Manuel Teixeira Gomes
1860-1941
Manuel Teixeira Gomes nasce em Portimão em
27 de Maio de 1860 e morre em 18 de Outubro de 1941 em Bougie (Argélia).
Filho de Maria da Glória Teixeira Gomes e
de José Libânio Gomes, um comerciante abastado e fiel republicano, é com seu
pai que aprenderá o negócio dos figos e frutos secos que lhe abrirá as portas
da Europa.
Da infância que passa no Algarve, guardará
para sempre a beleza das suas paisagens. O mar e as casas brancas, as suas
gentes, as amendoeiras que se estendem até Espanha, ficarão no seu imaginário.
Os estudos levam-no a Coimbra. Entra no Seminário onde fará os estudos liceais.
Frequentará depois a Faculdade de Medicina, mas não terminará o curso.
Na sua vida de boémia e de intelectual, tem
a oportunidade de conhecer as grandes figuras da cultura portuguesa de quem se
torna amigo fraternal, como por exemplo, Columbano Bordalo Pinheiro, João de
Deus, Fialho de Almeida, Marques de Oliveira e também António Nobre e Abel
Botelho.
Em 1981, representa o Sindicato de
Exportadores de Figo do Algarve. Uma oportunidade para conhecer a Europa
cultural dos Museus e Galerias de Arte. Dessa obrigação profissional que o leva
a viajar regularmente pela Europa do Norte, soube retirar o que de melhor a viagem
pode proporcionar a um ser rico e culto, a descoberta de um país e de uma
cultura e, por outro lado, a aquisição de obras de arte dos grandes pintores da
época. Teixeira Gomes visita a Itália, anos seguidos, a fim de apreciar a sua
pintura, escultura e arquitectura, adquirindo belos quadros.
Com a revolução de 5 de Outubro de 1910,
Teixeira Gomes abandona a vida doce de abastado comerciante para se entregar à
política. Os seus ideais republicanos reforçam-se e ganha um protagonismo
preponderante no novo quadro constitucional. Em 1911, é nomeado Embaixador
Com o golpe militar de Sidónio Pais, em
1918, é chamado por ele a Lisboa, onde recebe tratamento humilhante,
demitindo-o das suas funções. Só após o assassinato de Sidónio Pais, regressará
à política.
Em 1923, e após três escrutínios, Manuel
Teixeira Gomes é eleito Presidente da República, o sétimo, após a implantação
da república.
Dois anos depois, em 1925, Teixeira Gomes
renuncia ao cargo e parte para o exílio no cargueiro Zeus, muito amargurado e
desiludido com a política portuguesa., sentindo-se como prisioneiro numa gaiola
de ouro, pois esses 16 anos da I República foram extremamente conturbados e
marcados pelas sublevações públicas, comandadas pela ganância do poder. Ele
próprio escreveu que mais não era do que «um prisioneiro, um misto de boneco de
palha e de senhor da cana verde, o primeiro para ser mandado e o segundo para ser
insultado.»
Depois de algumas viagens, fixa-se em
Bougie, na Argélia, no Hotel l’Étoile, a 5 de Setembro de 1931. Aí, no seu
quarto com uma vista admirável para o Mediterrâneo, com a sua bela praia,
recordando-lhe o Algarve, ele sente-se livre, gozando a liberdade de não ser
ninguém, de não encontrar ninguém conhecido, confinado a um espaço recatado de
um modesto hotel colonial, acarinhado pelos donos e por Amokrane, um dedicado
serviçal, nascido no país, a quem chamavam «Maribú», o Miraculado, o Santo.
Durante este período, corresponde-se com
os amigos mais próximos e colige algumas notas sobre Portugal que reunirá no
seu livro «Regressos». Em 1939, Norberto Lopes visita-o em Bougie,
encontrando-o ainda amargurado com Portugal. Numa carta que Teixeira Gomes
escreve a João de Barros, fala de Bougie com entusiasmo e diz muito
ironicamente querer comemorar ali o seu centenário. Com estas palavras, o mesmo
queria dizer que gostaria de terminar ali os seus dias, o que virá a acontecer.
Depois de uma prolongada doença, encontrando-se cego e extremamente debilitado
por uma congestão pulmonar que foi o princípio do fim, sofrida em 39, morre em
1941, no seu quarto do Hotel l’Étoile. O seu caixão é depositado no jazigo da
família dos proprietários. Os seus restos mortais serão trasladados para
Portimão em 1950. Ele, que fora um símbolo da liberdade, até depois de morto
foi hostilizado pelas forças da Pide de então que, no dia do seu funeral, em
Portimão, perante uma população que o recebia numa manifestação de pesar, de
solidariedade e de respeito, esta foi violentamente reprimida.
