Manuel
Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal)
“O original dactilografado
do romance, Até amanhã, Camaradas,
foi encontrado junto de outros originais, num arquivo formado, no decurso dos
anos, ao sabor dos incidentes e de acidentes, na vida agitada daqueles mesmos
dos quais o romance dá alguns exemplos típicos.
Desconhece-se
quem é o autor. O único exemplar encontrado não tem assinatura.
Só,
numa pequena folha apensa e apagada, podia ler-se, em rabisco apressado, o nome
Manuel Tiago, pseudónimo de certeza.
Foram
consultadas pessoas que poderiam dar eventualmente indicações conduzindo a uma
identificação. Sem resultado. O autor fica assim merecendo o título de “homem
sem nome”, tal como as personagens do romance.»
Só
depois da queda da ditadura se desvendou o mistério e se identificou o autor,
como sendo Álvaro Cunhal, a figura mais carismática do PCP que foi durante
muitos anos Secretário-Geral do seu partido.
O
romance Até amanhã, Camaradas é,
antes de mais nada, um documento histórico da resistência portuguesa contra a
ditadura.
O
núcleo fundador desta narrativa é, porém, a vida interna do PCP.
Centra-se,
sobretudo, nos militantes clandestinos e nos seus problemas políticos, de
segurança, de comunicação com as bases, além das vivências pessoais, quer
sentimentais, quer de sobrevivência e de relacionamento com os camaradas e com
o exterior.
A
acção passa-se nos anos difíceis da Segunda Guerra Mundial e durante as lutas
populares que o PCP organizava no Vale de Tejo por volta de 1944.
Inicia-se
com a chegada de um jovem, de bicicleta, num dia de chuva torrencial, a uma
aldeia recôndita, procurando um tal Manuel Rato. Ele é, segundo se apresenta, o
sapateiro de Santarém que, passando caminhos esconsos e lamacentos, subindo e
descendo vales, prossegue a viagem, apesar da intempérie.
Encontrando
Manuel Rato, mostra-lhe a senha (um pedaço de papel com o desenho de uma planta
de sapato) a que se iria ligar a outra metade que Manuel Rato também possuía,
confirmando assim a sua autenticidade.
Eles
falam da pobreza da aldeia, da falta de trabalho, da exploração dos camponeses,
dizendo-lhe Manuel Rato que, em breve, iria trabalhar para as minas.
Depois
de sua mulher lhe oferecer um caldo quente com hortaliças e uma broa com
toucinho, passaram parte da noite a conversar. Manuel Rato, a mulher e Joana, a
filha, que, apesar de muito novinha se interessava por tudo e queria ouvir
histórias sobre a União Soviética e sobre o trabalho que estavam a realizar.
Mas
este jovem, de rosto duro e enérgico, tem de prosseguir a sua longa caminhada
em busca de outros camaradas a fim de criar a ligação entre este sector e a
organização.
A
chuva persegue-o e é molhado até aos ossos que chega a uma taberna, numa
povoação vizinha, onde pede um quarto de pão, um queijo fresco e um copo de
vinho.
Em
seguida, ele parte para a cidade onde irá ter lugar uma reunião do Comité
Regional, na qual se discutirá sobre as praças de jornas, em que os
trabalhadores eram contratados. Uns consideravam que deviam pôr fim a esses
vestígios de servidão, onde os patrões e manajeiros ofereciam jornas «como quem
oferece numa feira o preço do gado.»
Mas
a ordem do Comité Central, veiculada por Vaz, o rapaz da bicicleta, era
continuar as praças, porque aí estavam todos juntos e podiam fazer o seu preço.
Enquanto que se estivessem separados, a exploração sobre eles individualmente
seria maior. Marques, que estivera contra esta decisão, enfrentando o olhar
fixo de Vaz, disse-lhe:
“Os
Camaradas do Comité Central estão lá muito, muito em cima e nem sempre são
informados”.
Uma
hora mais tarde, já Vaz se encontrava a léguas de distância, sentado no
escritório de um camarada advogado. Vaz encontrava-se muito cansado e o
advogado insistia na crítica ao trabalho do Partido, ao jornal que considerava
pobre, sem artigos de divulgação doutrinária e, por vezes, com erros.
E
quando Vaz lhe pergunta se ele tinha elementos sobre o caso das negociatas do
Governador Civil com a Câmara, ele responde com evasivas, que era um caso muito
delicado.
Também
se esquecera de comprar o Diário do Governo, conforme lhe tinha sido pedido.
Depois,
à pergunta se poderia dormir ali no seu escritório ou na casa dele, o advogado
fica muito agitado e acaba por dizer que era muito perigoso ficar ali e que, em
casa, a sua família era muito burguesa e não compreenderia aquela intromissão.
Vaz
parte e, por momentos, vem-lhe à memória a família modesta de Manuel Rato,
recebendo-o naquela casa pobre, no entanto, com tanto carinho. E é neste clima,
por vezes, mesmo de desconfiança entre os camaradas, de vidas projectadas para
a clandestinidade, onde os esperaria uma vivência muito dura, de sobressalto em
sobressalto, de privações de toda a ordem, até de comida, que se desenrola a
acção.
Vaz
faz-se à rua debaixo de chuva. Já era tarde e não podia ir procurar uma pensão
que despertaria suspeitas. Nessa semana passara já duas noites em branco,
fizera centenas de quilómetros de bicicleta, andara léguas e léguas a pé,
comendo apenas uma pequena refeição por dia. Agora abrigava-se debaixo dum aqueduto,
o chão era um charco e o frio penetrava-lhe no corpo. Só de manhãzinha,
tiritando de frio e de fraqueza fora procurar outro camarada, o Pereira.
A
casa dos Pereiras tornara-se primeiro um “ponto de apoio” do aparelho
clandestino e, depois, quando Pereira se tornou responsável da organização
local, o ponto de ligação dos controleiros com a organização.
Aí
vai encontrar a comida quente de que necessitava, uma cama e o calor humano.
Destes
episódios ficamos a conhecer a vida dos controleiros, andando quilómetros a pé
ou de bicicleta, passando dias sem dormir e quase sem comer. Somos igualmente
espectadores da vida de privações dos camponeses e dos operários que vão ter o
apoio do partido nas suas reivindicações. No meio do romance, o PCP lidera
greves e manifestações que apanham as autoridades desprevenidas, mas logo
seguidas de brutal repressão que conduz os protagonistas à prisão e mesmo à
morte. É o caso da filha de um militante que, numa greve, se coloca à frente do
pai para o proteger da brutalidade da polícia que lhe está a bater e é morta
por uma bala do agente.
E,
quase no final da obra, a morte a tiro de um dos militantes mais activos.
As
três personagens que mais se evidenciam neste romance são Vaz, Ramos e Maria.
Pela faceta austera de Vaz, tem-se considerado que será uma identificação desta
personagem com Álvaro Cunhal, embora muitas das características de Ramos sejam
também compatíveis com a personalidade do autor.
Até amanhã, Camaradas tornou-se através
destes anos uma epopeia do PCP, onde o passado épico eleva a heróis os seus
militantes, protagonistas da acção do romance.
Esta
obra foi transposta para o cinema numa série que a SIC reproduziu em dois
episódios de uma forma magistral. O romance encerra, com efeito, qualidades a
nível dos planos da acção e do seu dinamismo que se adaptam à técnica
cinematográfica.
A
dramaticidade dos acontecimentos e o carácter épico e ético conferem a esta
obra a qualidade artística e humana que é o produto de um autor que dedicou
toda a sua vida a um ideal, sem equívocos ou incoerências.
Elsa Rodrigues dos Santos