Língua falada e língua escrita

 

 

Teresa - E hoje de que vamos falar?

 

Elsa - Das diferenças entre língua falada e língua escrita.

 

Teresa - E quais são elas?

 

Elsa - O homem emprega ou pode empregar diferentes vocabulários segundo a situação em que se encontra. O operário não fala como o intelectual, nem este como o campónio, embora todos se entendam. Até mesmo o homem culto utiliza o vocabulário conforme as situações. Se encontra um amigo íntimo, um camarada de escola e se recordam tempos idos utiliza uma linguagem livre, salpicada de termos populares, de forte expressividade,

Se lida com pessoas de cerimónia, emprega um vocabulário e uma construção de frases já mais cuidadas. Se é escritor, as palavras já são mais reflectidas.

   Vejamos um exemplo destas três situações:

 

  1. «-Meu rico, não fosses trouxa! Muitas vezes te disse que tivesses cuidado com aquele tipo. Não fizeste caso e agora ele ferrou-te o cão. Toda a gente dizia que ele era um caloteiro de marca!»
  2. «- Meu caro senhor, foi demasiado confiado. Avisei-o muitas vezes de que deveria desconfiar desse homem. Não me quis crer e agora vê o seu dinheiro perdido. Era voz corrente que ele nunca pagava as dívidas.»
  3. «Fulano exprobou ao amigo a sua imperdoável confiança. Dissera-lhe muitas vezes que se arreceasse daquele indivíduo. Mas o amigo não lhe dera ouvidos e agora sofria os resultados da sua imprudência.

      Na verdade, toda a gente proclamava a insolvência daquele homem.»

   

      No primeiro exemplo, a linguagem é viva, afectiva como a conversação. Empregam-se termos de gíria popular, (meu rico, trouxa, ferrar o cão, caloteiro de marca). No segundo exemplo, a linguagem torna-se fria, mas correcta, evitando qualquer termo da linguagem familiar.

No terceiro exemplo, empregam-se termos da linguagem literária que não são, portanto, do uso corrente (exprobar, arrecear-se, proclamar, insolvência).

Por conseguinte, a língua escrita é, por sua natureza, distinta da língua falada, mais cuidada, pensada, com certo estilo, recorrendo-se a imagens e outros recursos estilísticos que tornem o texto mais belo e expressivo. A língua falada é expontânea e, por isso mais verdadeira, porque reflecte a cultura, a expressividade, o dom da palavra e também as suas dificuldades de expressão.

   Quanto à língua escrita, quem não tem dotes de escritor, o melhor é limitar-se a escrever correctamente, porque se rebuscar muito o vocabulário pode cair no ridículo e cometer alguns despropósitos, como não deixa de ser o caso do terceiro exemplo, com termos como «exprobar, arrecear-se, insolvência», que tornou a escrita muito pretenciosa.

    

 

Grupos fraseológicos. Frases feitas

 

 

Teresa - Então hoje vamos falar de que assunto?

 

Elsa -  Hoje vamos falar dos grupos fraseológicos.

 

Teresa - E o que são os grupos fraseológicos?

 

Elsa - Chamamos grupos fraseológicos, idiotismos, frases feitas ou locuções estereotipadas a esses conjuntos de palavras em que os elementos estão intimamente ligados com o fim de exprimirem determinada ideia.

 

Teresa - Pode dar exemplos.

 

Elsa -  Por exemplo a palavra «cabeça» pode adquirir vários sentidos , sobretudo em ligação com outros elementos do contexto, formando um grupo fraseológico que se especializa para determinado significado.

   Na frase «O homem perdeu a cabeça», a expressão «perdeu a cabeça» não se pode decompor. Está especializada para no seu todo significar «enlouqueceu, perdeu o juízo».

O mesmo acontece com a frase: «Deu-lhe agora na cabeça fazer versos. «Deu-lhe na cabeça» designa um capricho súbito, momentâneo.

  Na frase: «António é um cabeça no ar» «cabeça no ar» forma uma unidade de pensamento equivalente a «estouvado», «tonto», «leviano».

   As partes componentes sacrificam o seu significado individual em benefício do conjunto. Tanto assim é que a locução é considerada um nome masculino. A palavra «cabeça» perde aqui o seu género feminino a favor do grupo fraseológico em que se insere.

 

Teresa - Portanto, estas frases são as chamadas frases feitas, não é verdade?

 

Elsa -   São frases feitas ou estereotipadas que vêm já do passado da língua e que são muito cómodas de empregar, porque designam ideias certas e comuns e já estão feitas.

 

Teresa - Se estas frases vêm do passado, naturalmente muitas delas contêm arcaísmos.

 

Elsa - Exactamente, Teresa, porque tal como disse, se as locuções estereotipadas são uma herança do passado, necessariamente muitas delas conterão arcaísmos, quer de vocabulário, quer de construção, mas isso é matéria para a próxima sessão.

 

                                                                                             

 

Elsa Rodrigues dos Santos