Como escritor Manuel Teixeira Gomes
cultivou vários géneros (teatro, conto, novela, cartas), nos quais a linguagem
se evidencia pela sua riqueza vocabular, recorrendo a uma imagética que vai da
pintura à escultura, da paisagem à literatura, da política à filosofia, onde a
emoção, o prazer, a sensualidade das experiências estéticas, intelectuais e
carnais ganham uma expressão desassombrada.
Obras e publicações:
Em 1882, apenas com 22 anos, faz a estreia
literária na Folha Nova. Colabora na Folha de Hoje e no Primeiro de Janeiro.
Em 1899 publica a 1ª edição
de Inventário de Junho.
Em 1903, a 1ª edição de Cartas sem Moral Nenhuma.
Em 1904, Agosto Azul.
Em
1905, Sabina Freire
Em 1909, Gente Singular
Em 1932, vinte e um anos depois retoma a
escrita literária, com Cartas a Columbano
Em 1935, Novelas
Eróticas e Regressos
Em 1938, Maria Adelaide (o livro é apreendido pela censura)
Em
1939, Carnaval Literário
Em 1942, edição póstuma de Londres Maravilhosa e outras páginas
dispersas
O seu espólio literário encontra-se no
Arquivo Histórico do Museu e da Biblioteca de Portimão.
As obras de arte que coleccionou encontram-se
distribuídas pelos Museus Nacionais de Lisboa, Porto e Coimbra, pela Casa da
Moeda e pelo Museu Municipal de Portimão.
Carnaval Literário em
comemoração dos 150 anos do nascimento de Manuel Teixeira Gomes
A Cidade de Portimão, através dos serviços
culturais da Câmara Municipal comemora, este ano, os 150 Anos do Nascimento de
Manuel Teixeira Gomes com exposições, concertos, recitais de poesia e um
Colóquio com duas fases (a primeira, em Abril e a segunda, em Outubro), com a
participação de grandes nomes da cultura portuguesa.
Em 16 e 17 de Abril decorreu a primeira
fase do Colóquio. A Prof. Dra. Cristina de Almeida Ribeiro que, primeiramente
apresentara a conferência com o título «Representações do Feminino e jogos de
sedução da novelística de Manuel Teixeira Gomes», no final do Colóquio, fez o
balanço deste Encontro.
Não referenciou as comunicações de cada um
dos participantes, com as devidas conclusões, como é habitual, mas captou
globalmente e com muita perícia, os objectivos que estiveram aí subjacentes.
Começou por afirmar que este Colóquio teve
como objectivo reformular a obra e a personalidade de um homem que estava muito
esquecido. Assim, fez-se um esforço para reanalisar a sua obra, nos vários
géneros cultivados, em intervenções que tiveram linhas de convergência não só
na abordagem das suas obras, como também nos graus de intimidade que existem
entre os vários leitores e o autor, pessoas que tiveram, durante décadas,
relações com a sua obra, como é o caso de Urbano Tavares Rodrigues, que não
esteve presente, mas que fez a coordenação científica, José-Augusto França.
Hélder Macedo, Eugénio Lisboa, Victor Wladimiro Ferreira. Apesar disso e dos
estudos aprofundados, especialmente de Urbano Tavares Rodrigues com a sua tese
de doutoramento intitulada «Teixeira Gomes, o Discurso do Desejo» e os estudos
de David Mourão-Ferreira, ainda há muito que trabalhar sobre aspectos da vida e
obra desta grande figura das letras portuguesas.
Concluiu-se também que a contextualização
deste escritor deve ser ampliada, quer no domínio literário, quer filosófico,
quer social, quer político.
Na sua ficção como na epistolografia,
detectou-se a valorização da natureza, da arte e da vida, marcadas pelo prazer
que advém da sua capacidade de abertura no conhecimento do outro, nas suas mais
diversas facetas. A sua expressão erótica encontra-se principalmente em Adelaide e nas Novelas Eróticas. Há uma profunda influência de Nietchz que o leva
a escrever Cartas Sem Alguma Moral.
O fundamento literário de
Teixeira Gomes está dentro do próprio homem, mas igualmente expressa-se no
desejo, no erotismo, na exuberância do corpo feminino.
Elsa
Rodrigues dos Santos