A Língua Portuguesa e o bilinguismo em Cabo Verde,

com as minhas saudações a Ondina Ferreira

 

Elsa Rodrigues dos Santos

 

 

   Chegou-me às mãos através de José Luís Hopffer de Almada, reconhecido poeta e ensaísta cabo-verdiano, o artigo de Ondina Ferreira, publicado no Expresso das Ilhas, em 24/01/07 intitulado «Bilinguismo? Como?».

   A estas interrogações, Ondina Ferreira, escritora cabo-verdiana e ensaísta de mérito, faz uma análise muito lúcida e despida de preconceitos sobre o estado da língua portuguesa em Cabo Verde e da política que tem presidido aos seus desígnios, após a Independência.

   Interessou-me este artigo não só pelos laços afectivos que me unem a Cabo Verde, como pela actividade na Sociedade da Língua Portuguesa, instituição que tem como objectivo a preservação e divulgação do Português no mundo, mas, muito especialmente, pela docência a que me dediquei durante longos anos da minha carreira profissional, quer no Ensino Secundário, quer na Universidade, onde tive oportunidade de contactar com alunos oriundos ou descendentes dos vários países africanos.

   Recordo, assim, os quatro anos que acompanhei uma turma quase inteiramente de cabo-verdianos, no Curso de Licenciatura de Estudos Lusófonos. Estes estudantes, todos bolseiros, vinham pela primeira vez a Portugal, onde encontraram, nos primeiros anos, grandes dificuldades de adaptação ao meio, pelos escassos recursos económicos de que dispunham, o que podendo prejudicar o seu rendimento escolar foi, no entanto, ultrapassado por uma forte determinação e força de vontade.

   Frequentavam então o Curso de Estudos Lusófonos, curso que começou e se extinguiu com eles, no final da sua licenciatura, porque a Universidade privada que os acolheu não teve depois a capacidade de o dinamizar e de proporcionar, como prometera, um auspicioso futuro a este curso com tantas potencialidades.

   Deste modo, ficaram estes jovens com uma licenciatura sem vínculos e tradição, embora com um elenco de disciplinas que os preparou para a carreira docente, como ainda para outras áreas do trabalho, nomeadamente para a gestão e diplomacia.

   Confrontei-me, então, quer na disciplina de Língua Portuguesa, quer na de Literaturas Africanas, com um grupo de cerca de vinte e oito alunos, sendo apenas dois angolanos e três portugueses e os restantes cabo-verdianos em que, sobretudo estes últimos apresentavam enormes lacunas ao nível da língua. Apercebia-me de que todos eles se comunicavam entre si em crioulo e que transferiam a estrutura do sistema linguístico cabo-verdiano para o português, nomeadamente nas formas de tratamento (Sra. Doutora, tu podes-me explicar…), como na sintaxe e na estrutura da frase, sobretudo nas concordâncias.

   Foi necessário um trabalho muito intenso no âmbito da escrita, compartilhado por todos os professores que tinham por estes alunos uma particular estima.

   Eles próprios confessavam as suas imensas dificuldades, explicando que a maioria dos professores, especialmente no interior de Santiago, ensinavam o português e as outras disciplinas em crioulo naturalmente para se fazerem compreender.

   Hoje, muitos deles estão já a leccionar nas várias ilhas no Ensino Secundário, e esperemos que em bom português, pois que, entretanto, conseguiram atingir um grau de competência que os torna responsáveis.

   Esta experiência leva-me a meditar em dois aspectos:

    Primeiro, longe vai o tempo em que os jovens saíam do Liceu ou do Seminário em Cabo Verde com uma preparação quase universitária, a nível da língua, patente na publicação das revistas que fundaram, nos últimos anos do liceu ou logo após a sua saída, como Claridade, Certeza ou mesmo Seló e Juventude em Foco, revistas das quais saíram os maiores nomes da literatura cabo-verdiana. Essa preparação e a forma correcta como este povo insular falava e escrevia transmitiram-se a gerações e gerações, o que levava a serem os cabo-verdianos respeitados e até invejados nas outras então colónias para onde, muitas vezes, iam trabalhar, sobretudo na administração pública, em que eram quase sempre preferidos pela sua cultura e forma como se expressavam.

   O segundo aspecto, remontando aos anos trinta, foi a deplorável e absurda proibição de se falar crioulo nas escolas por se considerar pernicioso na aprendizagem do português *, proibição que, da parte do poder colonial, tinha a intenção de ferir a identidade cabo-verdiana, que sempre fora tão forte, tentando cortar os laços maternos com a língua de berço e de afecto. No entanto, a criança cabo-verdiana soube contornar esta determinação, nunca deixando de usar o crioulo, quer em casa, quer às escondidas na escola, com risco das reguadas (contava-me a minha velha criada nascida na Boa Vista) falando-o com tanta fluência, como bem se exprimia em português, aprendendo a velha gramática e aplicando-a.

   E isso porque a criança sabia discernir uma língua da outra, numa idade em que isso é fácil, exactamente porque possuía os alicerces quer duma, quer doutra num bilinguismo natural. Apercebia-se de que o crioulo provinha do português, em forma simplificada e adocicada pela sabedoria, a imaginação e o espírito lírico do povo. Sabia como só o crioulo dava verdadeiro sentido às suas velhas canções, as maviosas e sentimentais mornas, as alegres e espirituosas coladeiras e, mais recentemente, ao funaná e a outras expressões musicais, canções imortalizadas pelos grandes poetas e pela voz dos seus inúmeros cantores. Mas sabia também que, a par deste precioso património, existia uma riquíssima literatura cabo-verdiana expressa em finíssimo português.

   Tudo o resto, o que se passou após a Independência por motivações políticas, conforme explicita Ondina Ferreira no seu importantíssimo depoimento, foi fruto da onda revolucionária que, quer queiram ou não, foi absolutamente inevitável e natural, após séculos de cativeiro colonial. Cometeram-se erros que ainda hoje têm uma factura muito pesada na sociedade cabo-verdiana.

    Mas o que aconteceu em Cabo Verde verificou-se também em Portugal, onde se veio a assistir, depois do 25 de Abril de 74, a uma degradação na aprendizagem do português, devido a vários factores, não só às políticas da língua, às várias metodologias que se ensaiavam, muitas delas contraditórias, como à própria transformação da sociedade. Recentemente, lançaram-se, quase em desespero de causa, a célebre TLEBS (Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário) tão contestada pela sua complexidade que, entretanto, foi suspensa para revisão.

   Estou em crer que carecemos todos nós de uma planificação séria e muito reflectida, ao nível do ensino da língua e dos seus programas que permita transpor esta situação.

   Em relação a Cabo Verde, acreditamos que hoje, num clima de calma e de ponderação, os políticos, os intelectuais e os professores saberão proteger os seus patrimónios, o português e o crioulo, porque a nobilitação de um obriga à nobilitação do outro.

    Um povo é tanto mais rico quanto mais significativo(s) for ou forem o seu ou seus património(s) linguístico(s), projectando-o no mundo e na cultura universal.

 

* Veja-se Notícias de Cabo Verde, São Vicente, 21 de Junho de 1934, «Questões de Linguagem»