Luiz Pacheco

 

 

Em Teodolito, Luiz Pacheco dizia: “Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer”.

            Estas palavras contundentes que revelam a faceta polémica de Luiz Pacheco confirmam, porém, que a sua escrita era fruto de um grande profissionalismo, como aliás, todo o seu trabalho como editor, ou crítico literário. Luiz Pacheco, apesar da sua vida desregrada, conturbada, de uma certa libertinagem, encenada por vezes como estilo que adoptou, vivendo apenas de um subsídio do Ministério da Cultura e de algumas dádivas de amigos, foi no entanto, como escritor, sempre, surpreendentemente, de um grande método e rigor. Assim se compreende ter ele editado, na editora Contraponto, que fundou em 1950, os mais notáveis escritores da época como Natália Correia, Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Herberto Helder, Cardoso Pires e Vergílio Ferreira.

            Homem de grande cultura, satirizou tudo e todos.

            Fê-lo, porém, com as regras de estilo que ele próprio criou e que definiu no seu livro Exercícios de Estilo criticou a hipocrisia da moral constituída e ergueu-se contra a repressão freirática da ditadura.

            Escreveu textos que se podem considerar dos mais notáveis da literatura portuguesa. “Os Namorados” que inclui a sua obra prima, o texto “Comunidade”, onde concebe a família numa cama-jangada: “Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga e o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia”. Ou ainda: “A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos”.

            Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2006, em homenagem ao poeta, que foi seu grande amigo, mas com quem estava de relações cortadas, Pacheco reedita este belíssimo texto: “Comunidade” em serigrafia / texto com pinturas de Cruzeiro Seixas.

             Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso e temido pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista. Depois do 25 de Abril, entrou para o Partido Comunista, consentâneo com as suas ideias políticas.

            A sua obra literária, constituída por pequenas narrativas e relatos, traz marcas autobiográficas, e libertinas, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de “corrente neo-abjeccionista”, cujo texto emblemático é “O Libertino passeia por Braga, a Idolátrica, o seu esplendor”. Publicado em 1970, este texto, que causou grande escândalo na época, narra um dia passado numa Braga soturna, meio fantasmática, acabando o seu desejo de copos e mulheres onde de modo frustrante, solitariamente angustiante.

            Luiz Pacheco escreveu inúmeros textos regularmente desde 1946 a 2005, e cito:

            História antiga e conhecida (1946) que em 2002 foi reeditado com o título Crítica de Circunstância. Em 1956 um título desconcertante Caca, cuspo & ramela com Natália Correia e Manuel de Lima. Carta sincera a José Gomes Ferreira (1958). O Teodolito (1962). Surrealismo /Abjeccionismo (Antologia) organizada por ele e Mário Cesariny. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu esplendor (escrito em 1961, publicado em 1970) juntando o texto “Angola-é-Nossa”, que constitui um relato pungente de um angolano sobre as atrocidades cometidas contra os negros de Angola. Exercícios de Estilo (1971)  - Literatura Comestível  (1971) – Pacheco versus Cesariny (1974) Carta a Gonelha (1977) – Textos de Circunstância (1977) – Textos Malditos (1977) - Textos de Guerrilha 1 (1979) – Textos de Guerrilha 2 (1981) – Textos de Barro (1984) O Caso das criancinhas desaparecidas (1986) – Textos Sadinos (1991) – O Uivo do Coiote (1992) – Memorando, Mirabolando (1995) – Cartas na Mesa (1998) – Prazo de Validade – (1998) – Uma admirável Droga (2001) – Os doutores, a salvação e o menino Jesus – Conto de Natal (2002) – Mano Forte (2002) – Raio de Luar – (2003) – Figuras, Figurantes e Figurões  (2004) – Diário Remendado de 1971-75 (2005) –Cartas de Leo (2005).

            Luiz Pacheco era considerado um surrealista, pelo menos bebendo das águas surrealizantes. No entanto, ele próprio preferia chamar-se um “neo-abjeccionista”.

            Deu várias entrevistas que foram publicadas, e cartas que ficaram célebres pelo seu tom acutilante e desassombrado.

            António Maria Lisboa, um surrealista que Luís Pacheco muito admirava, dizia:

            “A crítica – eis a razão da nossa permanência”.

            Ao publicar Crítica de Circunstância, Luís Pacheco adoptou para a contra capa essa frase, porque o sentido crítico, polémico e controverso foi lema de todo o seu percurso literário e mesmo da sua vida.

            Já muito debilitado, Luiz Pacheco morre com 83 anos de idade, no dia 5 de Janeiro de 2008.

            O seu esquife foi a sua última cama-jangada, donde do fundo da sua eternidade continuará certamente a clamar contra os erros, os pecados e os desatinos do burguês, sem moral, fustigando-se e fustigando.

                                                                                              

 

 

  Elsa Rodrigues dos Santos