Maitê Proença,
Uma vida Inventada (Romance)
Lisboa, Oficina do Livro, 2008
(Prefácio de José Eduardo Agualusa)
Maitê Proença nasceu em São Paulo, estudou em Campinas (São Paulo) e em Paris. Em 1980, tornou-se actriz, afirmando-se rapidamente como intérprete premiada no cinema, no teatro e na televisão.
A partir de 2003, após 25 anos de carreira, iniciou a publicação de crónicas na revista Época que deu origem ao seu primeiro livro, Entre Ossos e a Escrita, editado pela Oficina do Livro em 2005.
Em 2006, escreveu, encenou e protagonizou a peça de teatro Achadas e Perdidas e estreou-se no programa «Saia Justa» no GNT. Em 2008, escreveu com Luís Carlos Goês a peça As Meninas.
Actualmente, participa na nova novela da TV Globo Três Irmãs. Tem uma filha que se chama Maria e vive no Rio de Janeiro.
Uma Vida Inventada é o seu primeiro romance.
Trata-se de um registo autobiográfico em que Maitê Proença encara com coragem o seu passado, as suas origens, os seus progenitores e os crimes que eles cometeram no amor e desamor.
Como diz Eduardo Agualusa no seu prefácio: «Um relato sobre contradições, no qual Maitê expõe com impressionante coragem a tragédia que lhe destruiu a infância, a sua perplexidade e o seu dividido coração de menina.»
Neste romance em que a realidade se torna ficção para se transformar em arte literária, muitos outros aspectos são salientados como a condição de actriz, sobre a liberdade e como usá-la aos 14, 15, 16 anos, principalmente quando se está só e perante a imagem de um pai bom e meigo que retira a vida de sua mãe num acto tresloucado por se ver traído. É um romance que fala também de drogas, de sexo e de um percurso de vida da personagem, que se confunde com a narradora/ autora, no qual a maturidade é ganha com sofrimento, perdas e algumas desilusões.
«Na história da minha família errou-se muito por não se medir a consequência dos atos. Grandes sofrimentos surtiram por não sabermos conter ímpetos vorazes. Posso afirmar, entretanto, que vivi cercada de uma gente de verdade, interessada em sorver a essência das coisas - na minha família pulsa a integridade até na gota do sangue vertido com a morte: é uma questão de temperamento.», afirma a personagem, recuperando, assim, a família, o próprio pai e os crimes cometidos.
E é com essa transparência e frontalidade que são narrados os episódios dos seus amores, como foram grandes e emotivos e como terminaram, por vezes, com a morte na alma. Porém, a personagem declara que não é uma pessoa infeliz, porque em momento algum as tristezas a imobilizaram.
Os relatos da sua vida prosseguem num vai-vem de passado-presente, num estilo onde denuncia certa influência de Ubaldo Ribeiro, não propriamente na expressão daquele erotismo desvairante do escritor, mas na estrutura narrativa em monólogo vivo, sugerindo outras vozes, outras vivências profundas, Eros e Apolo dialogando, respirando a vida em plenos pulmões.
O pai, que acaba por se matar, a mãe, ensanguentada pelas facadas de raiva e de ciúme pelo amor traído, e os irmãos estão sempre presentes como imagens que lhe marcaram o destino e lhe traçaram a libido e o humor.
Costuma-se não acreditar nos livros que saem das figuras mediáticas e, por vezes, com razão, porque, salvo algumas excepções, por via de regra, são maus.
Assim, com certas reservas, comecei a ler o romance de Maitê Proença, mas logo nas primeiras páginas, verifiquei que estava perante a escrita de uma escritora a sério e terminei com a convicção de que lera um dos romances mais emocionantes dos últimos tempos. Trata-se de uma narrativa escrita a sol e sombra, a duas cores, onde duas vidas se entrelaçam e se encontram numa só, num jogo de imaginação, memórias, vivências e sentimentos profundos. Sem falsos pudores, sem preconceitos, sem a lágrima fácil, apenas a emoção nascida da autenticidade e do vigor intelectual, no manejo das personagens e das situações. Maitê Proença, grande actriz do cinema, do teatro e da televisão brasileiras assume-se agora igualmente com a mesma arte na representação da palavra na ficção brasileira.
Elsa Rodrigues dos Santos