Manoel de
Oliveira, um cineasta ao serviço
do cinema português
há mais de 7 décadas
Manoel de Oliveira nasceu no Porto em 1908, tendo,
portanto, 100 anos, com uma saúde e uma juventude invejáveis, concretizando os
seus projectos de trabalho com uma alegria renovadora, estando aí exactamente o
seu segredo da longevidade.
Filho de Francisco José Oliveira, um conhecido
industrial, no seu tempo, pois foi o primeiro fabricante de lâmpadas em
Portugal, cedo começou a trabalhar nas empresas de seu pai. Fez muito desporto
(atletismo, natação e corridas de automóvel), mas muito cedo também se
interessou pelo cinema que viria a ser a sua grande paixão.
Desde 1931 e já lá vão 74 anos, que Manoel de Oliveira segue a sua estrela, começando, nesse
ano, por uma curta metragem a que deu o título «Douro,
faina fluvial». Ficou conhecido por esse magnífico filme Aniki Bobó, em 1942, inspirado no conto Meninos Milionários de Rodrigues de
Freitas, tendo como assistente Manuel Guimarães, pintor e cineasta, pai do
conhecido poeta e também cineasta Dórdio de
Guimarães.
Depois disso, inúmeros foram os filmes que marcaram
uma época e um estilo no cinema português.
Lembremo-nos de O
Passado e o Presente, em 1972, cujo argumento se baseou na peça teatral de
Vicente Sanches e rodado precisamente na casa-palácio
do autor, em Castelo Branco. Este é um filme sobre o comportamento de
determinada classe, olhada de um modo crítico. Nesta medida, este filme terá um
cariz político, mas o que mais o evidencia é o
conceito de arte na qual há uma rotura ou uma violentação (como prefere definir
Manoel de Oliveira) da ordem estabelecida.
É isso, na verdade, que mais o encantou e que iria,
de ora em diante, traçar um caminho na sua realização e na sua técnica, onde o corte,
a sobreposição de planos, o distanciamento das personagens são marcas
dominantes da sua modernidade.
Em 72, estreia-se o filme Acto da Primavera, representação popular dos Mistérios da Paixão,
segundo um texto do sec. XVI de Francisco Vaz de
Guimarães. Entretanto, estreiam-se várias exímias curtas-metragens como: O Pintor e a Cidade (1956), O pão (1959), A Caça(1964), As Pinturas do meu irmão Júlio, com música
de Carlos Paredes e comentários e versos de José Régio ( irmão de Júlio).
Manoel de Oliveira tem sido atraído pelas obras de
autores nacionais, como Camilo Castelo Branco, José Régio, Agustina Bessa Luís,
onde essas marcas de corte e da rotura com a ordem estabelecida já aí se
encontram, pelo menos, em embrião, podendo ser exploradas no cinema.
Benilde ou
Virgem Mãe, em 1974, extraído da
peça de José Régio foi o seu primeiro filme só com actores profissionais.
O cineasta foi aí, mais uma vez, atraído por um
tema insólito e invulgar. A estranheza encontrava-se no facto de uma menina ter
engravidado, convencida de que estava virgem.
Benilde
com as suas convicções e alucinações religiosas e místicas vai abalar a sua
instituição familiar pelos acontecimentos, mexendo igualmente com o aspecto
político, porque faz estremecer os alicerces da ordem instituída.
Amor de
Perdição de Camilo Castelo Branco
é outra obra que Manoel Oliveira adaptou ao cinema,
com uma técnica nova que chocou o público português pelo tal distanciamento que
as personagens emprestavam à acção, como se fossem autómatos, ou estivessem ligadas
a um outro mundo que não este.
O filme é composto por uma visão do velho regime,
pondo em evidência índoles, educações, processos, poderes que dividem e opõem
duas famílias: a de Simão e a de Teresa e todo o universo que os
contextualizam. Por outro lado, o amor puro destes dois
jovens, como ainda o amor de Mariana por Simão, cujo sacrifício transcende o
tempo, constituem a dramaticidade e poeticidade
que Manoel de Oliveira explora magistralmente.
Surgia, depois, Francisca
(1981), o quarto filme da tetralogia de amores
frustrados (depois de O Passado e o Presente, Benilde ou Virgem Mãe e
Amor de Perdição), inspirado na obra
de Agustina Bessa Luís, Fanny Owen, onde
retrata episódios da vida de Camilo Castelo Branco.
