Língua
falada e língua escrita
Teresa - E hoje de que vamos falar?
Elsa - Das diferenças entre língua falada e língua escrita.
Teresa - E quais são elas?
Elsa - O homem emprega ou pode empregar diferentes vocabulários segundo a situação em que se encontra. O operário não fala como o intelectual, nem este como o campónio, embora todos se entendam. Até mesmo o homem culto utiliza o vocabulário conforme as situações. Se encontra um amigo íntimo, um camarada de escola e se recordam tempos idos utiliza uma linguagem livre, salpicada de termos populares, de forte expressividade,
Se lida com pessoas de cerimónia, emprega um vocabulário e uma construção de frases já mais cuidadas. Se é escritor, as palavras já são mais reflectidas.
Vejamos um exemplo destas três situações:
Na verdade, toda a gente proclamava a insolvência daquele homem.»
No primeiro exemplo, a linguagem é viva, afectiva como a conversação. Empregam-se termos de gíria popular, (meu rico, trouxa, ferrar o cão, caloteiro de marca). No segundo exemplo, a linguagem torna-se fria, mas correcta, evitando qualquer termo da linguagem familiar.
No terceiro exemplo, empregam-se termos da linguagem literária que não são, portanto, do uso corrente (exprobar, arrecear-se, proclamar, insolvência).
Por conseguinte, a língua escrita é, por sua natureza, distinta da língua falada, mais cuidada, pensada, com certo estilo, recorrendo-se a imagens e outros recursos estilísticos que tornem o texto mais belo e expressivo. A língua falada é expontânea e, por isso mais verdadeira, porque reflecte a cultura, a expressividade, o dom da palavra e também as suas dificuldades de expressão.
Quanto à língua escrita, quem não tem dotes de escritor, o melhor é limitar-se a escrever correctamente, porque se rebuscar muito o vocabulário pode cair no ridículo e cometer alguns despropósitos, como não deixa de ser o caso do terceiro exemplo, com termos como «exprobar, arrecear-se, insolvência», que tornou a escrita muito pretenciosa.
Grupos fraseológicos. Frases feitas
Teresa - Então hoje vamos falar de que assunto?
Elsa - Hoje vamos falar dos grupos fraseológicos.
Teresa - E o que são os grupos fraseológicos?
Elsa - Chamamos grupos fraseológicos, idiotismos, frases feitas ou locuções estereotipadas a esses conjuntos de palavras em que os elementos estão intimamente ligados com o fim de exprimirem determinada ideia.
Teresa - Pode dar exemplos.
Elsa - Por exemplo a palavra «cabeça» pode adquirir vários sentidos , sobretudo em ligação com outros elementos do contexto, formando um grupo fraseológico que se especializa para determinado significado.
Na frase «O homem perdeu a cabeça», a expressão «perdeu a cabeça» não se pode decompor. Está especializada para no seu todo significar «enlouqueceu, perdeu o juízo».
O mesmo acontece com a frase: «Deu-lhe agora na cabeça fazer versos. «Deu-lhe na cabeça» designa um capricho súbito, momentâneo.
Na frase: «António é um cabeça no ar» «cabeça no ar» forma uma unidade de pensamento equivalente a «estouvado», «tonto», «leviano».
As partes componentes sacrificam o seu significado individual em benefício do conjunto. Tanto assim é que a locução é considerada um nome masculino. A palavra «cabeça» perde aqui o seu género feminino a favor do grupo fraseológico em que se insere.
Teresa - Portanto, estas frases são as chamadas frases feitas, não é verdade?
Elsa - São frases feitas ou estereotipadas que vêm já do passado da língua e que são muito cómodas de empregar, porque designam ideias certas e comuns e já estão feitas.
Teresa - Se estas frases vêm do passado, naturalmente muitas delas contêm arcaísmos.
Elsa - Exactamente, Teresa, porque tal como disse, se as locuções estereotipadas são uma herança do passado, necessariamente muitas delas conterão arcaísmos, quer de vocabulário, quer de construção, mas isso é matéria para a próxima sessão.
Elsa Rodrigues dos Santos