Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo
A
Duração da Eternidade
Três epígrafes, duas de Rimbaud e uma de Ricardo Reis abrem o livro sob o signo da descrença da vida e da existência de liberdade.
«Merde à Dieu» diz Rimbaud, «Porque só na ilusão da liberdade, a liberdade existe…» acentua Ricardo Reis numa das suas Odes. Assim, logo à partida as epígrafes apontam-nos para uma poesia com um certo cepticismo e mágoa.
O primeiro poema é uma reflexão sobre o ofício da escrita e o autor fala-nos de «loucura», de «uma frustre maré interior», «o inexorável rigor» e «depois a remota eternidade de um corpo».
Jogando com o conceito de «literatura», que é ofício eterno, mas também «leitura e ócio», o poeta termina ironicamente rimando com a palavra «literadura», porque a escrita, se é algo de eterno, implica também sofrimento.
No poema II, o poeta, na sequência do primeiro, afirma. «e não dura o dom». Confronta-se, então, o sentido de eternidade com o de efemeridade, isto é, eternidade, na qual o poeta acredita e efemeridade que constata. E aí reside a dor do sujeito poético, entre o prazer fugidio das palavras e o projecto de escrita para a eternidade que se confundem com o vazio dos dias entre «a vã cobiça de um corpo», «prazer efémero», o desejo de amor e «a morte suprema» desse mesmo amor, dessa mesma vida.
Fica apenas a ilusão de que a sua escrita permanecerá eternamente ( «luar de letras consentidas» (…) «assim as guardo. cioso» «até à circulação da eternidade. Suponho eu.»)
No poema III, o «eu» surge em forma de Outono que «vem todos os anos. outonos suaves. como a mãe gostava. eternos e não duram muito.»
«Outono», não apenas como símbolo do declinar das estações e da existência, mas como algo de doce, de sensual, de recordação de um amor que «morreu há muito e é eterno e outono talvez.» Eterno porque volta sempre, ainda que passageiro.
Institui-se com persistência o binómio eternidade/efemeridade na escrita e sobretudo no amor porque «até a eternidade morre vilmente» (V).
«Cristo morreu como se fosse eterno/ como se fosse manso rio de um continente desconhecido» (VI).
Eros e Tanatos se degladiam entre o ser e o estar, entre a essência e a vivência.
Erotismo e vida, erotismo e morte (oh vã comédia da vida) fundem-se na alma do poeta através da arte das palavras.
Numa escrita indócil, viril, entre o cunho clássico pela virtude da cultura, da qualidade e da sabedoria e a marca do modernismo na criatividade de uma nova gramática, Motta Cardôzo oculta as cicatrizes e os dias felizes, na convicção da posteridade da palavra poética.
Assim o acreditamos, pela publicação deste seu primeiro livro de poesia, belo nas suas metáforas e representações, que desejamos não ser um acto isolado e efémero, mas retornando em outros Outonos suaves e marcantes, enriquecendo as belas letras portuguesas.
Elsa
Rodrigues dos Santos