe à moda norueguesa se alia a cena erótica que se vai desenrolar, envolvendo-os em sexo e paixão, que irá ter consequências muito complicadas na vida do incauto professor, ao nível familiar.

Na verdade, esta relação, que se tornará cada vez mais obsessiva, desestabilizará a vida conjugal de Noronha com sua mulher, que, ao aperceber-se da situação, não está disposta a perdoá-lo.

A separação é inevitável o que causará transtornos terríveis na sua vida, não só economicamente, como emocionalmente, porque ele nunca deixou de gostar da mulher que é muito bonita, culta, inteligente, com personalidade e, além disso, eles têm uma filha que necessita de atenção e cuidados especiais.

A investigação de que ele foi incumbido vai prosseguir e, de pista em pista, acaba por desembocar noutra direcção a partir da cifra que se encontrava entre os papéis do Prof. Toscano e que Noronha acaba por decifrá-la, descobrindo, em última análise, o nome de Cristóvão Colombo.

Segue, assim, a investigação à volta deste navegador, desvendando o segredo mais bem guardado dos Descobrimentos – a identidade de Colombo, baseada em documentos históricos genuínos como o Códex 632. Conclui-se, então, que Cristóvão Colombo era um fidalgo português, eventualmente de origem judaica, ligado à família do Duque de Viseu. Foi um dos conspiradores contra D. João II, sendo assim obrigado a fugir para Espanha à qual se tinha aliado. Aí muda o nome de Cólon para Cristóbal Cólon e decide ocultar o passado com a conivência dos próprios Reis de Espanha. Servindo-se dos conhecimentos marítimos adquiridos em Portugal irá oferecer-se para empreender a grande viagem que o levará à Descoberta da América. Foi tão bem guardado o segredo da sua identificação que toda a gente aceitou os boatos de que ele era genovês.

A nível da narrativa, Noronha acaba por se afastar de Lena, a sueca, por ter ficado extremamente abalado com a separação de sua mulher, compreendendo o valor que a família tinha para ele. Já no final da acção, fica a saber que Lena afinal era Emma e fora contratada pela Fundação Americana de História para o seduzir a fim de controlar-lhe as investigações.

Entretanto, Margarida, a filha de Noronha adoece gravemente com uma leucemia e acaba por falecer, não resistindo ao transplante da medula a que foi submetida. Esta tragédia vai unir os pais, depois de tentarem cortar com o passado.

 

José Rodrigues dos Santos revela-se um escritor de garra, porque consegue, ao longo das suas 550 páginas manter o leitor interessado, sem perda de ritmo, introduzindo elementos ou segmentos narrativos, quer ao nível da História, quer ao nível da ficção, que contribuem para um gradual crescendo de interesse. Aliás, é o próprio autor que afirma numa entrevista a que já me referi: «Para mim, um bom livro é aquele em que nos esquecemos das palavras para vermos as situações.»

É justo, porém, que se diga que o autor nem por um segundo se esqueceu das palavras, isto é, do estilo que nele é bem depurado, usando de um discurso de grande propriedade, fluidez e transparência, constituindo uma qualidade de notável relevância.