Francisca foi o acontecimento da Quinzena dos Realizadores
em Cannes, em 1981, onde foi considerado «uma obra prima
incomparável com os filmes em competição»
Depois veio um projecto muito mais ambicioso, Sapato de Cetim (1985), uma versão de
5,55H do Soulier de Satin de
Paul Claudel.
Com este filme Manoel de
Oliveira ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Um ano mais tarde, o realizador
estava de volta a Veneza para abrir o festival com o Mon Cas (1986).
Não era um filme sobre guerras perdidas, mas uma
variação sobre o tema do cinema e do teatro. Parte deste filme inspira-se na
peça teatral de José Régio, O Meu Caso. Este
filme é feito de bocados separados que aparentemente não têm ligação nenhuma,
mas que projectam a representação da vida.
Em seguida é a estreia de Os Canibais (1988) que é um filme ópera baseado num conto
fantástico de um escritor inédito do princípio do século XX, Álvaro Carvalhal.
Depois aparece Non ou a Vã Glória de Mandar que é uma visão histórica de Portugal, só
possível depois do 25 de Abril.
A Divina
Comédia (1991) que foi mal
compreendido, porque o título não se adaptava minimamente ao tema do filme.
Fora apenas uma homenagem a Dante. A acção passa-se num asilo de alienados e
está mais próximo de Crime e Castigo de
Dostoievski, de José Régio ou de Nietzsche.
O Dia do
Desespero (1972) centra-se nos
últimos dias de Camilo. Toda a acção situa-se em ambientes naturais, ou seja,
na casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, que foi
reconstruída propositadamente para o filme depois de um incêndio que a tinha
destruído. Já em 1940, Oliveira filmara nessa casa uma curta
metragem intitulada Famalicão, encenando
o suicídio de Camilo precisamente na sua cadeira de baloiço.
Volta de novo a Camilo e a Agustina em Vale de Abraão (1993)
Em
1994, estreia A Caixa, em que muitas das
suas personagens eram os miúdos de Aniki Bobó, agora já velhos e que constitui a sua primeira
abordagem ao tema da Unificação Europeia.
Depois, interessado pelo tema de Fausto, a tentação diabólica, a luta do
bem e do mal, recorre-se de novo a Agustina Bessa Luís, pedindo-lhe que escreva
uma obra com esses temas e ela apresenta-lhe O Convento e, a partir do romance, ele realiza o filme a que dá o
mesmo título.
Party é um
filme que faz ainda parte da tetralogia inicial de
amores frustrados. Ocorrem as cenas
Depois de Party, todos os
filmes mantêm como tema subjacente a ideia de morte.
É o caso de Viagem
ao princípio do Mundo (1997), Inquietude
(1988).
Neste último filme, são adaptadas três histórias: Os Imortais de Prista
Monteiro, um conto, Suzy
de António Patrício e A Mãe de um Rio de
Agustina Bessa Luís, em que o místico e o mítico se entrosam, no sentido de pôr
em evidência as duas perspectivas do tempo: passado/presente e as duas
dimensões sociais: o conservador, representado pelo burguês e as figuras do
povo, vítimas de quem é detentor do poder.
Em 1999, estreia-se A Carta, transpondo uma história galante do sec.
XVI, inspirada no romance de Madame de
ves para a actualidade.
No
ano 2000, Manoel de Oliveira centra-se na grande
figura do sec. XVII, o jesuíta Pe
António Vieira com o filme Palavra e Utopia.
Em
2001, com o filme Vou para casa volta
a Cannes em competição.
Manoel
de Oliveira que transpõe a fronteira dos 96 anos de idade a terminar mais um
filme e com dois projectados, oferece-nos ainda o que há de melhor no cinema
português, pela sua sabedoria, modernidade e sentido crítico do mundo que nos
rodeia.
E termino com as sábias palavras de João Bénard da Costa, extraídas de o Jornal do Comércio do
Porto, de 11/12 /1998:
«Oliveira
costuma dizer que não é o cineasta mais velho do mundo, mas o mais novo.
E
tem razão porque a sua obra é a que mais surpreendente inova, pois cada um dos
seus filmes desorganiza, desarruma as ideias feitas e antes formadas,
pondo-lhes novos rumos e novas orientações. Não é um clássico ainda em
actividade, mas um dos cineastas mais modernos e dos poucos que se mantém fiel
à ideia base do cinema como arte moderna.»
Elsa Rodrigues dos Santos