Leituras Ociosas
Como já tenho confessado noutras ocasiões, debato-me com
o problema angustiante de possuir farta biblioteca, para a minha escala e posses,
evidentemente, e escasso tempo para tirar proveito dos seus enormes benefícios.
Tenho-a repartida por vários locais e, com frequência,
transporto livros de um para outro lado, consoante as prioridades do momento.
Isto tem inconvenientes óbvios. Quando penso que nem tão
depressa vou precisar de ler este ou aquele livro, removo-o da minha
proximidade. Passado pouco tempo, porém, logo me surge a necessidade de o
consultar, por qualquer motivo prático inesperado ou por mera saudade da sua
fruição.
Sofre esta dura pena, quem muito gosta de livros e os
acumula desde a adolescência, aquela fase da absoluta voracidade de
conhecimento, em que as preferências se multiplicam e se entrechocam,
dificultando a fixação dos nossos interesses.
Hoje, o problema do discernimento dos interesses está em
grande parte ultrapassado. Mas sobreveio outra aflição: a absoluta falta de
tempo para ler e apreender tudo aquilo que estes numerosos nossos amigos, que
são os livros, contêm.
Lá se acham depositados alguns verdadeiros tesouros,
postos por gente muito diversa, que despendeu o seu precioso tempo para no-los
oferecer e ali estão, generosa e pacientemente, à espera da nossa visita, em
muitos casos obrigatoriamente demorada, e daí o problema do tempo, que só tem
um sentido para nós.
A partir de certa faixa etária, começamos mesmo a sentir,
com plena acuidade, a sua mais cruel característica, a da sua progressiva,
inexorável exaustão, com tanta coisa ainda por descobrir, outras por rememorar,
para de novo as fruir.
São estes, creio, sentimentos típicos de quem nasceu na
era da cultura ainda principalmente exaurida nos livros.
Admito que hoje, na voragem da internet e do audiovisual,
para as gerações mais moças, esta relação afectuosa com o livro tenha diminuído
um tanto.
Mas, igualmente creio, que sempre haverá quem leia por
gosto, muito e variadamente, com inclinação algo omnívora, quanto a temas e
autores, dando continuação a esta raça, para alguns exótica, dos que empregam
grande parte do seu exíguo tempo, no longo comércio com os livros, como dizia
Montaigne, insigne exemplo de leitor-escritor, binómio amiúde indissociável.
Pode a muitos espíritos, porventura mais práticos,
parecer desperdício este modo de gastar o limitado tempo de cada um em leituras
de puro ócio e gozo chão, sobretudo numa época que elegeu a busca de riqueza
como principal, se não único objectivo de vida.
Mas asseguro que ele tem também as suas compensações e
uma delas, não despicienda, é livrar-nos das ciladas desse maganão, como lhe
chamava o nosso suave João de Deus, como também, muito antes dele, nos
preveniu, aqui ao lado, o sábio Arcipreste de Hita, no seu famoso «Libro de
Buen Amor» e outro seu compatriota, o esclarecido Quevedo, no conhecido poema
«Poderoso Caballero», que a voz inspirada de Paco Ibanez ajudou a divulgar, há
um ror de anos, noutra encarnação, quando todos estes males do dinheiro nos
pareciam simples de sanar.
Para avivar a nossa memória, deixo aqui os três citados
poemas que virão certamente muito a propósito, no momento actual:
O
Dinheiro
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
- Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
João de Deus ( 1830 – 1896 )
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Poderoso caballero es don Dinero
Madre, yo al oro
me humillo,
él es mi amante y
mi amado,
pues de puro
enamorado
de continuo anda
amarillo.
Que pues doblón o
sencillo
hace todo cuanto
quiero,
poderoso caballero
es don Dinero.
Nace en las Indias
honrado,
donde el mundo le
acompaña;
viene a morir en
España,
y es en Génova
enterrado.
Y pues quien le
trae al lado
es hermoso, aunque
sea fiero,
poderoso caballero
es don Dinero.
Es galán, y es
como un oro:
tiene quebrado el
color;
persona de gran
valor,
tan cristiano como
moro;
que pues da y
quita el decoro
y quebranta
cualquier fuero,
poderoso caballero
es don dinero.
Son sus padres
principales,
y es de nobles
descendiente,
porque en las
venas de Oriente
todas las sangres
son reales.
Y pues es quien
hace iguales
al duque y al
ganadero,
poderoso caballero
es don Dinero.
Por importar en
los tratos
y dar tan buenos
consejos
en las casas de
los viejos
gatos le guardan
de gatos;
y, pues él rompe
recatos
y ablanda al juez
más severo,
poderoso caballero
es don dinero.
Nunca vi damas
ingratas
a su gusto y
afición,
que a las caras de
un doblón
hacen sus caras
baratas;
y pues hace las
bravatas
desde una bolsa de
cuero,
poderoso caballero
es don dinero.
Francisco de
Quevedo (1580-1645)
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Lo que puede el dinero
Hace mucho el
dinero, mucho se le ha de amar;
Al torpe hace
discreto, hombre de respetar,
hace correr al
cojo al mudo le hace hablar;
el que no tiene
manos bien lo quiere tomar.
También al hombre
necio y rudo labrador
dineros le
convierten en hidalgo doctor;
Cuanto más rico es
uno, más grande es su valor,
quien no tiene
dinero no es de sí señor.
Y si tienes dinero
tendrás consolación,
placeres y
alegrías y del Papa ración,
comprarás Paraíso,
ganarás la salvación:
donde hay mucho
dinero hay mucha bendición.
El crea los
priores, los obispos, los abades,
arzobispos,
doctores, patriarcas, potestades
a los clérigos
necios da muchas dignidades,
de verdad hace
mentiras, de mentiras hace verdades.
El hace muchos
clérigos y mucho ordenados,
muchos monjes y
monjas, religiosos sagrados,
el dinero les da por
bien examinados,
a los pobres les
dicen que no son ilustrados.
Yo he visto a
muchos curas en sus predicaciones,
despreciar el
dinero, también sus tentaciones,
pero, al fin, por
dinero otorgan los perdones,
absuelven los
ayunos y ofrecen oraciones.
Dicen frailes y
clérigos que aman a Dios servir,
más si huelen que
el rico está para morir,
y oyen que su
dinero empieza a retiñir,
por quién ha de
cogerlo empiezan a reñir.
En resumen lo
digo, entiéndelo mejor,
el dinero es del
mundo el gran agitador,
hace señor al
siervo y siervo hace al señor,
toda cosa del
siglo se hace por su amor.
Arcipreste de Hita ( Sec. XIV)
AB_Lisboa, 24 de Janeiro de 2009
António Blanco