Lucilene Machado

Edgar Cézar Nolasco

 

Claricianas

 

            Diz-nos na apresentação os seus autores, Lucilene Machado e Edgar Cézar Nolasco, dois professores brasileiros da Universidade Federal de Mato Grosso, que “este livro se quer como uma singela homenagem prestada a Clarice Lispector pelos 30 anos da sua morte”

            Esta notável escritora brasileira, (Clarice Lispector) em Laços de Família, 1968, e em A Legião Estrangeira, 1964, deu, na verdade, ao conto, sem ou quase sem enredo, uma dimensão nova, graças à singular capacidade introspectiva que lhe permite analisar a alma humana nos seus mais profundos meandros, tirando ilações das mínimas situações psicológicas, numa linguagem viva, poética, que deixa sempre um espaço à imaginação do leitor.

            Lucilene Machado, Professora de Literatura e Produção de Texto em cursos de graduação na Universidade Federal de Mato Grosso, publicou, entre dezenas de textos, os livros Plântula, O gato pernóstico e O Fio de Saliva.

            Neste livro, intitulado Claricianas que partilha com o seu colega, o prof. Doutor Edgar Cézar Nolasco, revela-se uma belíssima escritora, procurando ir ao encontro do estilo de Clarice Lispector, ou de algo existencial da sua escrita,

            Ao tentar realizar essa colagem, buscando alcançar “aquele lado fantasmático e espectral tanto da literatura da escritora quanto dela mesma”, (segundo palavras suas) recria-se e expõe-se, evidenciando os seus dotes de escritora numa linguagem poética rica e muito segura.

            Fugindo a lugares-comuns, a dialéctica intimista é exercida através da palavra original, por vezes, em belíssimas metáforas, frases curtas, ritmos sincopados, construindo o texto breve, mas penetrando nos escaninhos da alma. “Uma dor sincera que passeia insane sobre minha geografia. Eu amo as pessoas na medida em que elas vão me esquecendo.

            Meu amor é um pedido silencioso de socorro para que voltem e retirem o espinho cravado na carne. Mas as pessoas são medrosas. O mundo jaz no medo. Medo de amar. Fui ao psiquiatra porque tenho fome de amor, ele me ofereceu tranquilizantes.

            Continuo incurável”

            Num discurso em 1ª. pessoa, o seu texto é não só um testemunho introspectivo, quase um diário onde a autora expressa os seus sentimentos mais íntimos, como constitui igualmente um exercício metalinguístico, consciente da palavra e das suas combinações, procurando extrair delas a função poética. ( “Sou especialista em misturar palavras e construir um grande desespero [...] As metáforas são o luxo da minha escrita. Através delas pratico minhas piruetas. A palavra primeira que também é a última se confunde com o real, com o instintivo e vive através do que está atrás do pensamento”).

            É, assim, um trabalho da palavra e sobre a palavra, como comunicação lírica, onde a autora desnuda a sua alma, tentando descobrir simultaneamente a alma de Clarice.

            No mesmo estilo de texto breve e frase curta, Edgar Nolasco escreve a segunda parte do livro. São pequenas narrativas, na 3ª. pessoa onde existe um  fio condutor através da personagem de uma mulher escritora construída à imagem da figura de Clarice Lispector. O autor assume-se como um narrador omnisciente, conhecendo os seus estados de espírito, as suas intenções, o “pathos” em que se debate esta personagem feminina no seu dia-a-dia em confronto consigo própria e com outras personagens que contextualizam socialmente a acção.

            As situações vão-se sucedendo, descortinando-se o carácter complexo e obstinado da personagem, e ao mesmo tempo desconcertante, testemunhando quase sempre os pequenos episódios de uma forma imprevisível a atestar a capacidade do autor e o poder de observação.

            Dir-se-ia que Edgar Nolasco conta histórias do absurdo, mas o que é a vida, afinal, senão um grande absurdo?

            Este livro, pois, não se constitui apenas numa homenagem aos 30 anos da morte da Clarice Lispector, mas reitera a qualidade que foi sempre apanágio da literatura brasileira, feita e refeita até aos dias de hoje por grandes figuras da arte de escrever e de efabular.

            Lucilene Machado e Edgar Cézar Nolasco são seus dignos representantes, virtualizando e enriquecendo as belas letras brasileiras destas últimas décadas.

                       

                                   (Pequena recensão lida aos microfones da RDP África em

                                       Janeiro/ Fevereiro de 2007)

                                                                                 

                                                                                         Elsa Rodrigues dos Santos

                                                                  Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa

                                                                                  Lisboa - Portugal